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É uma terça-feira de janeiro, e Verena Franke está sentada no salão Visage Hair em Schwabing, um bairro da moda em Munique. Ele deseja um cabelo mais longo por estar convencida de que é mais atraente e que parecerá mais feminina. Fora isso, ela não pensou muito mais a respeito.
Ela economizou 1.000 euros em gorjetas visando este dia. Ter o cabelo estendido não é barato mas, como diz Franke, a aparência é importante no seu ramo.
Franke é uma barwoman de um bar badalado de Schwabing chamado "Roxy". Ela tem 27 anos, seu cabelo tem comprimento médio e é tingido de preto, ela usa unhas postiças e sobrancelha "permanente". Ela está sentada diante de uma caixa com 150 meadas de cabelo preto real, conhecidas como extensões. As extensões de 45 centímetros, tom Nº 1, chegaram hoje pelo correio. O que Franke não sabe é que suas novas extensões de cabelo agora estão exatamente a 7.698 quilômetros de onde iniciaram sua jornada -e que costumavam pertencer a uma mulher chamada Manibhen Yashwanthpur. Na verdade, ela nem mesmo sabe que esta mulher existe.
Em breve o cabelo será dela, quando a srta. Klingspor, a dona do salão, fixar as extensões no cabelo de Franke. Por um breve momento as vidas destas duas mulheres -Yashwanthpur, que sacrificou seu cabelo em oferenda aos deuses, e Franke, que apenas queria cabelos mais longos- estarão ligadas de uma forma incomum. É um comércio global que está sendo concluído neste salão de Munique -entre mulheres que precisam de mais cabelo para se sentirem mais atraentes, e outras mulheres que podem fornecer o cabelo que elas precisam.
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| A atriz americana Halle Berry usa extensões de cabelo e contribui para promover o produto |
No passado, o cabelo que as mulheres indianas ofereciam aos deuses era usado para produzir filtros de óleo e encher colchões, mas tudo mudou desde que as extensões entraram na moda. O setor de extensão de cabelo está crescendo em uma taxa fenomenal de 40% ao ano, criando uma rede de comerciantes em todos os continentes e remessas aéreas para todo o mundo. E o único propósito desse esforço é transferir cabelo de uma cabeça para outra.
Muitas das mulheres mais glamourosas do mundo, incluindo Angelina Jolie, Christina Aguilera, Cameron Diaz, Gisele Bündchen e Victoria Beckham, aumentam rotineiramente seus cabelos com extensões. Céline Dion gasta 6 mil euros por mês para receber extensões recém cortadas.
Em um mundo, contar apenas com o próprio cabelo não é mais suficiente. O cabelo precisa ser brilhante, suave, longo e perfeito. Mas em outro mundo há coisas mais importantes do que cabelo. A globalização une estes dois mundos.
Cabelo para o Senhor VenkateshwaraÉ um dia úmido no Estado de Karnataka, no sul da Índia. Manibhen Yashwanthpur acordou cedo nesta manhã e, após despertar seu marido e os dois filhos, ela embalou um sari laranja em um saco plástico vermelho. Yashwanthpur tem 30 anos, uma mulher séria e magra que parece ter 40. Seu cabelo é longo e castanho escuro. É um cabelo lindo e hoje é o dia em que ela planeja oferecê-lo ao Senhor Venkateshwara.
Ela está diante da sala de corte no templo de Chikkatirupathy, um pequeno templo com figuras coloridas no teto. O marido dela e os dois filhos a acompanharam de sua aldeia natal até ali.
O nome da aldeia é o mesmo dela, Yashwanthpur. Ela cresceu ali, conheceu seu marido ali e se casou com ele há 15 anos. A certa altura ele começou a beber brandy, em excesso. Por anos ele bateu nela, mesmo na frente dos filhos. Ele rotineiramente gastava em bebida todo o dinheiro que o casal ganhava trabalhando na fábrica de cimento local.
Há um ano, Manibhen rezou ao Senhor Venkateshwara, pedindo que removesse de sua família o flagelo do alcoolismo do marido de uma vez por todas. O marido parou de beber há um mês. "Se isto não é um milagre...", ela disse, sorrindo pela primeira vez.
O barbeiro do templo umedece o cabelo de Manibhen, o prende com elásticos em ambos os lados e aplica sua navalha, expondo o escalpo dela, pouco a pouco, fazendo um som de raspagem enquanto trabalha. Manibhen fica sentada diante do barbeiro, com as pernas cruzadas e o rosto imóvel. O procedimento leva quatro minutos, após os quais Manibhen está careca. Serão necessários anos para que o cabelo cresça igual ao que tinha há apenas poucos minutos. Ela enrola um lenço ao redor da cabeça raspada.
Raspar a cabeça é um ritual ancestral hindu. Bebês são raspadas para ter boa sorte. Os adultos têm suas cabeças raspadas em agradecimento aos deuses. É um ritual sobre vaidade, mas sobre abandoná-la, não encorajá-la. O cabelo representa a diferença entre homens e mulheres, entre bonito e feio, e o cabelo protege e esconde. Aqueles que sacrificam seu cabelo estão dando aos deuses um pedaço de si mesmos.
