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14/05/2009

Demjanjuk deve confessar, diz sobrevivente do Holocausto

Der Spiegel
Jan Friedmann
Em Klaus Wiegrefe
John Demjanjuk, suspeito de ter sido um guarda nazista, foi deportado para Munique para enfrentar a acusação de ter colaborado no assassinato de 29 mil judeus no campo de extermínio de Sobibor. O sobrevivente do Holocausto, Thomas Blatt, fala à "Spiegel" sobre o que aconteceu em Sobibor e por que Demjanjuk deve dizer o que sabe.


Spiegel: Sr. Blatt, o senhor viajou da Califórnia para cá para testemunhar em Munique contra John Demjanjuk. Demjanjuk é acusado de ter participado no assassinato de pelo menos 29 mil pessoas no campo de extermínio de Sobibor. O que o senhor dirá ao juiz?

Thomas Blatt:
O que os guardas ucranianos em Sobibor fizeram. Nós tínhamos mais medo deles do que dos alemães, e eu estive lá na mesma época que Demjanjuk.

Spiegel: Do que o senhor o acusará?

Blatt:
Ele ajudou a fábrica da morte a funcionar. Sem os cerca de 100 ucranianos que estavam lá, os alemães nunca teriam conseguido matar 250 mil judeus. O grupo da SS era composto de apenas 30 alemães, e destes, metade estava sempre em férias ou doente. Nós víamos mais ucranianos do que alemães em Sobibor, e tínhamos muito medo deles.

Quem é Thomas Blatt

Thomas Blatt, nasceu em 15 de abril de 1927, em Izbica, uma cidadezinha judaica no leste da Polônia. De lá ele foi deportado em abril de 1943 para o campo de extermínio de Sobibor, juntamente com seus pais e irmão mais novo.

Durante o levante dos prisioneiros em outubro de 1943, ele conseguiu escapar e se esconder. Blatt emigrou da Polônia para Israel em 1958, depois para os Estados Unidos em 1959, onde vive em Santa Barbara, Califórnia. Seu livro, "Sobibor: The Forgotten Revolt", é considerado uma obra definitiva.

Blatt testemunhou contra os ex-oficiais da SS em Hagen, Alemanha, em 1965. Ele agora planeja testemunhar no julgamento de John Demjanjuk, suspeito de ser guarda do campo de extermínio.
Spiegel: Por "ucranianos" o senhor diz os ajudantes estrangeiros que eram treinados pela SS no campo de Trawniki. Entre eles havia muitos ucranianos. Por que vocês tinham mais medo deles?

Blatt:
Eles nos maltratavam, atiravam nos recém-chegados velhos e doentes que não conseguiam mais caminhar. E eram aqueles que conduziam as pessoas nuas às câmaras de gás com suas baionetas. Eu frequentemente trabalhava há poucos metros de distância. Se alguém se recusasse a entrar, eles batiam e atiravam. Eu ouço até hoje os gritos deles de "idi siuda", "venha cá".

Spiegel: Mas a parte do campo de extermínio com as câmaras de gás eram isoladas e você não podiam ir até lá.

Blatt:
Eu os vi conduzindo os judeus até a entrada da zona da morte, a chamada Himmelfahrtsstrasse ("Caminho para o Céu").

Spiegel: O senhor viu com seus próprios olhos os homens de Trawniki assassinarem os prisioneiros?

Blatt:
Sim. Eu estava lá quando os ucranianos atiraram nos judeus poloneses que tentaram escapar. E me lembro de inúmeras crueldades. Certa vez estávamos na mata para cortar árvores. Os ucranianos queriam que cantássemos. Mas queriam ouvir canções russas e apenas os judeus poloneses podiam cantá-las, não os judeus alemães. Eles os atormentaram tanto que alguns deles se enforcaram à noite nos alojamentos.

Spiegel: Os guardas não estavam agindo sob ordens alemãs?

Blatt:
Muitos deles eram sádicos, os abusos não eram algo que eram ordenados a fazer. Ou queriam se exibir diante os alemães. Eles só nos deixavam um pouco em paz se recebessem dinheiro ou ouro de nós.

