UOL Notícias Internacional
 

06/05/2008 - 00h53

Como Josef Fritzl criou seu regime de terror

Der Spiegel
Jürgen Dahlkamp, Marion Kraske, Juliane Von Mittelstaedt, Sven Röbel, Mathieu Von Rohr
Em um dos dias mais felizes de sua vida, a pequena Lisa estava deitada em uma caixa de papelão diante da porta de uma casa em Amstetten, na Baixa Áustria. Ela pesava apenas 5,5 quilos e tinha 61 centímetros. A única outra coisa na caixa era uma carta. Não havia envelope e nem endereço do remetente, apenas a assinatura de "Elisabeth", uma filha que tinha desaparecido. "Queridos pais", ela escreveu com sua letra de mão delicada, feminina, "estou deixando com vocês minha pequena filha Lisa. Cuidem bem da minha menininha."

Era 19 de maio de 1993, e foi o dia mais feliz na vida da pequena Lisa Fritzl porque era a primeira vez que ela via a luz do dia. Ela tinha nascido quase nove meses antes.

A única luz que tinha visto desde o nascimento era a luz de um mundo subterrâneo, a luz fria, imutável e artificial de um porão. Era a única luz que sua mãe, Elisabeth, viu nos anos que antecederam o nascimento de Lisa, os anos em que o pai dela a manteve trancada naquele porão. Também foi a única luz que o irmão de Lisa, Michael, veria. Ele morreu no porão poucos dias após seu nascimento.

John MacDougall/AFP - 3.mai.2008 
À esquerda, a casa em Amstetten, na Áustria, onde Josef Fritzl morava e cometia seus crimes

Aquele porão no qual a pequena Lisa passou quase nove meses de sua vida agora se tornou notícia de primeira página ao redor do mundo: uma caverna de concreto, um inferno na Terra, um calabouço horrível em Amstetten. Era um espaço claustrofóbico sem vista para o mundo externo, sem oferecer esperança de vida além de suas paredes. E foi cena de um crime tão inimaginável que ainda é incompreensível, mesmo na atual era calejada de Internet, onde todos os horrores do mundo estão a um mero clique de distância.

Talvez já estejamos acostumados com a idéia de massacres causados por estudantes, que pessoas possam fazer arranjos para praticar canibalismo e que, na verdade, cada satisfação concebível por um impulso monstruoso não está apenas sendo imaginada, mas está sendo praticada em algum lugar, em algum momento, por alguém.

Mas que tipo de pessoa teria uma idéia dessas? Uma família crescendo constantemente, produto de incesto, vegetando em um calabouço por décadas, sob o rígido controle de um patriarca despótico, localizada no meio da vida comum de uma cidade pequena? E tudo isso acontecendo em uma casa em uma rua movimentada, sob os narizes dos vizinhos, inquilinos e amigos da família, pessoas que não tinham idéia da existência deste abismo ou, dos precipícios na mente deste homem? Segundo Reinhard Haller, um psiquiatra forense da cidade austríaca de Innsbruck, "não há casos semelhantes em todo o mundo", nem mesmo o de Natascha Kampusch, que foi seqüestrada por um estranho e passou oito anos em uma prisão subterrânea.

Josef Fritzl, atualmente com 73 anos, manteve sua filha Elisabeth, 42 anos, aprisionada em seu porão por 24 anos, enquanto alegava que ela tinha fugido de casa e ingressado em uma seita. Enquanto isso, Fritzl vivia na casa com sua esposa Rosemarie e seus seis outros filhos. No porão, ele sujeitava sua própria filha à metade de uma vida de estupro. Ele a controlava, era dono dela e foi pai de outros sete filhos com ela. Apenas quando o espaço começou a acabar na catacumba da família foi que ele permitiu que três deles passassem para a vida acima, para sua própria casa, para sua outra família e para uma vida aparentemente normal. Lisa foi uma das três crianças que ela supostamente deixou à porta da casa dele em 1993.

Fenômeno ou ato isolado?
Foi a própria filha de Fritzl, Elisabeth, que forneceu a cobertura necessária. Ele a forçou a escrever as cartas inclusas com as crianças supostamente abandonadas, cartas que eram tanto disfarces perfeitos quanto a documentação da loucura do crime e da genialidade doente de seu perpetrador. "Eu espero que todos vocês estejam bem", dizia a carta que veio com Lisa. "Eu entrarei em contato com vocês no futuro, e imploro que não procurem por mim, porque estou bem."

AFP
Local onde Josef Fritzl mantinha Elisabeth e seus filhos presos em sua casa
O REGIME DE TERROR - PARTE 1
O REGIME DO TERROR - PARTE 2
ADVOGADO PROCURA LADO HUMANO
Fritzl levou a carta até as autoridades para que pudesse adotar Lisa. Para afastar até mesmo o menor indício de suspeita, ele disse à polícia, naquele 19 de maio de 1993, que tinha alguns dos velhos cadernos de escola de sua filha Elisabeth. Ele disse que queria dar os cadernos e a carta para um especialista em caligrafia para que ele e sua esposa, na condição de avós, pudessem ter certeza completa de que a criança que estavam adotando era de fato de seu próprio sangue.

