Quando Dona Elena Frías de Chávez vai à igreja, ela é acompanhada por sete seguranças em um pequeno comboio de três SUVs Ford blindadas. Pouco depois das 19h, a missa acaba de começar na igreja de Cristo Rey, em Barinas, uma cidade de 270 mil habitantes nas planícies quentes do Oeste da Venezuela. A mãe do presidente do país senta-se na segunda fileira. Ele está vestindo uma blusa turquesa e óculos escuros, o cabelo pintado de louro.
O presidente venezuelano Hugo Chávez vem de uma família devota. Dona Elena costumava caminhar até sua igreja, que ficava apenas a duas quadras de sua casa antiga. Agora, ela e seu marido moram em uma enorme mansão em uma seção rica de Barinas.
A casa antiga está vazia. Nada na construção amarela de um andar e sem adornos sugere que o presidente passou parte da sua infância ali. Hugo de los Reyes Chávez, pai do presidente, foi governador do Estado de Barinas pela última década. Ele concorreu à reeleição há quatro anos sob o lema: "Vote no pai, porque o filho não pode negar-lhe qualquer pedido."
Isso é aparentemente verdade para toda a família. Desde que Hugo Chávez, ex-pára-quedista que mais tarde deu um golpe militar e hoje é o líder da esquerda da América Latina, foi eleito presidente em 1998. Sua família mestiça humilde tornou-se um clã rico. Aparentemente, a família de Chávez tem 17 fazendas, várias delas adquiridas por laranjas, segundo a oposição. "Os Chávez são os novos oligarcas de Barinas", diz Antonio Bastidas, ex-vizinho e membro da oposição hoje.
Hugo de los Reyes Chávez, antigo professor primário, hoje é chamado de "O mestre" em Barinas; tem seis filhos, e todos eles são extremamente bem cuidados. Adelis é vice-presidente do banco Sofitasa, que dirige os negócios do governo de Barinas. Anibal é prefeito da cidade natal de Chávez, Sabaneta. Narciso dirige o escritório de governo de cooperação Venezuela-Cuba e Argenis é diretor do gabinete do pai. Argenis tornou-se o chefe de fato da família quando "O mestre" sofreu um derrame há poucos anos. O primo de Chávez, Asdrúbal, é vice-presidente de refinarias da empresa estatal petroleira Pdvsa.
Adan, o mais velho dos irmãos Chávez, tem fama de ser o intelectual da família e teve cargos como embaixador da Venezuela em Cuba e ministro da educação. De todos os irmãos, Chávez confia mais em Adan e por isso confiou-lhe uma missão delicada: Adan está concorrendo para suceder o pai na eleição governamental do domingo. Sua tarefa é proteger o presidente contra a possibilidade de uma derrota vergonhosa no "berço da revolução", termo que Chávez gosta de usar para descrever seu Estado natal.
As eleições regionais serão o primeiro teste de força para o presidente desde o referendo constitucional fracassado do ano passado, com o qual o líder autocrático Chávez procurou assegurar a possibilidade de reeleições ilimitadas. De acordo com pesquisas de opinião, seis Estados importantes podem passar para a oposição nas eleições de domingo.
Ironicamente, uma oposição efetiva ao comandante desenvolveu-se entre seus próprios partidários. Os "chavistas" e alguns dos renegados agora estão concorrendo como candidatos independentes. Em Barinas, por exemplo, Adan Chávez está em uma disputa apertada com o prefeito da cidade, um ex-aliado político de Chávez. "Estamos cansados do nepotismo na família do presidente. Chávez estabeleceu uma nova monarquia", diz o candidato da oposição Simon Jimenez.
Barinas, como um microcosmo da sociedade venezuelana, é o lugar perfeito para se estudar a ascensão e queda do caudilho. Uma estrada de quatro pistas leva a sua cidade natal de Sabaneta, a 60 km da capital da província. Não há guardrail no centro da estrada, por que ela também serve como pista de pouso para o jato de Chávez, quando este vem visitar a cidade.
O prefeito Aníbal Chávez pintou as placas de rua de vermelho e a casa onde presidente nasceu, que hoje abriga os escritórios do partido, de cor de rosa. Muitas ruas nesta pequena cidade empoeirada não são pavimentadas, e formam poças profundas durante as chuvas pesadas.
