UOL Notícias Internacional
 

12/06/2009

Quem está vencendo o jogo do monopólio no Ártico?

Der Spiegel
Christoph Seidler
No jogo Monopólio, ou Banco Imobiliário, os jogadores tentam reunir o maior número possível de propriedades. O rumo do jogo logo fica claro:
quem possuir a Boardwalk está a caminho da vitória e quem for o dono da Baltic Avenue certamente acabará de mãos vazias. Enquanto isso, o dinheiro é o único meio de atingir o objetivo do jogo. Na vida real, porém, as coisas nem sempre são tão simples quanto um jogo de tabuleiro.

No caso da região ártica, os principais jogadores usam dados científicos e as regras um tanto vagas do direito internacional. Aumentar seu território significa ganhar prestígio para esses países, e também serve para fornecer segurança energética. É ainda uma oportunidade para que eles assumam responsabilidade pelos riscos ambientais na região que eventualmente afetarão todos os países. Mas qual dos países em torno da região polar surgirá como vencedor desse jogo do Monopólio ártico?

Existe um vencedor aqui?

Em todo caso, as coisas não parecem especialmente boas para os EUA. O país ficou inativo demais na região durante muitos anos para agora subitamente assumir um papel de liderança. "Se há uma corrida de cinco países no Ártico, somos o quinto", adverte o almirante da Guarda Costeira Gene Brooks.

Apesar de o explorador americano Robert Peary ter reivindicado formalmente a área ao redor do pólo norte para os EUA cem anos atrás, nada aconteceu durante muito tempo depois disso, especialmente após a queda da União Soviética. Hoje os políticos em Washington esfregam os olhos, descrentes, enquanto outros países definem a agenda no que se refere ao pólo. "Eu acredito que é uma corrida", diz Mead Treadwell, presidente da Comissão de Pesquisa do Ártico dos EUA.

O país permanecerá à margem da corrida polar por algum tempo ainda. Isso talvez seja positivo em termos da retórica política na região, que poderá ser menos carregada sem o envolvimento americano. Mas também significa que Washington está ausente como um possível fator de estabilização no Ártico.

Retórica brilhante, mas poucos investimentos
O Canadá está igualmente ausente da região, apesar do fato de suas perspectivas lá parecerem muito boas. A mudança climática está permitindo que recursos sejam extraídos de áreas cada vez mais ao norte.

O Canadá poderia se beneficiar especialmente se sua infraestrutura no Ártico não fosse tão reduzida. Durante décadas os políticos canadenses usaram uma retórica brilhante sobre o extremo norte do país, mas quase não se fizeram investimentos na região.

As declarações do primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, depois da expedição russa de mergulho no oceano Ártico no verão de 2007 também parecem recair nessa categoria, e os investimentos que Ottawa prometeu na época ainda não se materializaram. Mesmo que essas promessas sejam cumpridas -um novo porto de águas profundas, um centro de treinamento militar, barcos de patrulha ou mesmo um novo navio quebra-gelo chamado John G. Diefenbaker que o governo quer construir-, todos esses projetos ainda não bastam. O Canadá continuará desperdiçando grande parte de seu potencial no Ártico.

Um exemplo em particular torna fácil compreender se é sério ou não o desejo do Canadá de uma soberania efetiva em seu extremo norte. Alert, a base mais setentrional do Canadá, localizada na ilha de Ellesmere, está na verdade mais perto de Moscou que de Ottawa. Essa informação por si só pode não parecer especialmente dramática. Mas combinada ao fato de que esse posto avançado para a defesa da soberania do Canadá teria apenas cinco habitantes no censo de 2006, fica claro que o governo canadense terá de fazer algum esforço se realmente quiser se posicionar como uma potência ártica. Na disputa legal sobre a situação da Passagem Noroeste, hoje aberta devido ao encolhimento do gelo ártico, a posição do Canadá parece destinada a piorar em longo prazo.

A Groenlândia, que é politicamente representada pela Dinamarca, tem perspectivas mistas. Na verdade, a política de Copenhague para o Ártico é um tanto contraditória. Por um lado o país já trabalhou fortemente para uma solução política para a corrida no extremo norte. O governo dinamarquês convocou uma reunião de cúpula na Groenlândia que finalmente produziu um compromisso dos países que têm litoral no oceano Ártico de "continuar comprometidos" com a atual "estrutura jurídica e a solução ordenada de quaisquer reivindicações conflitantes". Por outro lado, Copenhague está realizando um programa de pesquisa em grande escala com a intenção de tornar suas reivindicações territoriais o mais extensas possível. Ainda não está claro se a alegação da Dinamarca realmente abrangeria o pólo norte. Nesse caso, causaria problemas com a Rússia e potencialmente também com o Canadá.

Bênção e maldição
Para a Groenlândia, o boom emergente dos recursos naturais é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. De um lado há a ameaça de danos ao frágil meio ambiente, e do outro é uma oportunidade para a Groenlândia atingir a completa autonomia depois de séculos de domínio estrangeiro.

Mas algumas pessoas advertem contra o sonho da riqueza rápida: "Se destruirmos nosso ambiente em nome da independência, o preço é alto demais", adverte Aqqaluk Lynge, chefe do ramo groenlandês do Conselho Circumpolar Inuit.

Aleqa Hammond, que foi ministro das Finanças e das Relações Exteriores do governo local da Groenlândia durante muitos anos, retruca: "Algumas pessoas pensam que a mudança climática é ruim. Nós groenlandeses dizemos que se o gelo recuar teremos de fazer alguma coisa. Queremos nos beneficiar disso".

