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16/06/2009

Declaração de pandemia revela que nenhum país oferece segurança contra a gripe suína

Der Spiegel
Marco Evers e Veronika Hackenbroch
Em poucas semanas, o vírus altamente contagioso H1N1 se espalhou pelo mundo. Por ora, os sintomas tendem a ser relativamente brandos. Mas especialistas em saúde estão preocupados com a possibilidade disso poder mudar e estão se preparando para o pior.

Até recentemente, qualquer um que viajasse ao México ou aos Estados Unidos era alertado por amigos a não trazer para casa a gripe suína. Esses alertas agora são supérfluos.

Conheça os sintomas, as formas de contágio e os focos da gripe suína no mundo

Até o final da semana passada, oficialmente não há mais nenhum país que possa oferecer segurança contra o novo vírus de gripe. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a gripe suína uma pandemia, elevando o alerta global de gripe ao nível mais alto. Pela primeira vez em mais de 40 anos, uma patógeno totalmente novo de gripe está à solta no mundo.

Muito poucas pessoas têm qualquer defesa natural contra a nova gripe. Após ser descoberta no México em abril, o vírus apareceu em pelo menos 74 países, das regiões polares do Canadá até a Tasmânia. E isso é apenas o começo.

O vírus está ativo em presídios e bordéis, em navios de cruzeiro e em estações de metrô - e no coração da Alemanha. Uma escola japonesa em Dusseldorf foi fechada na semana passada após pelo menos 46 crianças terem contraído a nova gripe - uma das crianças precisou ser levada ao hospital universitário da cidade. Oito crianças foram infectadas pelo vírus em Colônia.

Epidemiologistas do Instituto Robert Koch (RKI) de Berlim iniciaram investigações em ambas as cidades, apesar de não terem mais esperança de conseguirem conter o vírus H1N1 e impedi-lo de se espalhar pela Alemanha. Segundo a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, "não é mais possível deter o vírus".

O salto de uma espécie para outra
Os cientistas agora acreditam que o vírus saltou dos porcos para os seres humanos em janeiro, provavelmente no México. O vírus circulou, sem ser notado, por anos entre os porcos, como escreve Andrew Rambaut, da Universidade de Edimburgo, na revista "Science". Se porcos criados em confinamento fossem checados regularmente à procura de novos vírus, poderia ter sido possível impedir o vírus H1N1 de saltar de uma espécie para outra. Agora é tarde demais.

No outono do Hemisfério Norte, quando tiver início a temporada normal de surtos de gripe, o vírus provavelmente atacará duramente a região. O epidemiologista de Londres, Neil Ferguson, prevê que uma entre três pessoas pegará a nova gripe daqui três a quatro meses. Até o momento, a grande maioria dos casos não foi fatal; os sintomas, que incluem febre, tosse, garganta inflamada e frequentemente diarréia, desaparecem em cerca de cinco dias.

Todavia, uma pandemia plena de gripe continua sendo uma das mais terríveis e imprevisíveis forças da natureza, varrendo o planeta e fazendo o que bem deseja. Mesmo no século 21, apesar de todo nosso conhecimento e tecnologia, nós ainda somos incapazes de levar a melhor contra um minúsculo fragmento de material genético infeccioso.

Milhões de pessoas repentinamente adoecendo e não podem sair de casa para trabalhar poderia levar a um tremendo dano econômico ou pior. Além disso, uma pandemia poderia sobrecarregar a capacidade até mesmo dos mais robustos sistemas de saúde. Respiradores e leitos hospitalares podem se tornar escassos, assim como médicos, enfermeiros e até mesmo motoristas de ambulâncias.

Não desaparecerá simplesmente
Os especialistas estimam que centenas de milhares, possivelmente ainda mais, já estão infectados pelo vírus H1N1. Testes de laboratório deram positivo em cerca de 30 mil casos. Até agora, oficialmente apenas 145 pessoas morreram -uma taxa de mortalidade igual a de uma gripe comum. Apesar da maioria daqueles que morreram tinha outros problemas de saúde, alguns não tinham. A OMS identificou um acúmulo de casos severos e mortais em mulheres grávidas e pessoas com idades entre 30 e 50 anos, uma conclusão que deixa muitos especialistas preocupados.

"A severidade da doença causada pelo vírus poderia piorar no futuro", alertou o diretor-geral assistente da OMS, Keiji Fukuda. Os vírus de gripe são notórios por sua capacidade de sofrer mutação. Ocorreram muitos casos no passado em que começaram como um incômodo e então se transformaram em vírus assassinos. Isso aconteceu em 1918, quando o vírus da gripe matou apenas poucas pessoas no início, mas então tirou cerca de 50 milhões de vidas, a maioria pessoas jovens.

Apesar de nenhum médico poder prever a progressão da pandemia de 2009, está claro que ela não desaparecerá simplesmente e provavelmente circulará por algum tempo. Logo, a humanidade terá que aprender a conviver com o novo vírus. A pandemia só cederá assim que uma quantidade suficiente de imunidade se disseminar pela população, seja em consequência de vacinação em grande escala ou pessoas terem contraído e sobrevivido à infecção. A experiência mostra que isso pode levar anos.

