Alguns conseguem fugir da brutalidade e do horror da guerra - outros são enviados por pais que esperam que um dia eles os mandem dinheiro. O número de crianças e adolescentes desacompanhados, refugiados da África e do Iraque, está crescendo na Europa. Eles fazem parte de uma grande tendência da migração global.
Foram as bombas que fizeram com que o jovem iraquiano perdesse sua casa. No caso de um adolescente chinês, foi o terremoto que fez com que ele não soubesse mais a que lugar pertencia. No caso de um ex-soldado infantil de Serra Leoa, é a guerra que o atormenta com pesadelos recorrentes.
Esta é a história de três garotos que conseguiram chegar à Alemanha por conta própria, num sentido físico. Mas de certa forma ainda levou mais tempo para que eles chegassem aqui em termos mentais e emocionais.
Ibrahim*, 16, voou de Serra Leoa para a Alemanha, armado com um passaporte falso. Jihua, 14, veio de navio - numa viagem que durou várias semanas e que o levou de seu antigo lar na China para um país do qual ele não sabia absolutamente nada. Hassan, 15, do Iraque, foi trazido para cá num caminhão por uma quadrilha de tráfico humano.
Quando Hassan finalmente chegou em solo alemão, não sabia se sua longa e árdua jornada terminaria em vão. Ele lembra ter sido acordado com um golpe duro nas costelas durante a noite. Os traficantes espantaram sua carga humana para fora da cama do caminhão que usaram para transportá-la. Hassan e os outros refugiados do grupo foram deixados no escuro. O ronco do motor a diesel do caminhão, um som que ecoou em suas cabeças durante dias, gradualmente desapareceu na distância. Tudo o que Hassan sabia era que estava em algum lugar de uma floresta na Alemanha. Era noite, fazia frio, e ele não tinha escolha a não ser esperar ali até que houvesse luz suficiente para continuar sua jornada.
Ao amanhecer ele e os outros refugiados conseguiram chegar a uma estação de trem. Ele subiu no trem e viajou duas horas antes que a polícia viesse pedir seus documentos. Ele não tinha nenhum.
No ano passado, o número de refugiados menores de 18 anos que chegaram à Alemanha aumentou. A maioria desses menores desacompanhados veio do Iraque, mas também há outros da Etiópia, Eritréia, Guiné e Afeganistão. Ninguém sabe dizer ao certo quantos desses jovens refugiados vivem aqui, mas as organizações para refugiados estimam o número entre 3 mil e 5 mil, incluindo as chegadas legais e ilegais.
HassanHassan foi parar num subúrbio de Munique, num centro de recepção de crianças refugiadas, onde foi colocado junto com meninos e meninas da Etiópia, Serra Leoa, China e alguns colegas iraquianos, o mais novo deles tem apenas 10 anos de idade.
Isso faz três meses. Hoje ele está sentado no sofá azul da Casa Chevalier, abrigo que divide com um grupo de 11 jovens que foram reunidos ao acaso pelas vicissitudes do fluxo mundial de refugiados e com outros que foram enviados por seus pais para encontrar uma vida melhor neste longínquo país.
Um dia, enquanto ainda vivia no norte do Iraque, Hassan foi chamado por seu pai, que disse a ele que tinha algo importante a discutir. Seu tom de voz era sério. Ele disse: "Você é meu filho mais velho. Você precisa sair daqui. Aqui não tem trabalho, só medo. Você vai sair do Iraque". O pai não pediu a opinião de Hassan. Ele deu uma ordem clara, e desobedecê-la estava fora de questão.
Hassan é alto e magro. Sob o boné, ele usa os cabelos espetados cuidadosamente com gel - como David Beckham costumava usar.
"Você pode traduzir, por favor, para que os recém-chegados entendam o que eu acabei de dizer", pediu um funcionário da casa. Hassan coloca a aba do seu boné de beisebol para um dos lados, inclina-se à frente e começa a formular, nos sons mais familiares da língua curda, as regras desse novo e estranho mundo. O funcionário quer que os garotos se lembrem das normas de separação de lixo da casa. Os jovens curdos olham uns para os outros um tanto perplexos, mas reciclar faz parte do dia a dia na Alemanha e eles terão de se acostumar.
O pai de Hassan o instruiu para "aprender alemão e trabalhar duro". As esperanças de uma família inteira agora estão sob os ombros de Hassan, uma família cuja existência foi ameaçada em sua terra natal. Hassan foi enviado para cá com uma missão a cumprir.
