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20/03/2009 - 00h00

Ameaça neonazista aumenta na Alemanha

Der Spiegel
David Crossland
Em Berlim (Alemanha)
O ultra-direitista Partido Nacional Democrata da Alemanha pode estar à beira do colapso financeiro, mas os campo neonazista está bem vivo. E os especialistas advertem que ele está se tornando mais perigoso.

O Partido Nacional Democrata da Alemanha (em alemão, Nationaldemokratische Partei Deutschlands, ou NPD) está quase falido. Esta, pelo menos, tem sido a mensagem veiculada recentemente tanto pelas reportagens da mídia quanto pelo próprio partido. Até mesmo o presidente do NPD, Udo Voigt, admite que o seu partido está em meio a uma "crise existencial".

O NPD, que é descrito pela agência interna de inteligência da Alemanha como um partido "racista, anti-semita e revisionista" que tem como objetivo acabar com a democracia e criar um Quarto Reich, está à beira da insolvência por ter que pagar pesadas multas devido a irregularidades cometidas nos últimos anos.

"O cenário neonazista, tanto dentro quanto fora do NPD, está ficando mais forte, não em termos de vigor eleitoral no país, mas no que diz respeito à sua influência sobre as atitudes racistas e a violência", afirmou à "Spiegel Online" o professor Hajo Funke, um proeminente analista da Universidade Livre de Berlim que é especialista na questão da extrema-direita. "Existem certos lugares na Alemanha que eu não aconselharia nenhuma pessoa de aparência estrangeira a frequentar".

Thomas Haentzschel/AP - 30.jun.2001 
Simpatizante participa de manifestação do partido de extrema-direita NPD em Rostock

Juventude racista
A análise de Funke foi confirmada nesta semana por um novo e amplo estudo que revelou que um em cada sete adolescentes alemães - ou 14,4% - demonstra atitudes que podem ser classificadas como extremamente xenófobas. Nas entrevistas conduzidas durante o estudo, eles concordaram com afirmações como, por exemplo, "A maioria dos imigrantes consiste de criminosos".

A pesquisa de dois anos, encomendada pelo governo e envolvendo mais de 20 mil alunos de 15 anos de idade, concluiu que outros 26,2% apresentam atitudes "bastante xenófobas". E 5,2% dos adolescentes ouvidos foram classificados como de extrema-direita porque possuem ideias racistas, ouvem músicas neonazistas, usam roupas de estilo neonazista ou cometem crimes típicos do extremismo de direita. E outros 11,5% dos adolescentes nutrem fortes simpatias pela extrema-direita.

"Já se sabia que os números eram altos", disse o ministro do Interior alemão Wolfgang Schäuble, na última terça-feira, em uma entrevista coletiva à imprensa. "Mas estou chocado com o fato de eles serem assim tão elevados".

Independentemente da nova pesquisa, os analistas observam que houve no ano passado uma disparada dos crimes cometidos pela extrema-direita e apontam para uma surpreendente demonstração de força por parte dos neonazistas em 14 de fevereiro último para marcar o aniversário de 64 anos do bombardeio aliado de Dresden durante a Segunda Guerra Mundial. Cerca de 7.000 ou 8.000 neonazistas, muitos deles usando jaquetas negras com capuz, marcharam silenciosamente pela cidade alemã-oriental com faixas condenando o "Holocausto por Bombardeio".

Eles foram suplantados em número pelos manifestantes antinazistas, mas o fato de o NPD ter conseguido atrair mais do que o dobro da quantidade de simpatizantes que compareceram ao mesmo evento no ano passado revela que o campo da extrema-direita está crescendo, especialmente no leste do país, que se encontra economicamente deprimido. E essa impressão é confirmada pelos números. A quantidade de crimes da extrema-direita atingiu um novo recorde de 13.985 em 2008, um aumento de 28% em relação a 2007, segundo números preliminares do Ministério do Interior da Alemanha. Tais estatísticas da criminalidade são muitas vezes corrigidas para cima.

"As estatísticas da criminalidade evidenciam que o extremismo de direita expande-se continuamente", confirma Funke.