Os particularmente ousados -ou insanos- estão adotando uma medida que consideram preventiva ao procurar contato pela Internet para festas da gripe suína. O raciocínio deles? É melhor adoecer agora do que morrer depois.

A esta altura, o H1N1 causa sintomas relativamente leves. Mas se uma versão mais agressiva do vírus se disseminar em uma segunda onda, aqueles que agora buscam contrair deliberadamente o vírus esperam já ter desenvolvido a imunidade a ele.

Colocando outros em risco
O presidente do Instituto Robert Koch, Jörg Hacker, recomenda fortemente que as pessoas não corram esse risco, notando que ninguém pode saber se não ficará gravemente doente. Além disso, aqueles que se infectam deliberadamente também colocam outros em risco. Acima de tudo, disse Hacker, não há evidência que apoie os supostos benefícios de uma infecção antecipada. Segundo Hacker, "não se sabe se ter sobrevivido à infecção protegeria alguém contra ser novamente infectado ou contra um vírus que potencialmente sofreu mutação".

Na Alemanha, pouco mudou como resultado da OMS ter elevado seu alerta de pandemia ao nível mais elevado. Os planos do país para pandemia, aprovados anos atrás, já estão implantados. Uma equipe de crise no Ministério da Saúde tem se reunido regularmente há semanas. Os Estados estão aumentando seus estoques de medicamentos antivirais. Os hospitais e consultórios médicos foram aconselhados a ser extremamente vigilantes. O Laboratório de Referência para Gripe Humana alemão, em Berlim, está estudando amostras do vírus obtidas daqueles que já adoeceram, para determinar se está mudando seu composição genética. As autoridades têm colocado folhetos de informação nos aeroportos para alertar as pessoas a lavarem com frequência suas mãos e permanecerem em casa caso não se sintam bem.

A corrida por uma vacina
Apesar da pandemia, eventos em massa com concertos, partidas de futebol e festivais não foram cancelados. Entretanto, as autoridades de saúde poderiam mudar de idéia rapidamente em caso de agravamento da situação. O fechamento temporário das escolas é considerado um dos meios mais eficazes de conter um surto de gripe. Os especialistas consideram as crianças os mais importantes portadores de gripe, porque tendem a ficar em contato próximo umas das outras e frequentemente enfiam os dedos na boca e mantêm uma higiene ruim das mãos. Hong Kong, por exemplo, adotou a medida de precaução de fechar todos os jardins de infância e escolas primárias por duas semanas.

Os fabricantes de vacinas já deram início à produção de uma vacina contra o vírus, com a expectativa de que a primeira leva ficará pronta em cerca de quatro meses. Àquela altura, uma feroz disputa ocorrerá a respeito de quem receberá a vacina protetora. Só haverá o suficiente para uma minoria da população.

A OMS estima que haverá vacina suficiente em todo o mundo para entre 500 milhões e um bilhão de pessoas no primeiro ano da pandemia. As demais serão forçadas a torcer e esperar -e enfrentar a probabilidade de que o vírus os pegue antes de receberem a vacina.

As vacinas de gripe são tradicionalmente cultivadas em ovos de galinha. Este é um método eficaz, mas é um obstáculo importante, especialmente em uma pandemia: é impossível produzir grandes quantidades de vacina rapidamente, porque é necessário um ovo para cada dose de vacina. Para superar este problema, várias companhias farmacêuticas estão tentando converter sua produção para culturas de células.

Idosos não afetados
Na cidade alemã de Marburg, no oeste do país, a gigante de vacinas Novartis produziu pela primeira vez com sucesso um lote inicial de vacinas para gripe suína usando culturas de células. "Isto prova que funciona", disse Stephan Becker, diretor do Instituto de Virologia de Marburg, que trabalha juntamente com a Novartis.

As culturas de células possibilitam produzir vacinas em semanas em vez de meses. A Novartis diz que dará início em julho aos testes clínicos humanos da vacina baseada em células, e a empresa planeja que a nova vacina esteja pronta para aprovação em dezembro. Se tudo sair bem, milhões de doses de vacina poderão deixar o laboratório em Marburg a cada semana, enquanto a nova fábrica que a Novartis está construindo na Carolina do Norte produzirá ainda mais.

Mas o mundo terá que enfrentar um racionamento até que haja vacina suficiente para todos. A OMS fará em breve recomendações sobre que grupos de pacientes correm maior risco com a gripe suína. Eles terão prioridade para receber a vacinação.

Os candidatos mais prováveis serão as mulheres grávidas, pessoas com problemas cardíacos, diabéticos, pessoas com desordens autoimunes, obesos e aqueles com idades entre 30 e 50 anos. As crianças provavelmente também estarão incluídas. Apesar de seus sintomas costumarem não ser severos, elas tendem a contrair a doença em grande número. Na cidade mexicana de La Gloria, um dos primeiros locais da epidemia, mais de uma entre duas crianças foi infectada.

Diferente da gripe comum, a H1N1 aparentemente não é ameaçadora aos idosos. Os médicos especulam que isto pode ocorrer por eles já terem sido expostos a um vírus relacionado muitas décadas atrás.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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