JihuaJihua, de 14 anos, por sua vez, não tem muita certeza do motivo pelo qual está na Alemanha. Enquanto outros iraquianos jogam sinuca e conversam do lado de dentro, o menino chinês prefere ficar do lado de fora, em frente a uma porta de vidro.
"Os iraquianos são muito barulhentos", diz Jihua, dando de ombros.
Normalmente um garoto quieto, Jihua sorri quando diz alguma coisa e tem tendência a desviar o olhar timidamente quando falam com ele.
As primeiras impressões que teve ao chegar à Alemanha há mais de três meses foram um pouco atemorizantes. O país estava cheio de gente que era ou branca ou negra, ele se lembra. As pessoas eram muito altas, tinha narizes longos, falavam alto, e o que diziam soava ameaçador.
Pior ainda para ele foi o fato de que, no momento em que chegou aqui, não conseguiu mais se comunicar verbalmente com os outros.
Nas primeiras semanas ele dormiu muito. Afinal, dormir significava não ter que falar com ninguém. Por que, ele se perguntava, deveria acordar? Para quem? E para quê?
Certa vez ele estava sentado com os outros, assistindo a um programa de televisão ao vivo dos Jogos Olímpicos de Beijing. Os outros garotos na sala ficaram maravilhados com as roupas coloridas e os torcedores.
"A China é o máximo", disseram. "Por que raios você veio para cá?"
A história de Jihua é confusa e trágica. Mas em comparação com a da maioria dos refugiados, não tem raízes na guerra, na pobreza ou perseguição. É a história de alguém que ficou prisioneiro do turbilhão causado por um desastre natural e de um fluxo de refugiados que o arrastou e carregou para a Alemanha.
Assim como Hassan, ele foi colocado na Casa Chevalier. Ao longo do tempo médio de seis meses que esses jovens são mantidos aqui, os fatos por trás de seus casos individuais são examinados e é feito um pedido de asilo ou de pelo menos um visto de residência temporário para permitir que eles fiquem. Eles também recebem exames médicos. Alguns precisam de tratamento para parasitas intestinais ou tuberculose. E, no passado, alguns até mesmo eram portadores do vírus HIV. Há assistentes sociais para dar apoio a esses jovens, e eles recebem aulas de alemão a partir do primeiro dia.
Crianças e adolescentes menores de 18 anos têm o direito legal de serem cuidados e receberem apoio na Alemanha. O ideal é que esse apoio venha de uma instituição como a Casa Chevalier, um dos oito centros de recepção para crianças refugiadas na Alemanha. Os jovens com 18 anos ou mais são enviados para os centros de recepção de adultos que buscam asilo e têm de preencher os requerimentos por conta própria.
IbrahimIbrahim, o menino de Serra Leoa, diz ter 16 anos, mas as autoridades não acreditam. Ele diz que é atormentado dia e noite por memórias da guerra e das vítimas que ele viu; vítimas de suas próprias ações. Seu rosto é encovado, seus olhos voltados para o chão, seus ombros caídos.
Ibrahim está presente fisicamente, mas não mentalmente.
Senta-se sobre a cama, enrolado com uma jaqueta grossa, curvado, com o rosto enterrado nas mãos. Ele pegou dois cobertores de lã, prendeu as pontas sob o colchão da parte de cima do beliche e fez uma espécie de tenda para poder se refugiar no quarto para o qual foi mandado no centro de recepção para os adultos que buscam asilo em Munique. O quarto tem três beliches, seis armários de metal, paredes rabiscadas, uma mesa e cadeiras. Na porta há uma foto da seleção alemã de futebol, imagem de um dos aspectos mais positivos do país. No corredor do lado de fora há um cheiro penetrante de urina antiga. Há lixo na poço da escada.
"Este garoto chora o tempo todo, é uma pena", diz um de seus colegas de quarto. À noite, diz ele, Ibrahim sai da cama, senta-se à mesa e soluça incessantemente, e isso já dura meses. Chegou ao ponto, diz ele, em que os outros moradores do quarto querem pegá-lo e dar-lhe uma boa sacudida para fazer com que ele recobre os sentidos.
Ele diz que Ibrahim sofre com as memórias que tem de seus pais, sua irmã e sua terra natal, Serra Leoa. Mas principalmente ele tem de lidar com as memórias de mãos sendo cortadas. Memórias de uma mulher e seu filho, e memórias da arma que ele carregava em suas mãos.
*Os nomes dos refugiados citados na matéria foram mudados para proteger suas identidades.Tradução: Eloise De Vylder