Com seu discurso, o presidente dos EUA, Barack Obama, ofereceu um ramo de oliveira ao mundo islâmico. Se o discurso entrará para a história será determinado pelos mulás de Teerã e pela linha-dura de Israel. Mas isto é certo: Obama fez um belo discurso no Cairo na quinta-feira. Ele falou em "respeito mútuo" e "interesses mútuos". O ciclo de suspeita e discórdia no mundo ocidental deve acabar, ele disse.
O DISCURSO DE BARACK OBAMA
Obama fez um discurso corajoso, afirmando que o islã é uma força de paz, que o Corão é um apelo por harmonia e que o presidente americano não vê nada errado em mulheres que usam lenço na cabeça. Ele acrescentou que os EUA devem de uma vez por todas parar de tentar exportar sua visão particular de democracia.
Nenhum líder ocidental antes dele havia sido tão empático e respeitoso em um discurso aos 48 países do mundo com populações de maioria islâmica. Obama ofereceu aos muçulmanos nada menos que reconciliação e parceria. Foi um discurso magnífico.
Mas o discurso que o presidente americano fez foi grandioso e historicamente importante?
A resposta para essa pergunta não será encontrada na Universidade do Cairo, onde ele falou para o mundo muçulmano. Será encontrada sobretudo nas mesquitas e nos palácios do mundo árabe. E somente se seus governantes pegarem as mãos que Obama lhes estendeu e as colocarem sobre seus corações.
Ele ofereceu a perspectiva de um estado palestino. Mas poderá convencer Israel a dar esse passo? Ele pediu um diálogo com a juventude islâmica. Mas os sucessos de recrutamento dos taleban podem ser contidos? Ele pediu que o Irã abandone seus esforços para produzir uma bomba nuclear. Mas os aiatolás de Teerã vão escutar?
A magnitude histórica de um discurso não é determinada principalmente pelo que é dito. O que importa é o que acontece depois, que as palavras tenham efeito.
O discurso "Eu tenho um sonho" de Martin Luther King, feito nas escadarias do Memorial a Lincoln em Washington em 1963, entrou para história porque provocou um movimento pelos direitos civis que transformou os EUA. Ajudou o país a realizar o sonho de acabar com a discriminação racial.
O discurso de Ronald Reagan "Sr. Gorbachev, derrube esse muro", feito em 1987 diante do Portão de Brandeburgo - na época isolado pelo Muro de Berlim -, estava desde o início destinado a ser superpromovido. Excesso de otimismo, as pessoas disseram educadamente. Tipicamente americano, disseram os críticos mais virulentos.
Hoje o discurso de Reagan conta como um grande evento, porque Mikhail Gorbachev enfrentou o desafio audacioso - pelo menos é o que parece. O muro caiu. Reagan deixou de parecer um simplório para ser um profeta de mudanças.
O primeiro discurso do ex-chanceler Willy Brandt diante do Parlamento alemão em 1969 incluiu o famoso desafio "Vamos nos arriscar a mais democracia" e anunciou uma nova abertura na Alemanha que seria popular entre os estudantes, ativistas contra a Guerra do Vietnã e outros jovens alemães ocidentais. O discurso deve sua fama aos efeitos de suas palavras, e não às palavras propriamente ditas. Brandt acompanhou seu discurso de uma fase de reformas internas. Ele não estava apenas falando. Mostrou serviço.
Se Obama vai mostrar, está menos claro que nunca. No mundo árabe, um certo número de extremistas enfrenta um pequeno bando de pragmáticos. Os pragmáticos querem apertar a mão estendida por Washington; os outros prefeririam cortá-la. Alguns querem negociar, outros querem construir bombas. Alguns entendem o discurso de Obama como um prelúdio da paz, os outros o vêem como uma declaração de guerra - porque eles percebem que essa paz não será alcançada de pleno acordo com a palavra do profeta Maomé.
Obama definiu sua missão mas não a realizou. Agora o discurso deve ser acompanhado de propostas políticas e tudo o que as acompanha - promessas, acordos e ameaças. E só podemos esperar que nunca chegue o dia em que vidas humanas tenham de ser perdidas para executar essas ameaças. O caminho da paz já levou muitas vezes à guerra.
Obama pronunciou palavras bonitas mas inacabadas no Cairo. Quando as luzes do auditório da universidade se apagarem, o presidente dos EUA ainda terá de trabalhar duro para realizar a potencial magnitude histórica de seu discurso.
UOL ENTREVISTA: Cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Thomas White, comenta a importância do discurso de Obama desta quinta-feira (4)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves