O presidente Václav Klaus é um especialista quando o assunto é etiqueta. Ele fala bem baixo, obrigando os outros a ouvir cuidadosamente. Klaus diz que não é inimigo da União Européia (UE), mas um "realista UE" - contratando com os diversos indivíduos que sofrem de "ingenuidade UE", aqueles que "aprovam passiva e indiscriminadamente tudo que vem de Bruxelas".
Klaus, que é ex-professor de finanças, provavelmente sentiu que os membros da delegação de Estrasburgo que há duas semanas o visitaram em Hradjin, no Castelo de Praga, eram também vítimas da "ingenuidade UE". Os presidentes dos grupos parlamentares dos partidos políticos no Parlamento Europeu, incluindo o presidente Hans-Gert Pöttering, um membro do partido conservador alemão União Democrática Cristã (CDU), e Daniel Cohn-Bendit, político do Partido Verde, viajaram a Praga em uma tentativa de apelar à consciência de Klaus, um cético conhecido em relação à UE. O país dele assumirá a presidência rotativa de seis meses da UE em 1º de janeiro.
Esta será a primeira vez em que a República Tcheca estará à frente da organização desde que se tornou Estado membro da UE em dezembro de 2004. Praga enfrentará condições externas particularmente difíceis no seu novo papel. A crise financeira também atingiu a República Tcheca, e a UE tomou medidas no sentido de mitigar a recessão no continente. Será que um presidente que tornou-se conhecido durante anos como crítico da UE poderia arcar com tal responsabilidade?
Enviados "ingênuos" x uma Praga "realista"A conversa entre os enviados "ingênuos" de Bruxelas e a Praga "realista" acabou em desentendimento. Os parlamentares repreenderam Klaus, acusando-o de negar a mudança climática global e de aproximar-se dos oponentes irlandeses da UE. "Tenho que dizer que ninguém se dirigiu a mim desta maneira e com esse tom em seis anos", disse Klaus, respondendo ao ataque. Mas ele não cedeu, e insistiu que o Tratado de Lisboa teria que ser renegociado.
Essa legislação tem como objetivo restaurar os pesos relativos dos votos dos 27 Estados membros da UE nas resoluções do conselho da união e simplificar os processos de tomada de decisão. Além dos irlandeses, que rejeitaram Lisboa em um referendo, a República Tcheca é o único Estado membro que ainda não ratificou o tratado.
E Klaus, 67, quer que as coisas permaneçam como estão. Três semanas atrás, ele saiu do Castelo de Praga para depor como testemunha no tribunal constitucional de Brno, a segunda maior cidade do país. Pedia-se aos juízes que decidissem se o tratado violaria a constituição tcheca.
Klaus estava em plena forma. "Até mesmo os empregos de vocês correm risco", disse ele aos juízes. Ele argumentou que o Tratado de Lisboa permitiria que a Europa, alienada da vontade dos eleitores, finalmente triunfasse sobre a soberania dos Estados membros individuais. Mas o apelo do presidente não convenceu os juízes.
Klaus criou uma versão especial de crítica à UE. Trata-se de uma crítica calma e intelectualizada, assim como o seu profeta, que faz argumentações freqüentes em nome da liberdade - especialmente a liberdade dos mercados. Ele dispensa a retórica nacionalista bombástica, criticando, em vez disso, a UE pela sua burocracia e os seus déficits em democracia. Em uma entrevista a "Der Spiegel", ele advertiu para "um processo gradual de padronização". Klaus acredita que Bruxelas produz um fluxo constante de decretos que, embora aplicáveis aos membros da UE, jamais foram ratificados por qualquer parlamento.
Um tipo único de euro-ceticismoEssa posição contrasta com o ceticismo em relação à UE exibido por outros europeus orientais, como os poloneses, que é oriundo de um senso de orgulho nacional fácil de se ofender, bem como de complexos históricos. O presidente polonês Lech Kaczynski utilizou essa abordagem para fazer com que várias conferências chegassem à beira do fracasso - não porque ele se opusesse basicamente à UE, mas porque acredita que a união não presta tributo suficiente ao papel histórico especial da Polônia na Europa. Quando o seu irmão gêmeo, Jaroslaw, foi primeiro-ministro, ele disse aos parceiros do seu país em Bruxelas, com toda seriedade, que se não fosse pelas mortes provocadas pela Segunda Guerra Mundial, a Polônia teria hoje 66 milhões de habitantes, e que, portanto, o país merece contar com um voto mais forte na UE.
No entanto, no Castelo de Praga tais divagações sobre a história só geram balanços de cabeças, na melhor das hipóteses, da mesma forma que a fé profunda na UE que pode ser percebida nos discursos de Kaczynski. Todas as vezes que o presidente polonês imagina o seu país em apuros, ele espera obter apoio de Bruxelas, como quando a Rússia proibiu as importações de carne polonesa há três anos. E durante anos a Polônia solicitou uma política energética comum para a UE, argumentando que isso preveniria a dependência de Moscou.