Crimes pequenos e grandes
A maior parte dessas contravenções é não violenta, como a pichação de túmulos de cemitérios judaicos com suásticas ou o apedrejamento de vidraças de restaurantes de imigrantes. Infelizmente, esses crimes tornaram-se tão comuns que não são mais manchetes de jornal.

Mas o número de crimes violentos da direita, como a queima de propriedades e agressões, também está aumentando. Em 2008 o número desses crimes foi de 735, o que representa um aumento de 14,5% em relação ao ano anterior. A incidência de tais ataques é bem maior no leste do que no oeste da Alemanha, e os ativistas antinazistas vêm alertando há anos que certas áreas do leste do país tornaram-se perigosas para imigrantes.

Entre os casos típicos está o espancamento de um paquistanês de 44 anos, que buscava asilo no país. A agressão ocorreu na cidade de Brandenburgo, perto de Berlim, em maio do ano passado. Ele foi atacado pelas costas por homens que gritavam, "Saia daqui, seu porco", e sofreu lesões graves na cabeça, segundo o Opferspektive, um grupo financiado pelo governo que monitora tais ataques.

E em junho de 2008, em Niedergörsdorf, também perto de Berlim, um homem que falava russo na rua foi agredido a socos por um vizinho que gritava: "Seu porco judeu russo. Hitler teria colocado um troço como você na câmera de gás!".

O declínio da economia pode aumentar o apoio ao NPD
Funke diz que, apesar dos seus problemas internos, o NPD continua bem organizado nos dois Estados orientais da Saxônia e da Pomerânia Mecklenburg-Ocidental, onde possui cadeiras nos parlamentos regionais, e que o partido poderá até mesmo conquistar apoio suficiente para ingressar no parlamento de um outro Estado, a Turíngia, em uma eleição marcada para 30 de agosto deste ano. Ele diz que o governo subestimou durante anos a ameaça representada pela extrema-direita, e que a polícia precisa tomar atitudes mais duras contra esses delinquentes.

"O fato de o NPD continuar embaraçando-se perante os eleitores liberais é irrelevante, já que estes eleitores não votariam nunca mesmo no partido", afirma Funke. "O NPD continua atraindo pessoas que se sentem frustradas, que estão desinteressadas na democracia ou até mesmo que se opõem a ela, e que veem nos estrangeiros bodes expiatórios para os seus problemas".

O NPD possui mais de 7.000 membros, mas muitos neonazistas não são filiados ao partido porque o consideram muito moderado ou por não desejarem pagar as contribuições vinculadas à filiação. O que mais preocupa é a possibilidade de a crise financeira fortalecer o NPD, que já demonstrou anteriormente ser capaz de conquistar votos de protesto ao explorar o descontentamento com a economia. Em 2004 ele obteve 9,2% dos votos na última eleição regional na Saxônia, após ter feito uma campanha contra os cortes de benefícios aos desempregados.

"Sabe-se que os extremistas de direita tiram proveito dos problemas políticos e econômicos. Eles oferecem soluções supostamente simples para problemas que preocupam o povo, na tentativa de obter apoio", diz Alrik Bauer, porta-voz do serviço de inteligência do Estado da Saxônia. Mas ele afirma que até agora não há sinais de que o NPD esteja se beneficiando com a crise financeira antes da eleição estadual que ocorrerá na Saxônia em agosto próximo.

As autoridades aumentaram os investimentos em projetos como a construção de centros da juventude, com o objetivo de prevenir a adesão dos jovens aos neonazistas, ou o apoio a organizações de assessoramento aos cidadãos. Mas essas medidas estão surtindo pouco efeito. O campo da direita continua sendo um poderoso polo de atração para homens jovens e de baixo nível educacional, que contam com poucas perspectivas de obtenção de emprego.

"Este cenário é bastante atraente para essas pessoas", adverte Bernd Wagner, um ex-policial que foi co-fundador do EXIT, um grupo que ajuda as pessoas a abandonar das estruturas neonazistas. "Quem manterá os jovens fora disso? Professores rabugentos? O padre, que está mais preocupado com o telhado empenado da igreja? O policial do interior, que deseja levar uma vida tranquila?"

