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15/01/2008 - 02h25

Entrevista: Musharraf acusa terrorista do Waziristão do Sul pela morte de Bhutto

Der Spiegel
Entrevista conduzida por Erich Follath e Susanne Koelbl, em Islamabad
Spiegel - Sr. presidente, o Paquistão é um terreno fértil para o terrorismo e a Al Qaeda deseja derrubar seu governo para se apossar das armas nucleares do país. O Paquistão é o país mais perigoso do mundo?
Musharraf -
Isso é um enorme exagero. Mas eu não nego que a Al Qaeda esteja operando aqui. Ela está realizando terrorismo nas áreas tribais, é a responsável por trás desses atentados suicidas. Apesar de tudo isso ser verdade, uma coisa é certa: os fanáticos nunca tomarão o Paquistão. Isso não é possível. Eles não são tão fortes militarmente para poderem derrotar nosso exército, com seus 500 mil soldados, nem politicamente -eles não têm chance de vencer eleições. Eles são fracos demais para isso.

EFE - 27.dez.2007 
Pervez Musharraf diz estar pronto para trabalhar com quem vencer as eleições paquistanesas

Spiegel - O "New York Times" noticiou que o vice-presidente Dick Cheney e a secretária de Estado, Condoleezza Rice, estão planejando operações secretas com agentes da CIA na área tribal. O senhor foi informado a respeito?
Musharraf -
Eu nunca permitiria forças americanas operando em solo paquistanês. Se precisarmos de apoio, nós pediremos. Somos nós que atuaremos, ninguém mais. Pouco antes de nossa entrevista, eu me encontrei com uma delegação de funcionários da inteligência americana. Nós compartilhamos plenamente nossas informações e há coordenação total. Eles me transmitiram que o presidente Bush me considera um amigo bastante sincero.

Spiegel - O mandato dele está quase acabando.
Musharraf -
Pessoalmente, eu sentirei muita falta dele. Ele é um amigo, um homem bastante direto. Relações pessoais pesam na política, mas o interesse nacional pesa muito mais.

Spiegel - O próximo presidente dos Estados Unidos poderá ser um democrata. Os candidatos à frente nas pesquisas declararam que mudariam a política em relação ao Paquistão. Hillary Clinton deseja impor controles americanos sobre o arsenal nuclear paquistanês e Barack Obama gostaria de enviar soldados americanos para combater os extremistas em seu país...
Musharraf -
... (ri, balança a cabeça)

Spiegel - ...eles também poderiam cortar a ajuda militar e econômica ao Paquistão, que foi de mais de US$ 10 bilhões desde 2001. Os candidatos democratas já entraram em contato com o senhor?
Musharraf -
Todos esses políticos que você mencionou e que falam dessa forma não têm acesso à informação de inteligência que lhes proporcionaria uma visão exata da situação. Quando essas pessoas tiverem acesso a tal inteligência, eu estou certo que não adotarão uma abordagem diferente daquela de seu antecessor. Por que iriam querer fazer algo para nos desestabilizar, uma potência nuclear? Eles não agirão contra seu próprio interesse nacional.

Spiegel - O maior pesadelo dos americanos e do Ocidente é de que o arsenal nuclear do Paquistão possa cair nas mãos dos fanáticos religiosos. Recentemente, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed ElBaradei, expressou sua preocupação com a segurança das armas nucleares paquistanesas. O medo de que os extremistas algum dia possam se infiltrar no sistema de segurança em torno das instalações nucleares é realmente exagerado?
Musharraf -
A impressão do sr. ElBaradei é totalmente equivocada. Antes de sermos oficialmente declarados uma potência nuclear em 1998, nosso programa nuclear foi mantido em segredo. Naquela época, o principal cientista, A.Q. Khan tinha contato direto com o presidente e podia agir de forma independente...