AFP
Eu não me importo com a ida ou não dele para a prisão - o julgamento é o que importa. Eu quero a verdade

Thomas Blatt
Spiegel: E onde vocês conseguiam essas coisas?

Blatt:
Às vezes eu tinha que queimar os pertences das pessoas assassinadas, que eles descartavam antes de irem para as câmaras de gás. Às vezes havia moedas de ouro escondidas entre eles, que sobravam nas cinzas. Outras eu encontrava enquanto eu separava as coisas. Os ucranianos queriam dinheiro para pagar as prostitutas.

Spiegel: No campo?

Blatt:
Não, nas aldeias ao redor dali. Uma mulher me contou posteriormente.

Spiegel: E nenhum dos guardas demonstrava alguma compaixão?

Blatt:
Havia um, chamado Klatt. Era o único que não nos agredia.

Spiegel: Guardas como Demjanjuk foram recrutados pela SS dentre soldados capturados do Exército Vermelho, milhões dos quais morreram miseravelmente nos campos alemães. Esses homens tinham escolha, se quisessem salvar suas vidas?

Blatt:
É verdade que a SS exigiu que cometessem assassinato para que pudessem sobreviver. Mas muitos outros prisioneiros não se envolveram com os alemães. E os guardas em Sobibor também podiam ter desertado. Alguns deles de fato fugiram.

Spiegel: O senhor se lembra de sua chegada a Sobibor?

Blatt:
Sim, foi em abril de 1943. Eu fui levado para lá de caminhão com minha família, de minha cidade natal em Izbica. Nós morávamos a apenas 70 quilômetros de Sobibor e sabíamos o que acontecia lá. Mas esperávamos que não significasse nossa morte. Eu acho que é da natureza humana torcer até o último minuto. Apenas meu pai dizia: de qualquer forma morreremos. E me lembro de um homem ao meu lado espiando por um buraco na lateral do caminhão e dizendo em iídiche: "Está negro de ucranianos". Ele falava da cor dos uniformes. Os ucranianos nos escoltavam ao campo.

Spiegel: Como o senhor sobreviveu à "seleção", o notório processo no qual os recém-chegados eram escolhidos para execução?

Blatt:
Não havia seleção em Sobibor, os judeus supostamente deveriam morrer sem exceção.

Spiegel: Então como o senhor escapou da morte?

Blatt:
Eu forcei passagem à frente quando um homem da SS inspecionava nosso grupo à procura de artesãos. Eu não tinha conhecimento algum. Eu tinha 15 anos, era pequeno e magro. Talvez o homem da SS, o comandante Karl Frenzel, tenha notado minha vontade forte. Ele disse: "Venha cá, pequenino". Assim eu fui salvo naquele momento. Posteriormente eu descobri que tinham fuzilado judeus holandeses entre os prisioneiros que trabalhavam, poucos dias antes. Supostamente eu preenchi a vaga.

Spiegel: O que aconteceu à sua família?

Blatt:
Um homem da SS espancou meu pai com um bastão e então nunca mais o vi. Eu disse para minha mãe: 'Ontem não pude beber o restante do leite, porque você vai querer guardar um pouco para hoje". Esse estranho comentário meu ainda me assombra -foi a última coisa que disse para ela. Meu irmão de 10 anos permaneceu ao lado da minha mãe. Eles todos foram assassinados nas câmeras de gás.

Spiegel: Qual foi sua estratégia de sobrevivência?

Blatt:
Eu sabia que os alemães gostavam quando você era limpo e saudável. Eu tentava parecer forte quando caminhava, e mantinha um sorriso no meu rosto. Eu cuidava para que minhas calças não amarrotassem quando dormia e que mantivessem o vinco. Eu era curioso, eu sempre circulava à procura de possibilidades de escapar.

Spiegel: Quais eram suas tarefas no campo?

