Por quanto tempo Israel poderá resistir à pressão americana?
Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, dá andamento às suas iniciativas de paz para o Oriente Médio, o novo tom e nova modéstia dos americanos são bem aceitos na região. Até mesmo o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu está tendo dificuldade para resistir à pressão de fazer concessões na questão palestina.
Sempre que alguém questiona sua falta de recursos em situações difíceis, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, gosta de lembrar de um episódio de sua juventude. Ele tinha pouco mais de 20 anos e estava servindo na Sayeret Matkal, uma unidade de elite das forças especiais da Força de Defesa Israelense, que tinha sido escolhida para colher inteligência além das linhas inimigas e tinha uma reputação de ser durona.
Netanyahu liderava um grupo de soldados montanha acima quando repentinamente viu seu caminho bloqueado por uma rocha gigantesca. Com o paredão da montanha à esquerda e um precipício à direita, a única opção real do grupo era dar meia volta e abortar a missão.
Mas como Netanyahu gosta de contar, ele sabia exatamente o que fazer. Usando arbustos que brotavam do penhasco, ele contornou o obstáculo, pendurado sobre o abismo, chegando ao caminho do outro lado da rocha.
Quarenta anos depois, Netanyahu está sendo obrigado a usar novamente sua imaginação. Desta vez, os desafios envolvem o desarme dos conflitos no Oriente Médio e a questão sobre como o relacionamento de Israel com sua potência protetora, os Estados Unidos, se desenvolverá sob o presidente Barack Obama. O presidente pediu a ele, em termos claros, para aceitar a possibilidade de um Estado palestino, como seus antecessores.
Mas resolver este problema não é tão fácil para Benjamin Netanyahu, cujo apelido é Bibi, quanto contornar uma rocha em seu caminho como quando tinha pouco mais de 20 anos: a maioria dos que integram sua coalizão de governo de direita e seu próprio partido rejeitam o que Obama está pedindo.
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O premiê israelense Beninyamin Netanyahu, e o presidente norte-americano, Barack Obama, conversam na presença de jornalistas na Casa Branca, após reunião em maio deste ano
Em um discurso no domingo, o primeiro-ministro buscou expor seus planos para tratar da questão palestina. Ele disse estar disposto a aceitar a criação de um Estado palestino - mas diante das pré-condições rígidas exigidas, como o fato do Estado ser desmilitarizado, há pouca chance de um acordo ser fechado. Ele também rejeitou os pedidos de Obama para uma suspensão completa da construção de assentamentos na Cisjordânia e descartou ceder Jerusalém Oriental aos palestinos como sua capital.
Netanyahu fala com frequência sobre sua visão de uma paz com os palestinos: desenvolvimento econômico na Cisjordânia, que é controlada pelo movimento Fatah moderado sob o presidente Mahmoud Abbas, expansão dos assentamentos e nenhuma cooperação com o radical Hamas na Faixa de Gaza. Ele também descreve repetidamente o Irã como uma ameaça à existência de Israel, assim como para a região e o Ocidente.
Quebrando o ciclo de violênciaApesar dos Estados Unidos estarem familiarizados com a posição de Netanyahu, a Casa Branca discorda dela. Obama não está satisfeito com o status quo, mas deseja mudá-lo desarmando os conflitos. Por este motivo, Netanyahu dificilmente conseguirá resistir a exibir pelo menos um mínimo de concessão a longo prazo, o que inclui o reconhecimento do chamado roteiro para a paz como diretriz para a política do Oriente Médio.
O roteiro para a paz é um plano gradual que inclui obrigações tanto para os palestinos quanto para os israelenses, cuja meta é quebrar o ciclo fatal de crises e guerras, levantes intifada, atentados suicidas e operações militares. Basicamente o plano envolve a renúncia da violência e sua meta final é o reconhecimento da solução de dois Estados pelos dois lados.
O presidente americano está seguindo o plano, o que envolve risco. O Oriente Médio já provou repetidas vezes ser uma região difícil para reformistas ambiciosos. Nos anos desde o acordo de Oslo de 1993, ocorreram vários reinícios, mas todos destinados a fracassar. E, com frequência, a decepção com os fracassos nas negociações explode em nova violência - como experimentaram os ex-presidentes Bill Clinton e George W. Bush.
