Promotores alemães acreditam que John Demjanjuk foi um guarda sádico no notório campo de concentração de Sobibor. Eles querem levá-lo a julgamento em Munique, mas a família diz que o homem de 88 anos está muito velho e fraco para ser extraditado - e que, de qualquer forma, é inocente.
O caso de John Demjanjuk
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Em foto de 2005, John Demjanjuk (c) se dirige a um tribunal norte-americano, ajudado por seu filho (e) e por seu ex-genro (d). Promotores alemães acusam-no de colaboração com o nazismo, família alega que ele é inocente e não tem saúde para o julgamento
A mulher do suposto guarda de campo de concentração tem compleição pequena e é amigável. Ela usava uma blusa xadrez azul e verde, e seus cabelos compridos estavam presos num coque. Parada em frente à porta de sua casa amarela estilo fazenda em Seven Hills, Ohio, subúrbio de Cleveland, ela parecia um pouco perdida.
Vera Demjanjuk fala numa mistura de alemão e inglês. Ela parece exausta ao explicar que tudo está começando de novo e que, mais uma vez, ela terá que temer pelo destino de seu marido de 88 anos, John.
Sua família, diz ela, não tem energia nem os meios para um novo caso judicial, especialmente na distante Alemanha. "Somos pobres e não temos dinheiro", diz.
Foi em 1977 que os norte-americanos caçadores de nazistas foram atrás de seu marido pela primeira vez. Na época, o funcionário aposentado da Ford perdeu a cidadania norte-americana e foi extraditado para Israel.
Os israelenses queriam enforcá-lo. Eles o acusaram de ser "Ivã, o Terrível", o bárbaro operador das câmaras de gás do campo de concentração Treblinka.
"Um velho doente"Em 1993, entretanto, os israelenses o soltaram depois que ficou claro que "Ivã, o Terrível" era provavelmente outra pessoa. Demjanjuk recebeu permissão de voltar para os EUA. Desde então, entretanto, mais e mais pistas vieram à tona indicando que Demjanjuk pode, na verdade, ter sido um guarda no campo de concentração Sobibor, onde atualmente é a Polônia. Promotores de Munique querem que ele seja julgado na Alemanha. Eles alegam que Demjanjuk participou do assassinato de 29 mil pessoas.
Demjanjuk não diz nada. Em maio passado, a Suprema Corte dos EUA recusou-se a ouvir seu apelo final. Não há nada agora que impeça que Demjanjuk seja extraditado para a Alemanha a qualquer momento para responder às novas acusações.
Especialistas do Departamento de Investigação Criminal do Estado da Bavária verificaram recentemente a legitimidade da identidade de Demjanjuk, que prova que ele esteve em Sobibor durante o período em que os crimes aconteceram. As descobertas marcam um passo importante nos esforços para julgá-lo na Alemanha.
Mas há uma dificuldade em potencial: será que o homem de 88 anos é fisicamente capaz de enfrentar o julgamento? O filho de Demjanjuk, John Demjanjuk Jr., disse que seu pai está "muito fraco". Dizem que ele sofre de uma doença de "sangue e medula óssea" que o obriga a ir ao hospital várias vezes por mês para receber transfusões de sangue. Durante o último ano, acrescenta o filho, a condição de Demjanjuk piorou tanto que ele teme que seu pai não sobreviva a um julgamento.
John Jr. diz que, se o pai fosse extraditado para a Alemanha, precisaria de "assistência médica 24 horas". Até o advogado de Demjanjuk, John Broadley, diz que seu cliente é um "velho doente". A família, entretanto, vem dizendo a mesma coisa há décadas. Ele até já apareceu no tribunal numa cadeira de rodas.
"Forte como um touro"Nove anos atrás, Jonathan Drimmer trabalhava no Escritório de Investigações Especiais do Departamento de Justiça dos EUA quando ajudou a liderar os esforços do governo para retirar a cidadania de Demjanjuk. "Na época, ele ainda era um homenzarrão", diz Drimmer, acrescentando que era alto, de ombros largos e mãos enormes. Na época, Demjanjuk era capaz de testemunhar por um dia inteiro. "No final, eu estava exausto, mas ele ainda estava forte. Em 2000, ele era forte como um touro", conta Drimmer.