Spiegel - ...um privilégio que ele usou para fechar acordos ilegais com a Coréia do Norte, Irã e Líbia.
Musharraf -
Quando me tornei o chefe em 1999, eu suspeitei que A.Q. Khan estava fazendo coisas proibidas e o demiti. Então eu decidi introduzir um controle de segurança, o Comando da Força Estratégica do Exército, que é organizado como uma corporação militar para manter os ativos seguros. Tudo é considerado. Os terroristas não conseguiriam nem retirar um parafuso de um rifle.

Spiegel - O senhor excluiu a possibilidade de indivíduos dentro do Exército ou da agência de inteligência ISI, que simpatizam com os fanáticos religiosos, poderem se infiltrar no sistema?
Musharraf -
A ISI não cuida de nenhum assunto nuclear. Ela não tem nada a ver com isto.

Spiegel - Benazir Bhutto era um símbolo de esperança de um Paquistão moderado, democrático. Ela alegava lutar por eleições livres e justas -e foi assassinada. Muitos paquistaneses duvidam que as eleições de 18 de fevereiro serão livres e justas e acreditam que o senhor está planejando manipular a votação.
Musharraf -
Será que terei que provar que as eleições não são manipuladas? Como poderia? Eu tive que adiar as eleições em seis semanas por motivos de segurança. Tudo será correto. Eu convidei observadores internacionais.

Spiegel - O senhor estaria disposto a trabalhar com líderes de oposição como Nawaz Sharif -cujo governo o senhor derrubou há oito anos em um golpe sem sangue e que pediu ao senhor que renunciasse- ou com o viúvo de Benazir Bhutto, Asif Ali Zardari, que o acusa publicamente de ser o responsável pelo assassinato de sua esposa?
Musharraf -
Os interesses nacionais devem reinar supremos. Nós temos que assegurar que o progresso econômico continue, nós temos que prosseguir combatendo o terrorismo e precisamos de um governo democrático, funcional. Eu estou pronto para trabalhar com quem vencer.

Spiegel - Quem matou Benazir Bhutto -e como? Novas teorias de conspiração surgem todo dia e a maioria no Paquistão parece achar que tudo é possível.
Musharraf -
Nós obtemos novas evidências todo dia. Hoje, eu estou razoavelmente certo sobre quem a matou, porque grampeamos os telefones dos militantes extremistas. Nós ouvimos a voz de Bethulla Mehsud, um terrorista do Waziristão do Sul, que expressou sua satisfação com a morte de Bhutto.

Spiegel - Após o ataque terrorista contra ela no dia de seu retorno do exílio, em Karachi em outubro, a sra. Bhutto acusou certas pessoas no aparato de segurança paquistanês.
Musharraf -
Uma alegação muito estranha e improvável. Ela estava acusando a mesma organização que a alertou sobre os homens-bomba, que lhe forneceu inteligência e lhe ofereceu segurança. Ela foi alertada, mas tomou uma decisão diferente. Três semanas antes de sua morte, eu não permiti que realizasse um comício na praça mais congestionada em Rawalpindi. Ela fez acusações, tentou manchar a reputação de pessoas sem provas. Mas por que teria que provar minha inocência?

Spiegel - Há versões contraditórias sobre como ela morreu.
Musharraf -
O porta-voz do Ministério do Interior infelizmente assumiu a versão de que ela morreu por ter batido a cabeça na alça do teto solar -e convocou uma coletiva de imprensa por conta própria para fazer o anúncio. O fato é que o homem que atirou, atirou do lado esquerdo. Todavia, no corpo de Benazir há um ferimento no lado direito do crânio. Eu vi uma ampliação do raio X, que mostrava uma fratura naquele lado do crânio. (É difícil encaixar tudo isto e) mostra que nunca se deve dar uma declaração final até que a investigação esteja concluída.

Spiegel - Qual é a versão mais provável em sua opinião?
Musharraf -
Testemunhas no carro disseram que ela escorregou antes da explosão. Ela estava acenando e se virou um pouco para a direita e tal ângulo pode ter sido o suficiente para que a bala atingisse.