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E desta vez?Obama estabeleceu o tom em seu importante discurso no Cairo. Agora a execução está aos cuidados da secretária de Estado, Hillary Clinton, e do enviado especial de Obama ao Oriente Médio, George Mitchell.
Netanyahu inicialmente se recusou a fazer o que Obama pediu, estremecendo as relações entre Israel e os Estados Unidos. "Havia um entendimento na questão dos assentamentos, mas vocês nos enganaram e não o cumpriram", disse Mitchell de modo direto e brutal. Ele se referia ao compromisso internacional de Israel de não construir mais nenhum novo assentamento na Cisjordânia. Netanyahu se queixou a associados próximos de que a acusação e o tom inesperado de Mitchell foram "injustos".
O presidente Obama está se empenhando com mais força, na esperança de obter um sucesso no Oriente Médio - outros conflitos internacionais, como os no Paquistão e Afeganistão, serão mais difíceis de resolver e provavelmente levarão mais tempo. Mitchell viajou primeiro para Jerusalém, depois para Damasco e Beirute para sondar a disposição dos principais envolvidos em fazer concessões.
Novas oportunidades estão surgindo em Damasco, onde o presidente sírio, Bashar Assad, está disposto a se livrar de seu status de pária na região, do ostracismo por parte do Ocidente e da dependência do Irã, que está buscando uma hegemonia regional. As negociações entre Israel e a Síria para devolução das Colinas de Golan, intermediadas pela Turquia, já tinham progredido bastante, mas pararam quando estourou a guerra em Gaza.
E agora há um novo movimento no Oriente Médio, à medida que os efeitos do discurso de Obama ao mundo islâmico, feito no Cairo, começam a ser sentidos. Nas eleições no Líbano, a maioria não votou na aliança entre xiitas e cristãos dominada pelos extremistas do Hizbollah, como se esperava. Em vez disso, a aliança pró-Ocidente liderada por Saad Hariri, o filho do ex-primeiro-ministro assassinado, Rafiq Hariri, venceu a eleição.
Por ora, o antiamericanismo virulento não mais parece ser um fator confiável no Oriente Médio -uma consequência do discurso do Cairo, com sua ênfase no respeito mútuo e sua oferta de abordar os conflitos de um modo diferente.
A abordagem modesta de ObamaMudanças semelhantes estão ocorrendo no Irã, onde as eleições presidenciais provocaram uma onda impressionante de emoções. O país mergulhou em uma campanha eleitoral furiosa, na qual uma das questões era a posição do Irã em relação aos Estados Unidos. O presidente Mahmoud Ahmadinejad foi forçado a ouvir as acusações públicas de seu adversário, Mir Hossein Mousavi, de que prejudicou a credibilidade internacional de seu país com suas posições.
A notícia de que Ahmadinejad venceu a eleição provocou três dias de grandes protestos em Teerã por eleitores de Mousavi, que alegam que a eleição foi fraudada. Sete pessoas teriam sido mortas durante choques na noite de segunda-feira entre os defensores de Mousavi e a milícia leal a Ahmadinejad.
Esses eventos sinalizam um início, apesar da improbabilidade do verdadeiro equilíbrio de poder em Teerã e Damasco mudar tão cedo. De fato, eles refletem um novo grau de compromisso por parte dos Estados Unidos, que, ironicamente, estão ganhando influência ao adotar uma abordagem mais modesta do que no passado.
Aqueles que apoiam o presidente palestino Abbas, que são dependentes da boa-vontade americana, apreciam o novo tom. "Nós estamos em uma posição de igualdade de força com Israel pela primeira vez", disse Saeb Erekat, o antigo negociador chefe do governo palestino. Os palestinos não são mais os únicos protestando contra a construção de novos assentamentos na Cisjordânia, agora que até mesmo o governo americano está criticando a política.