O impacto imenso do crime em Amstetten na consciência pública explica em parte a necessidade por explicações que tornariam este fenômeno um caso isolado. As perguntas da população são certamente justificadas. Como é possível que os vizinhos e inquilinos no prédio de Fritzl nunca notaram nada incomum? Teria algo a ver com a perda da contato social, mesmo em uma pequena cidade provincial? E parte da culpa seria das autoridades austríacas, por serem confiantes e crédulas demais por anos, até mesmo cegas, apesar das crianças que continuavam aparecendo à porta de Josef Fritzl, como se tivessem caído do céu?

As respostas para todas estas perguntas são importantes, já que poderiam ajudar a explicar o crime. E não são ofensivas, apesar das queixas do chanceler austríaco, Alfred Gusenbauer, sobre como a imprensa internacional está retratando isto como a mais recente mancha no nome de seu país e sua insistência de que "não é um fenômeno austríaco".

Todavia, este crime continua sendo tanto um crime de um indivíduo quanto um ato isolado. Se há realmente uma pergunta que nos leva ao âmago deste crime é esta: O que este caso isolado tem em comum com outros casos isolados, e o que o perpetrador, Josef Fritzl, tem em comum com outros perpetradores? Há de fato algum aspecto na psique dessas pessoas que explique por que cometem os crimes mais abomináveis com o tipo de disciplina, dedicação e perfeccionismo que outros poderiam aplicar à montagem de uma ferrovia de ferromodelismo? Há algo além de sua vontade que os leva a cometer estes crimes, como acreditam muitos neurocientistas? Ou cometem voluntariamente estes atos que outros não poderiam nem mesmo se fossem forçados?

Planejando cuidadosamente o local para cometer seus crimes
Josef Stefan Fritzl nasceu em Amstetten -hoje uma cidade com 23 mil habitantes- em 1935. Seus pais foram Josef e Maria Fritzl, ele foi criado como católico romano e freqüentou a escola em Amstetten. Uma foto o retrata com sua classe em 1951, um menino vestindo uma jaqueta de malha tradicional austríaca, olhando para a câmera com um rosto sério, estreito e fechado. "Ele cresceu sem um pai e sua mãe o criou com seu punho, batendo nele até que ficasse preto e roxo quase que diariamente", disse a cunhada de Fritzl, Christine R.

Aos 21 anos, ele se casou com Rosemarie, a mulher com quem passaria os próximos 51 anos. Ela tinha 17 anos, pouca instrução, era treinada como auxiliar de cozinha, e ele era tudo o que ela tinha. Fritzl, um engenheiro elétrico, era altamente inteligente, como alguns diriam posteriormente. Mas era precisamente sua inteligência e habilidade que o impedia de levar sua esposa a sério. Ele era aquele que estava no controle total do casamento. Era ela quem tinha que se sujeitar às férias dele sozinho em Pattaya, o paraíso sexual barato da Tailândia. Ela aceitou quando, como lembrou a irmã dela em uma entrevista para o jornal austríaco "Österreich", ele parou de fazer sexo com ela. Ela também não dizia nada sobre seus constantes desaparecimentos no porão, onde ele disse que não queria ser perturbado, porque supostamente estava desenhando projetos de máquinas lá. Quem mais a não ser esta mulher teria sido tão submissa?

Quando Fritzl descia ao seu porão, "Rosi não era nem mesmo autorizada a lhe levar café", disse a cunhada. "Rosi", em outras palavras, era a esposa ideal para Fritzl, isto é, a primeira esposa ideal. Ela era a dona de casa e às vezes dirigia uma hospedaria. Ela era a esposa para a parte da casa que podia ser aberta a estranhos sem levantar quaisquer suspeitas de que também havia câmaras escuras na casa e na alma de seu dono.

Assim como esta primeira esposa não estava à altura de Fritzl, ela era igualmente incapaz de atender às necessidades dele. No terceiro trimestre de 1967, depois que Rosemarie já tinha lhe dado quatro filhos, Fritzl supostamente estuprou uma mulher na cidade austríaca de Linz, no norte. Ele aparentemente já tinha tentado estuprar outra mulher antes. Ele teria passado um ano e meio na prisão, mas sua sentença foi apagada da ficha policial após 15 anos.