Em todo caso, o governo da Groenlândia tem muitos problemas sociais para resolver, que poderiam ser exacerbados por um fluxo descontrolado de receitas do petróleo. O baixo padrão educacional de partes da população e o alto nível de consumo de álcool são problemas que precisam ser enfrentados em longo prazo se o país quiser ter um crescimento estável.

Para a Noruega, muito depende do futuro comportamento da Rússia. Se Moscou agir de maneira pacífica e cooperativa, a Noruega também deverá ganhar na corrida pelos recursos naturais do Ártico -pelo menos enquanto o boom não representar o custo de grandes catástrofes ambientais. Oslo espera encontrar grandes quantidades de petróleo e gás natural na região polar, e que seu atual nível de afluência dure mais alguns anos.

Temores sobre o poder russo
Em uma região ártica politicamente estável, a Noruega poderia preparar e implementar a expansão de sua produção de petróleo e gás no norte, algo de que precisa urgentemente para garantir sua prosperidade.

Tradicionalmente, o petróleo da Noruega e as companhias de tecnologia em alto-mar, com excelente tecnologia a seu dispor, poderiam se beneficiar de um boom também nas regiões árticas da Rússia. Atualmente, porém, as relações entre a Noruega e a Rússia são tensionadas por disputas sobre a demarcação da fronteira comum dos dois países que atravessa o mar de Barents, assim como diferentes interpretações do Tratado de Spitsbergen, de 1920, que definiu certos detalhes da soberania da Noruega sobre o arquipélago de Spitsbergen.

Enquanto essas questões não forem esclarecidas, Oslo ainda deverá temer novos atos de poder da Rússia. E se a Rússia seguisse uma linha-dura antiocidental em seu extremo norte a Noruega provavelmente seria o país que mais sofreria, com apoio provavelmente limitado da Otan e da União Européia.

Em médio prazo, esses conflitos fariam a Noruega depender das importações, assim como causariam um alto custo dos combustíveis, já que os depósitos no mar de Barents no norte não poderiam ser utilizados se o país se envolvesse em conflitos políticos com a Rússia. Em todo caso, a Noruega tem o problema de que em longo prazo precisa transformar totalmente sua economia, afastando-se da dependência do petróleo e do gás e recorrendo a recursos alternativos. Mesmo os recursos do Ártico são finitos.

Enquanto isso, a Rússia está com todos os trunfos e mostrando ser o principal jogador em relação ao destino do Ártico. Em certa medida a Rússia está bem equipada para uma corrida ártica. O país tem sob seu comando não apenas seus dois submarinos Mir, mas também uma frota de meia dúzia de quebra-gelos maciços, capazes de realizar patrulhas pelo Ártico a qualquer momento. A Rússia também pretende construir três ou quatro navios movidos a energia nuclear nos próximos anos.

Para a Rússia e outros países, a mudança climática do Ártico traz consequências ambíguas. Quando os problemas técnicos e financeiros forem solucionados, será possível para o país minerar recursos naturais que até agora não foram utilizados. Ao mesmo tempo, existe um perigo exatamente porque grande parte da infraestrutura russa está ao norte do círculo Ártico, em boa medida ameaçada pela mudança climática.

Território e prestígio
Uma coisa está clara -Moscou só pode vencer no extremo norte se conseguir atrair investidores estrangeiros para projetos de grande escala como seu campo de Shtokman. As companhias estatais russas como Rosneft e Gazprom têm grandes problemas de tecnologia para a produção de gás natural e petróleo. Além disso, hoje elas enfrentam dificuldades de capital devido à recessão econômica mundial. Os investidores estrangeiros, porém, precisam de segurança jurídica, e de saber que os acordos em que entram não perderão repentinamente a validade devido ao comportamento arbitrário das autoridades russas.

O governo russo está brincando com fogo quando usa cada vez mais atividade militar no extremo norte para compensar a perda da posição de potência mundial. Com frequência crescente, jatos russos passam muito perto do espaço aéreo da Otan. Os militares noruegueses registraram 88 voos russos ao longo da costa norueguesa em 2007 -em 2006 foram apenas 14. A Rússia chegou a realizar um falso bombardeio à base aérea de Bodo, o centro de comando militar mais setentrional da Noruega.

Tudo isso pode ser perfeitamente legal, mas constitui uma quebra de protocolo diplomático. E os próprios russos poderão na verdade perder mais se o Ártico se aquecer militarmente. Eles não conseguiriam simplesmente continuar minerando recursos naturais e comercializando-os internacionalmente. Mas a renúncia de Moscou aos meios militares parece pouco mais que retórica.

Um ponto de virada importante poderá surgir este ano, quando a ONU reavaliar uma reivindicação territorial russa por grandes áreas do Ártico, apresentada em 2001 e que logo serão reapresentadas com novas provas. Poderá ser difícil para os especialistas da ONU recusar os diplomatas russos pela segunda vez, e a pressão política é enorme.

Artur Chilingarov, um explorador polar e representante especial do Kremlin, ameaçou que se as alegações da Rússia não forem reconhecidas desta vez o país deixará a Convenção das Nações Unidas sobre Direito Marítimo.

Supostamente a questão não irá tão longe, pois espera-se que a Rússia traga dados melhores para a mesa desta vez. As probabilidades de a Rússia ganhar território -e portanto prestígio- parecem grandes. Resta ver o que os líderes do Kremlin farão em seguida.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Compartilhe:

    Tempo

    No Brasil
    No exterior

    Trânsito

    Cotações

    Hospedagem: UOL Host