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16/06/2007
Paris à bicyclette - Redescobrindo o romance da bicicleta

Stefan Simons
Em Paris


Yves Montand tem uma música chamada "À Bicyclette", uma canção de amor para uma mulher cujo nome ("Paulette") rima convenientemente com o meio de transporte que é o título da melodia. Trata-se daquilo que as pessoas de fora acham "tipicamente francês", tanto a música quanto o sentimento. Exceto pelo fato de a boa e velha bicicleta ser considerada tão antiga na França do século 21 quanto o próprio Montand. Há exceções - como bicicletas dotadas de equipamento de alta tecnologia e reconstruídas como instrumentos de atletismo de velocidade. Os indivíduos que praticam o ciclismo como esporte, usando roupas fluorescentes, podem ser admirados enquanto pedalam pelas pistas de corridas de cavalos do Bois de Boulogne, por exemplo. Eles geralmente andam em grupos, o que não se coaduna com a personalidade francesa.

Marlene Bergamo/Folha Imagem 

Mas tudo isso pode mudar caso o prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, e Denis Baupin, do Partido Verde - o homem encarregado de cuidar das questões de transportes em Paris - consigam fazer o que desejam. Eles querem converter os cidadãos da cidade em adeptos da opção de transporte saudável e ecologicamente correta que é o ciclismo. Em 15 de julho - o dia seguinte ao Dia da Bastilha - Paris inaugurará um sistema municipal de aluguel de bicicletas públicas, chamado Vélib, com a intenção de dar ao povo o poder de pedalar.

A idéia, que conta com o auxílio da alta tecnologia, consiste em permitir que os parisienses, assim como os turistas, aluguem bicicletas em estações públicas usando apenas um cartão magnético. Pelo menos 750 estações de auto-atendimento equipadas com 10 mil bicicletas de aluguel entrarão em serviço em julho. O governo municipal socialista-verde tem promovido a idéia de que bicicletas não produzem emissões poluentes, conferem mobilidade nos congestionamentos de trânsito e - o mais importante - são fáceis de estacionar. Eles querem que as pessoas em Paris prefiram a bicicleta aos carros, ônibus ou metrô. Andar de bicicleta não é sequer uma opção mais lenta do que dirigir, já que os motoristas de automóveis em Paris se locomovem pelas avenidas e ruas da cidade a uma velocidade média de apenas cinco quilômetros por hora.

Bicicletas liberadas

O modelo Vélib de aluguel de bicicletas públicas - do qual já existem variações em outras cidades como Rennes, Estrasburgo e Lyon (sem falar em Berlim) - é simples. Cada estação é dotada de 15 bicicletas. O usuário libera uma bicicleta de uma estação por meio de um cartão magnético, que a seguir lhe permite depositar a bicicleta em outra estação ao fim da jornada. O pagamento é feito eletronicamente. O usuário precisa carregar o cartão comprando uma inscrição no serviço, uma operação que pode ser feita online, em instalações da prefeitura ou dos correios. Em algumas estações também será possível utilizar passagens do metrô para pegar uma bicicleta.

As bicicletas - "chiques e cosmopolitas", segundo Céline Lepault, da prefeitura; pintadas de um "cinza elegante", de acordo com o diário francês "Le Monde" - são objetos de fato excelentes. Elas pesam 22 quilos e trazem um cesto conectado ao guidom. E são também equipadas com um farolete, um cadeado e uma alavanca de três marchas fácil de manejar. Não se trata daquele tipo de bicicleta ligeira de corrida nem das incrementadas mountain bikes que podem tentar os ladrões, mas sim um meio de transporte simples adaptado à selva urbana e apropriado para as curtas distâncias. A característica essencial do modelo Vélib é o fato de as bicicletas poderem mudar de mãos de maneira rápida e freqüente: a estrutura de preço encoraja os usuários a pedalá-las em trechos curtos, só de ida, e a depositarem-nas de novo nas estações eletrônicas - em vez de alugarem uma bicicleta por um dia ou uma semana inteiros.

A firma de publicidade JCDecaux, que fornece as bicicletas, prometeu dobrar o número delas até o final do ano. Até dezembro de 2007, quase 2.100 bicicletas deverão estar em circulação em Paris. A manutenção das bicicletas e o controle do sistema ficará a cargo de 300 funcionários da JCDecaux.