Depois disso, Fritzl nunca mais atraiu a atenção para suas obsessões ocultas, mas não por ter aprendido a controlá-las, como todos acreditavam. Um homem acostumado a consertos e a faça-você-mesmo, ele aparentemente decidiu que suas futuras tentativas de encontrar uma segunda esposa, uma que estaria à sua mercê o tempo todo e que se submeteria aos seus caprichos e desejos, tinham que ser planejadas mais cuidadosamente. Sua nova abordagem era mais prudente, precisa e visando longo prazo. Ele percebeu que tudo o que tinha que fazer era projetar apropriadamente o ambiente no qual cometeria seus crimes, minimizar as fontes potenciais de erro e fazer os arranjos necessários para suprimentos -alimentos e bebidas, inicialmente, seguidos por fraldas.

"É o tipo de coisa que ele faria", disse Franz Haider, 58 anos, que trabalhou ao lado de Fritzl por três meses em 1969 em uma empresa local de cimento e materiais de construção, Zehetner Baustoffhandel und Betonwerk. Apesar de Haider insistir que nunca imaginaria que um crime como o de Fritzl seria possível em Amstetten, agora que ocorreu, ele disse, ele não poderia imaginar alguém mais capaz de ocultá-lo por 24 anos.

Quando Fritzl trabalhava com Haider, o departamento dele estava desenvolvendo uma máquina para canos de concreto, como os usados em sistemas de esgoto. Era uma máquina grande e complicada, com cinco metros de altura, três metros de largura e três metros de profundidade. Fritz, o diretor técnico do projeto, já tinha passado meses a desenvolvendo. Haider se juntou ao projeto como assistente, e tudo o que aprendeu com Fritzl, fora o status da máquina, era que seu chefe era casado. Fora isso, Fritzl permanecia calado sobre sua vida privada. Ele nunca recebia qualquer telefonema pessoal e não havia fotos de família na sua mesa. Ele nem mesmo disse a Haider que tinha filhos. Haider está convencido de que Fritzl era o tipo de homem capaz de manter um segredo por anos, mesmo um monstruoso. Haider também disse que Fritzl era capaz de construir o tipo de calabouço no porão onde manteve sua filha presa. "Tecnologia de concreto era a especialidade de Fritzl. Ele poderia construir qualquer coisa sozinho."

Mas primeiro ele teria que encontrar a mulher que o obedeceria e se submeteria aos seus desejos, e a encontrou no lugar onde o risco de ser descoberto era o menor para criminosos sexuais como ele -em sua própria família. Ele escolheu Elisabeth.

Ela ainda era uma garota na época em ele a estuprou pela primeira vez. Mas mesmo quando ela foi questionada a respeito há uma semana, Elisabeth ainda era incapaz de falar a respeito de como e onde foi estuprada pela primeira vez, exceto que aconteceu em 1977 ou possivelmente 1978. Ela tinha apenas 11 ou 12 anos na época, e ela não contou para ninguém. Ela era incapaz de se defender, nem ninguém poderia tê-la defendido. Até mesmo seus irmãos mais velhos eram impotentes frente a Fritzl.

Nada além de sua carne e sangue
Quando ele chegava em casa do trabalho, os amigos dos filhos tinham que ir embora imediatamente, e os filhos tinham que permanecer em silêncio quando ele entrava em um cômodo. Se não obedecessem ou esquecessem de dizer "por favor" ou "obrigado", ele batia neles para que entrassem na linha. Mas Elisabeth era obrigada a fazer mais do que entrar na linha. Ela tinha medo dos dias em que ele a procurava, quando ele impiedosamente se apossava dela porque, aos olhos dele, ela não era nada mais do que sua carne e sangue.

Em 1972, Fritzl e sua esposa compraram uma hospedaria e uma área de camping adjacente ao Lago Mondsee, na Alta Áustria. Ele decidiu entrar no ramo da hospedagem -e possivelmente da fraude de seguro. Ocorreram dois incêndios na hospedaria, mas nunca foi provado que Fritzl esteve envolvido. Posteriormente, ele vendeu o imóvel e dirigiu um negócio de venda da lingerie por correio. Mas o requerimento para uma licença de construção que ele deu entrada em 1978, logo após ter estuprado Elisabeth pela primeira vez, não era para a hospedaria, mas para uma "ampliação com porão" para a nova casa da família Fritzl em Amstetten. Cinco anos depois, ele informou que tinha concluído a obra, e quando os fiscais inspecionaram o local, eles confirmaram que Fritzl de fato construiu a ampliação de acordo com as permissões que foram emitidas.

A polícia agora acredita que ele conseguiu esconder das autoridades os quartos que construiu para o calabouço. Supostamente, ele escavou espaço suficiente para acomodar um porão muito maior, mas então construiu paredes para esconder o calabouço. Posteriormente, ele aparentemente abriu uma passagem para um porão esquecido sob a casa principal, que ele usaria posteriormente para expandir o calabouço para seu tamanho atual.

Há um motivo para sugerir que ele já tinha desenvolvido a idéia para seu calabouço de incesto desde cedo. O tempo estava acabando para Fritzl, porque sua filha ameaçava sair de seu controle. Continua - leia a parte 2

Compartilhe:

    Trânsito

    Cotações

    Hospedagem: UOL Host