Blatt:
Eu tinha que separar os pertences das vítimas, camisas junto com camisas e sapatos junto com sapatos. Algumas poucas vezes tive que cortar o cabelo das mulheres antes de irem para a câmara de gás. Elas já estavam nuas. Sobibor era uma fábrica -da chegada até os cadáveres serem queimados geralmente levava poucas horas.

Spiegel: As pessoas sabiam o que aconteceria a elas?

Blatt:
Os holandeses em particular não suspeitavam de nada. Quando o transporte chegava, geralmente um homem da SS fazia um discurso. Ele pedia desculpas pela jornada árdua e dizia que, por motivos de higiene, todos precisariam tomar uma ducha primeiro. Então iriam trabalhar em outro lugar. Alguns dos judeus aplaudiam. Eles não imaginavam o que estava reservado para eles.

Spiegel: Vocês estiveram entre os organizadores do levante em Sobibor, em 14 de outubro de 1943. Como aquilo aconteceu?

Blatt:
Foram, em particular, os soldados judeus do Exército Vermelho de Minsk, que foram trazidos para Sobibor para trabalhos forçados, que ajudaram. Eles precisaram apenas de duas semanas para planejar o levante.

Spiegel: Qual era o plano para o levante?

Blatt:
Nós queríamos atrair individualmente os membros da SS para uma emboscada e então matá-los. Para isso, nós dependíamos da ganância dos homens e sua pontualidade. E funcionou. Nós dissemos para um oficial chamado Josef Wolf que alguém tinha guardado um belo casaco de couro para ele. Nós dissemos para que viesse em um certo horário, e ele o fez, e os prisioneiros o mataram. Nós matamos uma dúzia de homens da SS e um número desconhecido de guardas. Os alemães e os guardas demoraram para perceber o que estava acontecendo.

Spiegel: E como o senhor escapou depois?

Blatt:
Eu queria passar por um buraco que alguém fez com um machado na cerca de arame farpado. Mas quando o guarda na torre começou a atirar contra nós, algumas pessoas começaram a escalar a cerca. A cerca caiu e meu casaco ficou preso no arame farpado. Foi o que salvou minha vida. Aqueles que correram à minha frente explodiram em pedaços no campo minado do outro da cerca. Eu me livrei do meu casaco e fugi. Mais de 300 prisioneiros escaparam, dos quais cerca de 50 sobreviveram à guerra.

Spiegel: E como o senhor sobreviveu no ano e meio restante até o final da guerra?

Blatt:
A liberdade foi difícil. Se eu fosse um menino cristão, eu teria tido uma chance melhor. As pessoas teriam cuidado de mim. Mas para onde podia ir? Não havia mais uma comunidade judaica na minha cidade natal de Izbica, e a população rural polonesa nos via como assassinos de Cristo. Um fazendeiro a princípio me escondeu e a alguns outros, em troca do dinheiro que trouxemos conosco de Sobibor. Posteriormente ele tentou nos matar a tiros. Eu ainda tenho a bala na minha mandíbula. Depois disso eu me escondi na floresta ou em prédios abandonados.

Spiegel: Segundo os documentos, Demjanjuk não estava mais em Sobibor quando ocorreu o levante - ele já tinha sido enviado de volta ao campo de treinamento de Trawniki e então designado ao campo de concentração de Flossenbürg, na Baviera. A família dele e seus advogados argumentam que, aos 89 anos, ele está velho e doente demais para suportar um julgamento.

Blatt:
Agora as pessoas veem apenas o velho. Elas não veem o homem que forçou pessoas a irem para as câmaras de gás.

Spiegel: O senhor tem lembranças concretas de Demjanjuk?

Blatt:
Não, após 66 anos eu nem mesmo me lembro do rosto do meu pai. Mas estou certo que Demjanjuk era como os outros guardas ucranianos.

Spiegel: O que o senhor consideraria uma punição justa?

Blatt:
Eu não me importo com a ida ou não dele para a prisão - o julgamento é o que importa. Eu quero a verdade. O mundo deve saber como foi em Sobibor. Ele deve confessar, porque ele sabe demais. Ele é o último perpetrador vivo de Sobibor.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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