Hoje, Demjanjuk parece com o homem de 88 anos que ele é, diz o vizinho Erik Keller, um jovem designer gráfico, que conversa com Demjanjuk com frequência. De acordo com Keller, os joelhos ruins de Demjanjuk impedem que ele fique em pé ou andando por muito tempo. Entretanto, Keller acrescenta que já viu Demjanjuk limpar a entrada do carro depois de uma tempestade de neve. Keller diz que ajudou Demjanjuk a limpar a entrada - e disse que nunca o viu numa cadeira de rodas.
Keller ainda conta que Demjanjuk passa os verões vestido de calça jeans e suéter, cuidando da sua grande horta. E às vezes a mulher Vera até lhe dá alguns tomates. "Eles são vizinhos muito cordiais", diz Keller, acrescentando que Demjanjuk tem orgulho de sua horta e fala com frequência da época em que era funcionário da Ford.
Mas, segundo Keller, Demjanjuk nunca fala sobre nada que aconteceu antes disso. E Keller nunca perguntou. Na visão de Keller, Demjanjuk gosta de bater papo com os vizinhos, mas "ele não fala com muitas pessoas".
Sonhos e PesadelosEnquanto a maioria das caixas de correio da vizinhança tem números grandes, os da caixa de Demjanjuk são pequenos. Na frente da casa, há uma placa grande dizendo: "Não ultrapasse". A casa onde moram tem uma garagem, uma estufa e um jardim grande na frente. Esta melhor conservada do que a maioria das casas da rua - apesar de Demjanjuk ser sustentado pelos filhos desde que a perda da cidadania acarretou o corte de seus benefícios de aposentadoria.
Seven Hills é um subúrbio de Cleveland, cidade que já viveu um boom industrial, mas hoje é uma das grandes cidades mais pobres dos EUA.
Não muito tempo depois da 2ª Guerra Mundial, esse bairro - com suas casas térreas de tijolo e madeira - foi parte do sonho americano.
Mas, hoje, também é parte de um pesadelo. As portas das garagens estão trancadas, persianas fechadas e caixas de correio cobertas de ferrugem. As ruas estão vazias, e podem passar bons 20 minutos sem que um carro passe pela rua. Seven Hills está praticamente morta. Apenas o som do tráfego na estrada pode ser ouvido à distância.
"Meu pai nunca matou ninguém"John Demjuanjuk Jr. diz que seu pai não parece preocupado com a discussão na Alemanha. "Ele está tentando cuidar de sua saúde para sobreviver mais alguns anos", diz John Jr. Na visão dele, não há absolutamente nenhuma prova "que possa ser usada para condenar o pai num processo criminal".
O filho fez da proteção ao pai o trabalho de sua vida. "Meu pai nunca matou ninguém", diz John Jr. "Não há provas de que ele estivesse envolvido nisso." John Jr. continua: "Ele não é um assassino. Ele é uma pessoa muito gentil e amigável. Eu sei do fundo do meu coração que ele nunca matou ninguém. Ele foi um soldado do Exército Vermelho que se viu encurralado pelos acontecimentos da 2ª Guerra Mundial."
John Jr. diz acreditar que seu pai é inocente e que esse conhecimento deu a ele a força para lutar pelo pai ao longo dos anos. Ele chama os crimes do Holocausto de "horrendos" - mas diz que "isso não vem ao caso".
Contestando as provasMas, nas mentes dos promotores americanos e alemães, isso vem ao caso, sim. Sete provas irrefutáveis mostram que Demjanjuk serviu no campo de concentração de Sobibor, diz Drimmer, o ex-promotor. Sete documentos diferentes de arquivos e órgãos diferentes. Na visão de Drimmer, isso mostra que é muito pouco provável que haja um erro e muito pouco provável que alguém esteja armando para Demjanjuk. Ainda assim, 63 anos depois do fim da guerra, isso não significa que Demjanjuk seja levado a julgamento.
John Jr. não tem uma explicação plausível sobre como essas provas que incriminam seu pai teriam chegado ao tribunal. Mas diz que a necessidade de provas para o processo criminal alemão é muito maior do que no processo americano que se concentrou em retirar a cidadania de Demjanjuk. Ele também diz que a Alemanha não tem nenhuma testemunha viva. E, é claro, aponta que de, qualquer forma, seu pai está muito doente para suportar o julgamento.
Mas se você perguntar a ele o que pode de fato ter acontecido no passado de seu pai, ele não tem uma resposta.
Tradução: Eloise De Vylder