A mídia e os políticos poloneses criticaram duramente a matéria de capa da revista "Spiegel" desta semana, que falava sobre os ajudantes europeus de Hitler fora da Alemanha. Eles acreditam que o artigo faz parte de uma tentativa dos alemães de colocarem a culpa pelos seus próprios crimes nazistas nos outros.
Jaroslaw Kaczynski, ex-primeiro ministro da Polônia, parecia ter perdido sua vitalidade ultimamente. Poucas vezes ele se lançou à campanha em andamento pelas eleições no Parlamento Europeu que acontecerão daqui a duas semanas. Em vez de fazer suas denúncias costumeiras contra a União Europeia, ele humildemente convocou seus concidadãos para votarem em 6 de junho. Parecia que lhe faltava assunto.
A Europa que ajudou Hitler
O julgamento de John Demjanjuk, que serviu como guarda de um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial, deverá ajudar a jogar luz sobre casos de poloneses, letões, holandeses, romenos, italianos e franceses que colaboraram com o extermínio de judeus capitaneado pela Alemanha do Holocausto,
Esta semana, entretanto, Kaczinsky voltou à sua velha forma - com a ajuda inesperada da "Spiegel". "Os alemães estão tentando se livrar da culpa por um crime gigantesco", disse ele, comentando a última matéria de capa da Spiegel, "O continente obscuro: os europeus que ajudaram Hitler no Holocausto".
A matéria descreve como os estrangeiros ajudaram os alemães durante a Segunda Guerra Mundial no massacre de 6 milhões de judeus. Alguns dos cúmplices - que representavam uma pequena minoria em seus países de origem - foram obrigados a exercer esse papel, outros denunciaram judeus em troca de dinheiro. E alguns, que compartilhavam das crenças antissemitas dos nazistas, juntaram-se a eles por convicção.
A referência a esse aspecto particular do Holocausto é vista na Polônia como uma tentativa "dos alemães" de transferir para outros povos pelo menos uma parte da responsabilidade pelo assassinato em massa de judeus. Se a Polônia permitir que "essas práticas" aconteçam na Alemanha, acrescentou Kaczynski, não deverá se surpreender se um dia Berlim pedir indenizações pelos soldados alemães que morreram durante a opressão sangrenta ao Levante de Varsóvia.
"Eles estão buscando cúmplices para o Holocausto"Mas a explosão de Kaczynski é apenas a crista da onda de críticas que a capa da Spiegel desencadeou na mídia de Varsóvia. "Eles estão buscando cúmplices para o Holocausto", dizia a manchete do jornal conservador "Rzeczpospolita".
"'Der Spiegel' está acusando a Polônia e outros países de terem ajudado no Holocausto", afirmou o diário "Polska". No futuro, continua o artigo, "Spiegel" pode chegar à conclusão de que os judeus também colaboraram com o Holocausto - afinal, havia policiais judeus nos guetos, que foram obrigados pelos nazistas a reunirem homens, mulheres e crianças para serem transportados aos campos de concentração.
Para a Polônia, é particularmente doloroso o fato de a "Spiegel" também ter denunciado os poloneses "Szmalcownicy", que entregaram seus vizinhos judeus aos nazistas ou extorquiram dinheiro de famílias judias escondidas, em troca de silêncio. Às vezes eles faziam ambas as coisas.
Wladyslaw Bartoszewski, sobrevivente de Auschwitz e atualmente oficial encarregado das relações entre a Polônia e a Alemanha, referiu-se secamente ao fato de que 7.000 poloneses estão listados no memorial Yad Vashem Holocaust por seus esforços para salvar judeus, enquanto apenas 100 alemães têm seus nomes citados.
"O artigo confirma os piores temores em relação à transformação que está acontecendo no pensamento alemão quanto à Segunda Guerra Mundial", escreve o jornalista conservador Piotr Semka. Ao longo dos anos, muitos poloneses veem uma mudança gradual na forma como a Alemanha enxerga sua história - uma transformação, dizem eles, para uma mentalidade de vítima.
Erika Steinbach como inimiga pública número umComo prova, eles citam o número cada vez maior de filmes e livros produzidos em alemão que falam sobre temas como o bombardeio aliado a cidades alemãs e a expulsão de alemães da Europa Oriental no pós-guerra. Recentemente, por exemplo, foi lançando um filme sobre o Wilhelm Gustloff, um navio de passageiros cheio de refugiados alemães que deixou o porto de Danzig (hoje Gdansk, na Polônia) e foi torpedeado por um submarino russo. Mais de 9.000 passageiros, principalmente mulheres e crianças, morreram.
Na Polônia, Erika Steinbach, chefe da Federação Alemã de Expulsos, é vista há muito tempo como inimiga pública número um. Seu projeto de estabelecer um Centro Contra a Expulsão em Berlim - próximo ao Memorial do Holocausto - deixou Varsóvia particularmente irritada.
Parece que os poloneses temem que, dentro de alguns anos, a maioria dos alemães possa acreditar que os judeus e os alemães foram vítimas da Segunda Guerra Mundial.
Os alemães, diz a mídia polonesa, estão sendo levados por uma necessidade coletiva de se livrar do pesado fardo de sua história - ou pelo menos de compartilhar sua culpa. Matérias de capa da "Spiegel" como "O Continente Obscuro" não passam despercebidas.
Os alemães - parecem acreditar os moradores de Varsóvia - estão se voltando para a "Spiegel" hoje em dia com um suspiro de alívio. Mas a revista dificilmente é uma referência para quem quer se livrar da responsabilidade. Durante décadas, a "Spiegel" se concentrou duramente nos crimes nazistas da Alemanha. Só durante o último ano e meio, a revista publicou inúmeros artigos falando sobre o assunto. A matéria de novembro de 2008 sobre Heinrich Himmler, o "executor" de Hitler, é apenas um exemplo. Em março de 2008, foi publicada uma matéria intitulada "Os perpetradores: por que tantos alemães se tornaram assassinos".
Tradução: Eloise De Vylder