UOL Notícias Internacional
 

11/06/2009

A mulher que Ahmadinejad deveria temer

Der Spiegel
Ulrike Putz
Em Teerã (Irã)
Zahra Rahnavard poderá reverter a tendência nas eleições da sexta-feira no Irã. A ex-reitora de universidade é a mulher do candidato presidencial Mir Hossein Mousavi, e a popularidade dela junto às mulheres iranianas poderá ser a arma secreta deste político contra Ahmadinejad.

  • EFE
Antes mesmo da chegada de Zahra Rahnavard, já havia ficado evidente que essa mulher é uma figura importante na campanha eleitoral iraniana. A equipe que trabalha para a eleição do candidato presidencial Mir Hossein Mousavi esperava que apenas um punhado de jornalistas comparecesse à entrevista coletiva à imprensa da sua mulher. Mas 150 repórteres acabaram se aglomerando para ouvi-la falar.

Desde a revolução de 1979 nenhuma mulher de político tinha tamanha popularidade. Rahnavard chega até mesmo a aparecer nos cartazes eleitorais do marido: de pé, ao lado dele, segurando a mão do candidato. Na rígida sociedade muçulmana do Irã, este fato já pode ser considerado espetacular. Ela usa um xador preto e o seu lenço de cabeça traz estampas florais. Milhares de cópias do cartaz podem ser vistas em Teerã à medida que se aproxima a eleição presidencial.

  • AFP

    Antes de sua surpreendente vitória nas eleições presidenciais de 2005, Mahmoud Amadinejad foi prefeito da capital Teerã. Filho de um ferreiro, mudou-se do norte do Irã para a capital com sua família durante a infância; mais tarde, doutorou-se em engenharia civil. Durante a corrida eleitoral de quatro anos atrás, Ahmadinejad prometeu dedicar aos pobres o dinheiro que o país consegue com o petróleo, mas durante seu governo o país encontrou graves problemas econômicos (em parte devido a sanções internacionais), que agora são denunciados pelos outros candidatos presidenciais. Ahmadinejad ficou conhecido por seus comentários polêmicos, entre os quais a negação do Holocausto, o desejo de "tirar Israel do mapa" e declarações homofóbicas. Ele reivindica o direito de enriquecer urânio no Irã para gerar energia elétrica, um programa que Israel e os Estados Unidos acusam de ter fins bélicos

  • Reuters

    Mir Hussein Mousavi foi premiê do Irã de 1981 a 1989, quando o cargo foi eliminado. Visto como candidato reformista, é questionado por alguns críticos por ter sido parte da estrutura de poder após a Revolução Islâmica, que esmagou oposicionistas e impôs regras ultraconservadoras no país. Mousavi também teve papel central nos avanços políticos que começaram com o presidente Mohammad Khatami em 1997. Mousavi, que estudou arquitetura, atualmente é presidente da Academia de Artes do Irã. Sua mulher defende maior presença de mulheres no governo


A estratégia de Mousavi de inserir a sua mulher na campanha poderá fazer com que o eleitorado penda para a sua candidatura. As pessoas enxergam na imagem de Rahnavard ao lado do marido, em pé de igualdade, uma espécie de promessa eleitoral. Muitos eleitores, e não apenas as mulheres iranianas, esperam que, caso esse candidato reformista vença, uma nova era de liberdades pessoais possa ter início no país.

Na ausência de pesquisas independentes de intenções de votos, é impossível prever o resultado da eleição. Entretanto, ao que parece Mousavi é o mais importante adversário do presidente Mahmoud Ahmadinejad. E a utilização da mulher do candidato na campanha poderá desempenhar um grande papel na disputa.

Rahnavard está viajando há semanas pelo Irã - com ou sem o marido -, procurando angariar apoio para o reformista conservador. Ela fala em conceder às mulheres mais direitos nos tribunais de família, melhores oportunidades educacionais e mais empregos. Isso não atrai apenas o eleitorado feminino, que representa a metade dos cerca de 46 milhões de eleitores iranianos - muitos dos pais, irmãos e maridos dessas eleitoras também acreditam que esta é a rota correta.

Rahnavard, de 64 anos, transformou-se na arma secreta de Mousavi - um fato que ficou bastante claro na semana passada, quando o próprio Ahmadinejad a atacou. Ahmadinejad disse que a mulher do seu rival pode ser a ex-reitora da Universidade de Mulheres Al-Zahra, em Teerã, mas o título acadêmico dela não é verdadeiro. Um golpe baixo, sem dúvida. Mas isso revela que o presidente a considera uma ameaça real.

Quando Rahnavard chegou para a entrevista coletiva de domingo, ela usava um lenço de cabeça colorido e maquiagem pesada, algo que viola as regras no Irã. Uma camisa de linho podia ser vista sob as mangas do seu xador.

Reformas - dentro de limites
Ela organizou a coletiva para defender-se dos ataques de Ahmadinejad. Mas a imprensa iraniana e internacional estava interessada em outras questões. Os repórteres lhe perguntaram se ela se considera uma versão iraniana de Michelle Obama. "Não sou a Michelle Obama do Irã... Sou uma seguidora de Zahra (a filha do profeta Maomé)", respondeu ela, confiante, em inglês. "Mas eu respeito todas as mulheres ativas". Ela disse que não deixará de trabalhar na universidade caso o marido seja eleito, e que talvez o acompanhe em viagens ao exterior, provocando o aplauso dos jornalistas iranianos. Até mesmo a imprensa local pareceu satisfeita ao ouvir a mensagem de discreta emancipação.