"Kaczynski deseja que a Europa permaneça do jeito que é - se possível sem casamentos de homossexuais -, mas com o seu país exercendo mais influência", diz Kai-Olaf Lang, especialista em Europa Oriental da Fundação de Ciência e Política, em Berlim. "Klaus, por outro lado, critica a UE sob uma ótica liberal. Ele vê a organização como um mercado livre, mas de forma nenhuma como uma super-nação".
De vez em quando Klaus é incapaz de resistir à tentação populista, e quando isso ocorre ele faz comparações que exasperam os parlamentares da UE. Por exemplo, dois anos atrás, quando o também tcheco Vladimir Spidla, comissário da UE, propôs a criação de um fundo europeu para as vítimas da globalização, Klaus afirmou: "Isso é como o comunismo da era Brezhnev".
O primeiro-ministro tcheco Mirek Topolánek terá dificuldades para impor-se ao obstrucionista do Castelo de Praga. Embora o presidente e o primeiro-ministro pertençam ao mesmo partido, o ODS, Topolánek, assim como vários outros da sua agremiação, há muito tempo fez as pazes com a UE. Este é provavelmente um dos motivos pelos quais os dois políticos de destaque detestam-se tanto.
Mas o desentendimento com o mestre de Hradjin não é a única preocupação de Topolánek. O primeiro-ministro de 52 anos deve o seu cargo aos votos de alguns dissidentes da oposição. Sem eles, o seu governo não contaria com uma maioria no parlamento. Quais são as chances dele de sobreviver politicamente à presidência do Conselho da UE? Será que ele poderia cair nesse período, deixando o campo aberto para o seu adversário do Castelo de Praga?
Quem desejar saber o quão estável é de fato o governo tcheco deve perguntar isso a Miroslav Slouf. Slouf, um social-democrata, dirige a Slavia Consulting e é considerado um dos mais influentes negociadores em Praga, uma pessoa consultada com freqüência em situações políticas complicadas. Nesses casos, Slouf muitas vezes consegue negociar um acordo. Ele convida os adversários para uma reunião na sua sala de conferências, na qual há um dispositivo instalado em uma estante de livros para detectar aparelhos de escuta ambiental. É melhor que as discussões que ocorrem na sala de Slouf sejam mantidas secretas.
Slouf não está excessivamente preocupado com a situação atual. Os social-democratas apoiarão o fraco governo Topolánek nos próximos seis meses, ou eles o derrubarão na próxima oportunidade? "Por que deveríamos fazer isso?", questiona Slouf, um nativo de Praga. "Todos nós queremos que a presidência tcheca tenha sucesso. Pelo nosso país!".
Duas semanas atrás, Klaus lançou aquele que provavelmente será o seu último ataque por ora. Os seus amigos no ODS tentaram derrubar Topolánek e colocar no lugar dele, como líder do partido, o prefeito de Praga, Pavel Bém. Mas a tentativa de golpe fracassou, principalmente devido aos membros do ODS das áreas rurais, que apoiaram o premiê. As regiões rurais beneficiam-se consideravelmente da assistência estrutural de Bruxelas, e esses fundos fizeram com que as opiniões no partido pendessem em favor da Europa. Os críticos ferrenhos da UE perderam a maioria no ODS, um partido fundado por Klaus.
Popularidade sem paralelosMas isto está longe de ser o fim para o presidente, que continua sendo o político mais popular da República Tcheca. Após anos como presidente honorário do partido, Klaus pretende agora dar as costas ao ODS e criar um novo movimento político. A característica mais importante desse movimento será a postura crítica em relação à Europa. Até mesmo os eleitores social-democratas e comunistas apreciam a postura irredutível de Klaus quanto a Bruxelas. Mais da metade desses eleitores também nutre suspeitas em relação a Bruxelas.
O ceticismo de Klaus quanto à UE, que independe de sentimentos nacionalistas, também agrada certas pessoas no exterior. Klaus poderia até tentar uma cooperação com outros oponentes da UE e formar um grupo internacional de críticos da organização ansiosos por aplicar freios sobre Bruxelas.
Durante a sua mais recente visita de Estado à Irlanda, o presidente tcheco reservou um espaço na sua agenda para um jantar particular com Declan Ganley, um multimilionário que foi um dos principais patrocinadores da campanha do "Não" irlandesa que conduziu ao referendo sobre o Tratado de Lisboa com o seu partido Libertas. Usando o mesmo nome programático, os aliados de Klaus pretendem aparentemente formar um ramo tcheco do movimento no futuro próximo.
Klaus deverá também ter boas relações com os tories britânicos. A ex-primeira-ministra Margaret Thatcher lacrou o seu país contra as determinações de Bruxelas. Acredita-se que haja um retrato da Dama de Ferro sobre a mesa de Klaus em Hradjin, e o presidente está tomando providências para que, nos próximos seis meses, a bandeira azul com estrelas amarelas não seja hasteada juntamente com a bandeira tcheca nas muralhas do seu castelo.