Como caminhoneiros em Citroëns

A estréia do Vélib ocorre após várias iniciativas privadas e governamentais encorajando as pessoas a pedalar. Na França, 300 cidades comemoraram o "Festival da Bicicleta" em junho, e somente uma semana depois ciclistas saíram às ruas pelados em um protesto organizado internacionalmente para promover este meio de transporte limpo e chamar atenção para a vulnerabilidade dos ciclistas nas cidades.

Essa vulnerabilidade é algo que Baupin e Delanoe também desejam abordar, já que andar de bicicleta por Paris ainda requer certa coragem. Encurralados entre uma parede sólida de automóveis e motociclistas perigosos - ou pilotos kamikazes de lambretas - os ciclistas nesta cidade de dois milhões de habitantes necessitam de nervos e panturrilhas fortes, ainda mais porque o ciclista francês típico tende a navegar pelas ruas de Paris imbuído de um espirito jacobino de revolta. As luzes vermelhas dos semáforos não são tidas como sinais de parada; 71% dos ciclistas disseram ao jornal "Le Parisien" que simplesmente passam rapidamente pelos cruzamentos. As ruas de mão única têm um caráter principalmente simbólico. O ciclista francês é assertivo e incauto, assim como o motorista parisiense, que tende a se comportar como um caminhoneiro, mesmo quando se senta atrás do volante de um Citroën.

Mas a cidade investiu pesadamente na sua infra-estrutura ciclística nos últimos três anos. Esta medida faz parte de uma estratégia maior no sentido de estragar o prazer dos motoristas de carro, uma estratégia que deu ao prefeito Baupin a reputação de ser um "louco perigoso", ou mesmo um "Khmer Verde".

O "homem que declarou guerra aos carros" (conforme a revista "Le Nouvel Observateur" o denomina) é capaz de entender a raiva dos motoristas: "Afinal de contas, isto não diz respeito apenas a um meio de transporte", diz o prefeito Baupin. "Trata-se do lugar dessas pessoas na sociedade". Mesmo assim o tecnocrata e defensor do trânsito metropolitano ("Eu ando em um carro de cem cadeiras: ele se chama metrô") está convencido de que somente medidas como esta serão capazes de evitar problemas como a poluição atmosférica e os congestionamentos de trânsito.

Desde 2001, a rede de ciclovias de Paris foi expandida para um total de 320 quilômetros. Várias dessas ciclovias são corredores de tráfego separados, ou pistas marcadas ao longo das ruas e, fora de Paris, ao longo dos canais. Isso certamente representa uma melhoria. Mas os estatísticos também consideram como pistas de bicicletas aqueles 118 quilômetros de rotas "chaussée" que os ciclistas "dividem" com os ônibus. E até mesmo onde as pistas são exemplares, como ao longo das margens do Sena, os ciclistas não conseguem pedalar tranqüilos - já que os motociclistas usam essas pistas durante a hora do rush, provocando colisões às vezes sérias.

Assim, Paris continua sendo um território perigoso para os que optam por pedalar, mas a bicicleta ainda se constitui em uma alternativa prazerosa para os turistas. Associações como a "Mieux se déplacer à bicyclette" (MDB, ou "É Melhor Viajar de Bicicleta") ou a "Paris Rando Vélo" organizam excursões e passeios noturnos. Enquanto isso, companhias como a "Paris à Vélo, C'est Sympa", "Paris Vélo Rent-a-bike" e "Paris Bike Tour" oferecem passeios extravagantes - também em língua estrangeira. As agências de aluguel de bicicletas oferecem os seus próprios serviços, e aqueles que temem as inclinações das colinas da cidade - como no Butte Montmartre ou nas proximidades dos Champs Elysées - podem recorrer às bicicletas alugadas pela agência "Paris Charms Secrets", que são equipadas com motores elétricos auxiliares.

Baupin e Delanoe esperam que um pouco de ação governamental possa fazer com que Paris retorne a uma era um pouco mais simples. Talvez a cidade do amor ainda possibilite encontros inesperados do tipo romântico, como aquele a respeito do qual Yves Montand cantou: à Bicyclette. De qualquer maneira, Paulette ficaria fascinada.

Tradução: UOL

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