Spiegel - Por que o aparato de segurança do senhor foi incapaz de impedir o assassinato?
Musharraf -
O início do comício foi bem organizado. A chegada dela e seu discurso público foram seguros. A condução dela até o carro não foi um problema. Mas o que aconteceu dentro do carro? Todas as demais pessoas no carro ficaram em segurança e não se feriram. Mas ela se esticou para fora do carro. Alguém devia ter dito para ela não fazer aquilo.

Spiegel - O senhor pediu para a Scotland Yard ajudar na investigação, mas não permitiu a investigação internacional da ONU pedida pela família Bhutto. Por quê?
Musharraf -
O que a ONU tem a ver com tudo isto? Ocorreu um assassinato e nós o investigaremos. Se nos faltar alguma capacidade técnica ou pericial nós pediremos à Scotland Yard. Mas não se deve subestimar a capacidade de um Estado nuclear com 160 milhões de habitantes e forças armadas e serviço de inteligência muito bem organizados. Nós somos capazes.

Spiegel - Sr. presidente, há cerca de um ano o senhor disse que Benazir Bhutto saqueou e roubou o país e que ela nunca mais teria um papel na política paquistanesa. O que fez o senhor mudar de idéia e permitir o retorno dela?
Musharraf -
A declaração que fiz foi baseada em fatos. Minha opinião pessoal não pode afetar os interesses nacionais. Muitas pessoas queriam a volta dela ao país. Se quiserem elegê-la para um cargo político -o que posso dizer a respeito? Eu deveria suspender o processo democrático, do qual o Ocidente gosta tanto? Vocês no Ocidente têm obsessão com democracia, direitos humanos e liberdades civis. Mas não me entenda mal: nós também queremos democracia...

Spiegel - ...e quando o senhor a proporcionará?
Musharraf -
Por favor, entenda: o Paquistão não é a Alemanha. Nós somos um país em desenvolvimento, nos dê algum tempo. Não tentem impor seu tipo de democracia sobre nós.

Spiegel - O senhor sobreviveu a duas tentativas de assassinato. O senhor se considera o próximo alvo possível?
Musharraf -
Tiros acertam você ou não. Eu tive sorte dos aspirantes a assassinos não terem conseguido me matar. Mas também tomo medidas e sei como me proteger.

Spiegel - Por muito tempo o Taleban, que atualmente trabalha estreitamente com a Al Qaeda, era apoiado pela ISI visando promover os interesses paquistaneses no Afeganistão. Eles conquistaram Cabul e foram derrubados depois do 11 de setembro de 2001. Agora ele se tornou poderoso novamente no sul do Afeganistão. Ele recuperará a supremacia?
Musharraf -
Eu certamente estou combatendo o Taleban -são pessoas perigosas. Mas também vemos tendências animadoras. Em muitos lugares os militantes locais -que simpatizam com o Taleban- estão se voltando contra os militantes estrangeiros e a Al Qaeda.

Spiegel - O que o senhor acha que os países ocidentais e suas forças, assim como o presidente Hamid Karzai, devem fazer para estabilizar o Afeganistão? Eles devem abraçar o Taleban e negociar ou devem tentar eliminá-lo?
Musharraf -
Durante os anos 90, o Paquistão foi o único Estado em todo o mundo a reconhecer o governo do Taleban...

Spiegel - ...assim como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos...
Musharraf -
...e não porque gostávamos dele... foi uma decisão estratégica. Mas quando assumi o poder em 1999, eu disse a todos, inclusive ao presidente Bill Clinton durante sua visita ao Paquistão, que a melhor estratégia contra o Taleban era reconhecê-lo e tentar mudá-lo por dentro. Ninguém concordou. Então vieram os problemas com Osama Bin Laden. Todos me pediram para ajudar o Ocidente a prendê-lo ou deportá-lo, mas àquela altura já era tarde demais. Eu enviei quatro ou cinco missões até o mulá Omar, sem qualquer resultado.