Cerca de 300 mil pessoas vivem nos assentamentos próximos ou nas cidades de Hebron, Belém e Ramallah na Cisjordânia, e outras 200 mil vivem na Jerusalém Oriental ocupada. Se um Estado palestino independente for estabelecido, Israel sem dúvida manteria os maiores blocos de assentamentos - com suas próprias estradas, forças de segurança e infraestrutura - na prática criando um Estado dentro do Estado palestino. Além disso, o governo israelense tem adotado, há algum tempo, uma abordagem laissez-faire em relação aos novos colonos que estão armando ilegalmente seus trailers com a intenção de estabelecer raízes.
Netanyahu foi eleito precisamente por causa de sua não disposição em ceder. No seu entender, a Casa Branca não está cumprindo sua palavra. Em uma reunião de Gabinete, ele apontou que o ex-presidente George W. Bush concordou em aceitar a expansão dos assentamentos. Mas a secretária de Estado, Hillary Clinton, contesta a versão de Netanyahu, dizendo que o governo Bush não deu essa garantia.
Os assentamentos são importantes, mas são apenas um símbolo. A verdadeira questão é se Israel está disposto a conceder aos palestinos seu próprio Estado. Mesmo antes do discurso de domingo, havia evidência sugerindo que Netanyahu estava mudando de idéia em relação à solução de dois Estados.
"Israel concordará com a solução de dois Estados no final", disse o presidente egípcio Hosni Mubarak após uma conversa por telefone com Netanyahu, antes do discurso do primeiro-ministro israelense. Outra evidência foi fornecida pela briga durante um encontro do grupo parlamentar do Partido Likud. O parlamentar Danny Danon implorou ao seu primeiro-ministro para que não se deixasse ser forçado a aceitar um Estado palestino. Netanyahu respondeu perguntando: "Você tem alguma alternativa?"
Outra parlamentar do Likud, Tzipi Hotovely, citou o "direito dos judeus à sua terra bíblica", o que é tradicionalmente defendido pelo Likud, um partido nacionalista de direita. "Mas os palestinos também estão aqui", respondeu Netanyahu. "Que status devem receber? Vassalos? Cidadãos?" Seus comentários foram recebidos com silêncio.
Os três nãosNetanyahu já foi primeiro-ministro de Israel, entre 1996 e 1999. Na época, ele ficou famoso pelos seus três nãos: a não retirada das Colinas de Golan, a não retirada de Jerusalém Oriental e não negociação com os palestinos com pré-condições.
Hoje, tudo o que lhe resta é uma escolha desajeitada. Se ele se distanciar demais dos três nãos, sua coalizão de direita provavelmente ruirá. Mas se não se afastar o suficiente, a pressão de Washington vai aumentará.
Uma das novidades a respeito do governo Obama é a abordagem unificada que adota com suas políticas atuais. Em Washington, a abordagem é chamada "diplomacia pública", uma referência ao fato de que o presidente identifica publicamente os interesses nacionais americanos nos maiores conflitos do mundo e apela aos países envolvidos para que contribuam para encontrar uma solução. Além de negociar com seus pares, Obama conversa com qualquer um disposto a ouvir, como fez durante sua campanha. A diplomacia de Washington, em uma nova reviravolta, envolve a inclusão do público em sua discussão dos problemas.
George Mitchell, o enviado especial de Obama para o Oriente Médio, está encarregado dos detalhes. O ex-senador de 75 anos serviu como presidente da Walt Disney Company e também chefiou um escritório internacional de advocacia. Ele obteve grande reconhecimento por seu papel nas negociações de paz na Irlanda do Norte.
Em um relatório que escreveu sobre o Oriente Médio em 2001, ele argumentou que a melhor forma de colocar um fim à violência seria conter os assentamentos judeus. Mitchell tem raízes libanesas e está familiarizado com essa parte do mundo. Com uma expressão melancólica em seu rosto e falando com sua voz forte, ele lembrou repetidas vezes aos seus pares israelenses na semana passada que tinham acertado um compromisso e agora é esperado que o cumpram. Ele tem a reputação de nunca erguer sua voz e nunca ceder.
Como nos tempos em que foi membro das forças de elite israelenses, Benjamin Netanyahu está novamente diante de um enorme obstáculo. Seu país e seu principal aliado estão esperando para ver como ele conseguirá contorná-lo.
Tradução: George El Khouri Andolfato