  • Mahdi Karroubi é o único clérigo na corrida presidencial. Ele também disputou a presidência em 2005, após ocupar um cargo no Parlamento em duas ocasiões. Karroubi é considerado moderado e já criticou o establishment no poder, mas também participou de batalhas contra reformistas no parlamento

  • Mohsen Rezaei foi um comandante da Guarda Revolucionária de 1981 a 1997. Atualmente, é secretário do conselho que media as relações entre os clérigos e o parlamento. Rezaei, que é professor de economia na Universidade de Imam Hossein, está entre os procurados pela Interpol por suposta relação com o ataque a bomba contra um centro cultural judeu em Buenos Aires, em 1994, que deixou 85 pessoas mortas


Um jornalista quis saber se Rahnavard fará pressões pela suspensão da exigência do uso do lenço, caso torne-se primeira-dama. Ela respondeu que o Alcorão preconiza que as mulheres e os homens se cubram. "No entanto, não é preciso impor o uso do lenço da forma brutal como se faz hoje", acrescentou ela. A mensagem de Rahnavard foi clara: reforma, sim. Mas somente dentro dos limites estritamente definidos da República Islâmica do Irã.

Qualquer outra coisa seria improvável. Ainda que as mulheres liberais iranianas sejam as que mais estejam desejando a sua intervenção, ela está longe de ser uma pessoa inclinada para o Ocidente. Dentre os 30 textos que Rahnavard publicou, um é uma ode ao lenço de cabeça, com o subtítulo: "A mensagem da mulher muçulmana". Até mesmo o nome dela indica a sua crença. Esta professora que estudou arte e ciência política chamava-se originalmentee Zohre Kasemi. Mas na década de 1960 ela mudou de nome. Zahra é o nome da filha do profeta Maomé, enquanto que Rahnavard significa "aquela que segue a trilha muçulmana".

O motivo pelo qual a despeito disso tantas mulheres a apoiam ficou patente em uma visita a um salão de beleza na rica zona norte de Teerã. Esses salões transformaram-se em oásis para as mulheres iranianas. Os lenços de cabeças e as longas túnicas podem ser removidas, e muitas restrições também desaparecem enquanto as mulheres conversam sobre política. "A mulher iraniana é confiante, sexy e inteligente", afirma Mahin, enquanto massageia a face de uma cliente. O resto do mundo não percebe isso, diz ela. Lá foram eles enxergam a imagem de uma mulher oprimida usando um xador.

"É claro que preferiríamos que o Irã fosse representado por uma mulher moderna como Michelle Obama", afirma Mahin. "Mas ela não está disputando uma eleição". O importante é que as mulheres obtenham uma voz. Rahnavard prometeu que o seu marido sem dúvida nomeará duas ou três mulheres para o gabinete. "Isso será um começo", diz a massagista.

Elham, que aguarda o momento de fazer as sobrancelhas, diz desejar que as mulheres contem com melhores oportunidades empregatícias. "Eu tive sorte, mas muitas das minhas amigas não encontraram emprego depois da universidade", diz a mulher de 23 anos que vende equipamentos médicos. As mulheres representam mais de 60% dos estudantes universitários iranianos. Mas, com o desemprego no Irã na casa dos 20%, os patrões podem se dar ao luxo de serem seletivos. Muitos deles preferem contratar homens, e as mulheres representam apenas 15% da força de trabalho.

"Talvez Mousavi e a mulher dele possam modificar essa situação", afirma Eham. As esperanças têm sido estimuladas pelas declarações de Rahnavard, como aquela de que o homem e a mulher são as duas asas de um pássaro. Ela gosta de dizer que um pássaro não pode voar se uma das suas asas estiver quebrada.


"A liberdade é boa para os negócios"
Para as mulheres no salão, a maior fonte de irritação nas suas vidas diárias é a polícia moral que certifica-se de que os homens e as mulheres estão seguindo as regras. As mulheres precisam observar com cuidado aquilo que vestem: o uso de um lenço de cabeça e de túnicas largas que cheguem até pelo menos a metade das pernas é obrigatório. Farzan, que é especializada em depilação oriental com cera quente, já foi presa duas vezes: a longa túnica que ela usava sobre as calças estava muito justa.

"Cheguei ao meu limite ao ter que passar duas noites em uma sala com 50 ou 60 mulheres", diz ela, mostrando a sua nova túnica que vai até bem abaixo dos joelhos. "Tive que assinar duas vezes um documento me comprometendo a, no futuro, me vestir decentemente. Se eles me pegarem novamente, terei que pagar uma multa de US$ 200. Depois disso serei chicoteada, e não quero correr tal risco". Farzan diz que é possível pagar para evitar uma punição física, mas observa que isso é difícil.

No Irã, a alta política é elaborada exclusivamente por homens que regulam cada detalhe da vida cotidiana. O braço longo do Estado chega aos salões de beleza, conforme as mulheres daqui já testemunharam. Quando Ahmadinejad elegeu-se presidente quatro anos atrás, o controle exercido pela polícia moral tornou-se mais rígido. Unhas pintadas com cores vibrantes, manicures francesas, unhas falsas de acrílico - há um catálogo de multas para os mais diversos visuais. "Naquela ocasião os nossos negócios sofreram uma queda acentuada", recorda a especialista em manicure do salão. Ela quer votar em Mousavi - "aquele com a mulher" - simplesmente para garantir o seu emprego. "Talvez ele traga um pouco de liberdade. A liberdade é boa para os negócios".

Saiba mais

Tradução: UOL

Compartilhe:

    Tempo

    No Brasil
    No exterior

    Trânsito

    Cotações

    Hospedagem: UOL Host