Spiegel - E o que pode ser feito hoje?
Musharraf -
Não se pode ignorar (o fato de que) uma maioria de 55%...

Spiegel - ...de afegãos é da tribo pashtun, e que o Taleban recruta grande parte de seus membros dali...
Musharraf -
...o Afeganistão sempre foi governado pelos pashtuns. É preciso haver uma mudança de estratégia imediatamente. É preciso promover aberturas políticas para conquistar os pashtuns.

Spiegel - Em sua biografia "Na Linha de Fogo", o senhor disse que seu uniforme era como uma segunda pele. Após 46 anos o senhor removeu esta pele poderosa para se tornar um presidente civil. O que o senhor perdeu -seu segundo "lar" ou a fonte de seu poder?
Musharraf -
Meu segundo lar. Se o chefe do Exército trabalha em total harmonia com o presidente e o primeiro-ministro, então três homens podem fazer um trabalho melhor do que um.

Spiegel - Muitos americanos influentes em Washington parecem estar à procura de um novo homem forte no Paquistão e parecem prontos a abandoná-lo. Que garantia o senhor tem de que pode contar com a lealdade de seu sucessor como chefe do Exército, o general Pervez Kiyani?
Musharraf -
Após 46 anos no Exército você aprende a julgar as pessoas. Você trava guerras, está freqüentemente em perigo e experimenta tempos difíceis. E há algo ainda mais forte do que lealdade pessoal -lealdade a uma causa, a uma visão. Kiyani e eu compartilhamos tal visão sobre o Paquistão, sobre o Taleban, sobre a Al Qaeda, sobre política, sobre direitos humanos e sobre a mídia. Nós somos semelhantes.

Spiegel - Após oito anos governando este país, o que o senhor considera seu maior feito e seu maior fracasso?
Musharraf -
Meu maior feito foi a recuperação econômica do Paquistão. Quando assumi o governo, nós corríamos o risco de nos tornarmos insolventes e um Estado fracassado. Eu não vejo um fato totalmente negativo, mas algumas coisas poderiam ter sido melhores. Coibir e acabar com o terrorismo e o extremismo -ainda há muito a ser feito nesta frente.

Spiegel - Nós ainda não entendemos por que o senhor impôs um estado de emergência em 3 de novembro de 2007. Sua mensagem parecia ser: vocês podem escolher entre mim e o caos. Que medidas o senhor não teria sido capaz de realizar para lidar com os extremistas sem uma lei de emergência?
Musharraf -
A utilização ilimitada das forças armadas era uma questão, a questão da mídia foi crítica, também o Judiciário. O ministro-chefe era corrupto, envolvido em nepotismo e estava interferindo diretamente em casos que estavam fora de sua jurisdição. A gota d'água veio quando desafiou a soberania do Parlamento, que me elegeu legalmente como presidente.

Spiegel - Sua avaliação extremamente negativa do ministro Iftikhar Chaudhry da Suprema Corte não é compartilhada por todos os paquistaneses. Muitos o consideram um defensor corajoso da Constituição e protestaram fortemente contra suas políticas. Há alguma circunstância sob a qual o senhor se imaginaria renunciando ao seu posto de presidente?
Musharraf -
Sim.

Spiegel - Qual?
Musharraf -
Primeiro, há minha própria disposição. Após os desdobramentos dos últimos sete ou oito meses, renunciar seria a coisa mais fácil. Eu gosto de jogar golfe, bridge e tênis, e gostaria de me socializar mais do que é possível no meu cargo. Eu gosto de relaxar. Acredite: no dia em que achar que as pessoas, que a maioria não me quer mais, no dia em que achar que não tenho mais nada com que contribuir para este país, eu não vou esperar um segundo, eu partirei.

Spiegel - Sr. presidente, obrigado por esta entrevista.

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