O acordo para transferência de 17 presos uigures do centro de detenção de Guantánamo para o país-ilha de Palau, no Pacífico, serve quase como um ponto final para meses de delicada diplomacia entre Washington e Berlim. Durante grande parte do ano, as autoridades em Berlim debateram se deveriam permitir que os presos se estabelecessem na Alemanha.
Mas na quarta-feira, o presidente de Palau, Johnson Toribiong, disse que seu país minúsculo aceitaria os uigures como um "gesto humanitário". Seu governo agora receberá cerca de US$ 200 milhões em ajuda de Washington, apesar de Toribiong e as autoridades americanas negarem que se trata de um acordo toma lá, dá cá.
Em 2004, o governo americano liberou os uigures, que não considera "combatentes inimigos", para soltura. Mas a China insiste que os uigures, que pertencem a uma minoria composta principalmente por muçulmanos no noroeste da China, são terroristas separatistas -o que significa que poderiam ser torturados caso os americanos os enviassem para casa, para a província de Xinjiang. Permitir que se estabelecessem nos Estados Unidos provou ser impossível após uma revolta dos congressistas republicanos, que montaram uma campanha "não no meu quintal" para questionar a capacidade dos uigures de viver pacificamente nos Estados Unidos.
Desde janeiro, pouco antes da posse de Barack Obama, o governo alemão vinha debatendo se aceitaria todos ou parte dos 17 presos como um gesto de boa vontade, para ajudar o novo governo a fechar Guantánamo. Munique conta com uma grande comunidade uigur e o ministro das Relações Exteriores alemão de esquerda, Frank-Walter Steinmeier, estava -pelo menos até recentemente- interessado em trabalhar com Obama no assunto. Mas o ministro do Interior conservador, Wolfgang Schäuble, questionou por que a Alemanha deveria ajudar a solucionar os problemas legais autoinfligidos dos americanos ao aceitar os detidos. Um possível problema diplomático com a China por acolherem os uigures parecia incomodar a todos em Berlim. Mas nesta semana -com a ajuda de Palau- o assunto foi encerrado.
Palau foi colônia da Espanha, Alemanha e Japão, mas após a Segunda Guerra Mundial o país passou décadas como "território sob supervisão" dos Estados Unidos, até ganhar a independência em 1994. Relatos dizem que os uigures não queriam ir para lá. Mas um advogado americano que serve como embaixador de Palau na ONU, Stuart Beck, insistiu ao "The New York Times", na quarta-feira, que se trata de um bom lugar para viver. "O que eles encontrarão em Palau é o paraíso", ele disse.
Os comentaristas alemães consideraram na quinta-feira o colapso da boa vontade entre Washington e Berlim como resultado de políticas partidárias e outros interesses próprios estreitos.
O jornal conservador "Die Welt" escreveu:
"Um pacote de ajuda de US$ 200 milhões está em discussão, o que representaria incríveis US$ 10 mil por pessoa em Palau -um valor significativamente superior à renda anual per capita da ilha. Mais importante, entretanto, é que a América reforçou suas garantias de segurança ao pequeno país, que... depende em grande parte de Washington para sua defesa."
"Obama aparentemente foi forçado a recorrer a uma tática que ajudou George W. Bush antes da invasão ao Iraque. Quando aliados ocidentais importantes não cooperam, Washington recorre a países que precisam de proteção. Na guerra no Iraque, foram principalmente países do Leste Europeu e asiáticos (como Palau) que queriam se proteger da Rússia e da China por meio de um relacionamento estreito com Washington."
"Agora Palau aceitará uma grande parte dos 50 detidos de Guantánamo que foram declarados pelos americanos como não representando um risco à segurança. Diferente da guerra no Iraque, é claro, a decisão de fechar Guantánamo foi universalmente saudada pelos governos europeus. Mas até o momento isso não ajudou Obama."
O jornal de esquerda "Die Tageszeitung" escreveu:
"Os uigures (...) não foram acusados de nenhum crime e tiveram o rótulo de 'combatentes inimigos' retirado em 2008. A idéia de que pudessem se estabelecer nos Estados Unidos fracassou não por causa de qualquer fato conhecido, mas sim devido a uma campanha histérica."
"Schäuble baseou sua rejeição em parte alegando que os uigures não tinham ligação pessoal com a Alemanha. Isso não é verdade. Munique tem a maior comunidade de imigrantes uigures na Europa. Uigures prosperam lá. Empresários uigures em Munique prometeram ajudar os presos a encontrar emprego."
"As táticas ridículas de protelação de Schäuble só tem um motivo -a alegação do governo chinês de que os uigures são terroristas. Se é verdade, por que então não enviá-los para casa imediatamente?"
Tradução: George El Khouri Andolfato