Manibhen não recebe compensação por sua oferenda. "Isto é uma tradição, não é um negócio", diz o administrador do templo. Ela não sabe o que acontecerá ao seu cabelo, ou que, após 29 dias, um processo de despigmentação e um tingimento, o cabelo chegará a um salão no bairro de Schwabing, em Munique. Ela nunca ouviu falar de extensões, muito menos de Schwabing.
Após o ritual, ela se lavará, vestirá seu sari laranja limpo e rezará para que seus filhos recebam uma boa educação.
O templo na aldeia de Chikkatirupathy e a moderna Bangalore, onde fica uma empresa chamada SDTC Exports, estão separados por duas horas de estrada e pelo menos um século. O caminho até os escritórios da SDTC passa por painéis de tela plana e áreas de construção do tamanho de campos de futebol, onde os novos prédios de apartamento e escritórios de Bangalore estão sendo construídos. A cidade cresce vários quilômetros quadrados por ano, engolindo as áreas vizinhas.
Mayoor Balsara está em pé em uma grande sala segurando um feixe escuro amarrado entre seu ombro e cotovelo, o medindo. "Sem grisalhos, 51 centímetros, muito boa qualidade", ele diz. "Este cabelo nunca foi tratado quimicamente." Ele comprou o cabelo por aproximadamente 100 euros. Balsara, 33 anos, é o maior exportador da Índia de cabelo de alta qualidade vindo de templo.
Na fábrica da SDTC, mulheres indianas vestindo aventais brancos e máscaras ficam sentadas diante de montanhas de cabelo escuro distribuídos no chão, os separando por tom. Outras mulheres ficam sentadas em banquinhos azuis, diante de mesas que parecem feitas para crianças, puxando os cabelos por algo que parece uma cama de pregos. Balsara não combinará o cabelo de Manibhen com o de outras mulheres -o procedimento normal- mas o empacotará e rotulará separadamente.
Dependendo do comprimento e espessura, uma mulher tem em média de 200 a 300 gramas de cabeço na cabeça. Na fábrica de Balsara, o cabelo é organizado em feixes e colocados no chão da fábrica por quilo -uma biografia ao lado da outra. O cabelo de Manibhen, que nunca foi cortado em mais do que poucos centímetros, é o cabelo que tinha quando deu à luz seu segundo filho, o cabelo que tinha quando seu marido a surrava. Homens foram seduzidos pelo cabelo que agora está no chão da fábrica de Balsara. Algumas mulheres se apaixonaram enquanto os tinham, outras sofreram. Vistas matematicamente, as cinco toneladas de cabelo armazenadas no porão correspondem aos destinos de 20 mil mulheres diferentes.
Um negócio sagradoBalsara não está no ramo há muito tempo. Ele estudou administração em Londres e, há oito anos, um amigo teve a idéia de exportar cabelo. Na época, o cabelo de templo indiano era vendido a US$ 30 o quilo. Hoje, o preço varia de US$ 300 a US$ 600. "Cabelo se tornou um dos commodities mais caros no mundo", diz Balsara, que todo mês exporta mais de três toneladas para a Europa, por transporte aéreo. O transporte marítimo seria mais barato, mas é lento demais.
Há 300 funcionários na SDTC e Balsara planeja contratar mais 100 neste ano. Quando o cabelo chega dos templos, ele é lavado, escovado nas placas com pregos, separados por comprimento e embalado. As mulheres indianas tiram seus sapatos enquanto trabalham na SDTC, algo que normalmente fariam apenas nos templos. Antes do produto ser levado para o aeroporto, as mulheres fazem fila diante dos engradados e fazem uma oração de despedida. "É um negócio sagrado", diz o chefe delas.
Balsara comprou recentemente um apartamento de 300 metros quadrados em um prédio que possui porteiro, jardineiro, piscina e piso de mármore branco em um dos melhores endereços em Bangalore. Um casal de Nova York mora no apartamento de baixo, enquanto o piloto de corrida mais conhecido da Índia mora no apartamento do outro lado do corredor. Balsara veste uma camiseta verde desbotada com o logotipo da Heineken, jeans rasgados e um cavanhaque, espelhando o visual modesto dos jovens indianos da moda. Quando ele lançou sua empresa, sua preocupação era a de que não sobreviveria ao primeiro ano. Hoje, ele diz, seu único problema é: "Onde posso conseguir mais cabelo?"
Com uma população de mais de um bilhão, a Índia oferece abundância de fornecedores potenciais de cabelo como matéria-prima. Todavia, a concorrência pelo cabelo dos templos é feroz. Os templos agora leiloam cabelo, e até mesmo o direito de dar um lance nesses leilões precisa ser comprado. Os preços explodiram em resposta ao aumento da demanda global, um fato que não passou despercebido pelos administradores dos templos. Muito poucos estão interessados em acordos fixos para vender cabelo a um preço previamente acertado.
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