Nazistas tentam atrair mais a população
"Não existe na sociedade nenhuma força que esteja fazendo frente seriamente a este cenário", continua Wagner. "Nem o serviço interno de inteligência, nem a polícia, nem os mais de 3.000 projetos financiados pelos vários governos regionais".

Wagner diz que os neonazistas violentos estão ficando cada vez mais desencantados com o insucesso do NPD nas eleições nacionais. O partido obteve apenas 1,8% dos votos na eleição geral de 2005, e geralmente obtém menos de 1%. "Tenho impressão que os elementos militantes perderam a fé no partido. É por isso que eles estão se tornando mais desinibidos em seus atos violentos. Essa tendência é muito perigosa", alerta Wagner.

Lobos em pele de cordeiro
Nos últimos meses, o NPD, que continua sendo um partido político legítimo, tem dado a impressão de que parece querer se auto-destruir. Além dos seus problemas financeiros, a sua liderança parece estar irremediavelmente dividida, e Voigt acredita que será expulso em um congresso do partido em abril.

Há uma disputa agressiva para designar o seu sucessor. Um dos pretendentes ao cargo, Andreas Molau, retirou a sua candidatura depois que o vice-presidente, Jürgen Rieger, o acusou de ter "um oitavo de sangue judeu". O próprio Rieger, que é advogado, está em apuros depois que um fuzil de assalto da Wehrmacht foi descoberto pela polícia no mês passado durante uma operação de busca na casa dele.

"É uma cena mórbida, que lembra um suicídio cometido em etapas", diz Wagner. "Mas nós não devemos subestimar a capacidade de reconstrução das frentes nazistas. Apesar da crise, o campo deles continua crescendo".

O NPD tem procurado ampliar a atratividade da sua mensagem apresentando uma imagem pública moderada. Os seus porta-vozes tentam evitar aquela aparência que torna os neonazistas identificáveis nas ruas - cabeças raspadas ou cortes de cabelo no estilo da Juventude Hitlerista, botas de combate e símbolos da extrema-direita na roupa. "Pode parecer surpreendente, mas a estratégia de fingir ser moderado de fato funciona junto a muitos eleitores, ainda que isso seja uma mentira que encobre uma visão brutal de um Quarto Reich", afirma Funke.

Comentários recentes por parte de um membro graduado do NPD permitem que se tenha uma ideia da verdadeira face do partido. "As saudações a Hitler são comuns nas reuniões a portas fechadas e os membros falam em mandar os seus oponentes embora em 'trens de carga', em uma referência aos trens que enviavam judeus aos campos de concentração", diz Uwe Luthardt, que integrou a liderança regional do NPD na cidade oriental de Jena.

"A meta é a restauração do Reich alemão no qual uma nova SA vingue-se de todos os que discordarem deles", afirma Luthardt. A sigla SA refere-se a Sturmabteilung; tropas de assalto nazistas paramilitares que usavam camisas marrons.

Luthardt, que diz ter deixado o partido enojado após passar três meses na sua diretoria, afirma que o hino nazista é entoado regularmente nas reuniões e que o NPD recebe frequentemente doações de velhos nazistas que moram na América do Sul.

É improvável que tão cedo o NPD seja banido
Poucos políticos têm dúvidas de que o NPD mereça ser banido. Mas eles discordam quanto ao lançamento de uma nova campanha para torná-lo ilegal, depois que uma tentativa anterior fracassou em 2003. O caso foi rejeitado pela suprema corte da Alemanha porque se descobriu que várias autoridades do NPD que foram convocadas a prestar declarações eram informantes do serviço de inteligência, e os depoimentos deles foram considerados inválidos.

Esse fracasso proporcionou ao partido um novo ímpeto nas eleições subsequentes, e os políticos conservadores argumentam agora que qualquer tentativa de banir o NPD não pode apresentar uma brecha sequer. "Não creio que haverá qualquer tentativa de banir o NPD no futuro próximo", diz Funke.

Tradução: UOL

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