Hugo de los Reyes Chávez e sua mulher viveram aqui com seus dois filhos mais velhos até mudarem-se para Barinas, no final dos anos 60. "Hugo, o segundo filho, era o mais elegante dos filhos", diz o antigo vizinho Bastidas. "Ele era fascinado por armas interessado em história".
Hugo pai era membro do Partido Cristão Social da Venezuela, mas seus filhos se rebelaram contra o que chamaram de "elite podre da Venezuela" e a "ditadura do partido", que eles acreditavam dominar o país até a vitória de Chávez nas eleições em 1998. Dona Elena manteve a família unida com mão de ferro.
O professor primário e sua mulher eram pessoas modestas. Hoje, seu salário de governador é um segredo de Estado, e Dona Elena não faz esforço para esconder seu gosto caro por jóias. Barinas está cheia de rumores sobre como o clã adquiriu esse dinheiro. Duas investigações por enriquecimento ilícito estão suspensas no escritório do promotor do Estado.
Moradores locais ficam especialmente indignados com a história do estádio de futebol de La Carolina. Supostamente, seria inaugurado durante a Copa América do ano passado, mas a estrutura ainda está sob construção hoje. Apenas um jogo - entre EUA e Paraguai - aconteceu ali no local de construção, durante o dia, porque ainda não havia luzes. Adelis Chávez é o responsável pelo financiamento do projeto gigantesco.
Há outras histórias da corrupção na família de Chávez. O presidente já inaugurou uma refinaria de açúcar da estatal Caaez, um projeto de US$ 100 milhões (cerca de R$200 milhões) perto de Sabaneta, três vezes, e a construção ainda está pela metade. Outra história é bem delicada para os agricultores da região, que costumavam plantar milho e arroz. Chávez convenceu-os a plantar cana-de-açúcar, mas agora eles são forçados a queimar metade de sua colheita porque não há refinaria para processar a cana. "O presidente enganou o povo", diz David Hernandez, outro antigo partidário de Chávez.
O presidente e sua família não são nem populares entre os moradores de Sabaneta. Oito manifestantes e três policiais ficaram feridos há três semanas, quando protestos de estudantes se tornaram violentos. Hernandez, um dissidente, foi convocado pela polícia secreta duas vezes. Ele recebe ameaças de morte ocasionais e tem medo de sair à noite sem guarda-costas.
Chávez nunca comentou as maquinações da família publicamente, mas aparentemente reclamou em um evento de família do enriquecimento indevido dos parentes. Há rumores em Barinas que ele destruiu a Hummer ostentadora de seu irmão Argenis com um bastão de beisebol e que a mãe teve que intervir.
Argenis, inicialmente, deveria suceder o pai como governador, mas como ele está envolvido em escândalos demais, o presidente removeu-o da linha de fogo. "Chávez não quer arriscar a segurança da família", diz o candidato da oposição Jimenez.
Adan, o mais velho, que agora está concorrendo ao governo, tem sido generoso com as doações de campanha, esperando melhorar suas perspectivas com os eleitores, apesar de tudo. Em um bairro pobre de Barinas, os cabos eleitorais de Chávez vendem porco, refrigeradores e outros artigos a preços artificialmente baixos. O café venezuelano -"100% nacional"- é especialmente popular, por 5 bolívares por libra. É raro encontrar café no supermercado devido à má administração socialista da economia.
Enquanto isso, os médicos cubanos enviados à Venezuela por Fidel Castro em troca de petróleo barato estão dando receitas para óculos e medicamentos de graça. "Estamos todos votando em Adan", diz Alberto Bueno, carpinteiro na fila para ganhar a óculos no bairro de Mi Jardin II.
O Partido Socialista Unido Venezuelano do presidente organizou um "concerto para a juventude" no subúrbio da cidade. O público foi levado ao local em ônibus, mas o espaço era grande demais.
O irmão de Chávez Adan acena para o público, mas evita fazer um discurso. O espaço VIP onde seus pais estão sentados é tão vermelho quanto a camiseta que sua mãe veste. Dona Elena parece determinada, levantando seu pulso em um gesto de desafio.
Ela planeja participar da missa, como sempre, antes das eleições no domingo. E ela pretende rezar por seus filhos.