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18/06/2009

Por que Washington está jogando de forma segura na questão Irã

Der Spiegel
Gregor Peter Schmitz
Em Washington
Barack Obama está adotando uma abordagem cautelosa para as disputadas eleições iranianas e até disse que há pouca diferença entre os candidatos. O presidente dos EUA sabe que os aiatolás detêm o verdadeiro poder em Teerã -e não quer ameaçar negociações com o Irã sobre seu programa nuclear.

John McCain não precisa demonstrar reserva presidencial. O candidato republicano derrotado para a Casa Branca pode reclamar e se virar agora como fez durante a campanha. Falando ao programa "Today" da rede NBC na terça-feira (16/6), McCain disse que o presidente Barack Obama "deve denunciar esse fingimento de eleição corrupto e dizer que o povo iraniano foi privado de seus direitos."

A Casa Branca, contudo, está sendo mais cautelosa. Três dias depois da reeleição disputada do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o governo americano está preferindo uma retórica suave no lugar de declarações políticas duras.

O presidente Obama expressou suas preocupações sobre os protestos em Teerã na terça-feira à noite e disse que ficava profundamente preocupado toda vez que via a "violência perpetrada contra as pessoas que estão dissentindo pacificamente". Ele exortou os líderes iranianos a respeitarem a liberdade de expressão e a democracia, acrescentando que "não é assim que governos devem interagir com seu povo". Entretanto, ele mudou rapidamente de tom.

Ele disse que o anúncio do Líder Supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, que os resultados das eleições seriam reexaminados indicou que o líder religioso compreende que o povo iraniano tem profundas preocupações com as eleições. Além disso, Obama argumentou que "a diferença entre Ahmadinejad e Mousavi, em termos de suas políticas atuais, pode não ser tão grande quanto foi alardeado". De qualquer forma, os EUA estão lidando com um regime "que historicamente foi hostil aos EUA".

Obama observou também que a história demonstra que não é produtivo quando Washington passa a impressão de estar se "metendo". É um comentário revelador que reflete os processos complicados de pensamento da Casa Branca.

Obama não quer dar a impressão que seu governo está interferindo nas eleições e lutas de poder de um país estrangeiro. Particularmente o Irã, onde as memórias do envolvimento dos EUA na derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadeq em 1953 e na volta subsequente do xá estão frescas nas mentes das pessoas.

Os EUA evitaram fazer comentários durante a campanha das eleições iranianas. Verdade que o vice-presidente Joe Biden expressou dúvidas cautelosas sobre os resultados das eleições. "Não temos todos os detalhes", disse Biden. "Certamente parece que estão suprimindo a expressão, da mesma forma que estão suprimindo as multidões. Pela forma que as pessoas estão sendo tratadas, há dúvidas de fato sobre isso." Entretanto, ele não falou abertamente sobre fraude nas eleições.

O governo Obama sabe que, se Ahmadinejad continuar no cargo, será com ele que terá que trabalhar em busca de negociações para o programa nuclear iraniano. Acusá-lo de envolvimento em uma conspiração de fraude eleitoral somente tornaria este diálogo muito mais difícil e poderia também servir de propaganda contra os EUA no Irã.

Washington também sabe que é o aiatolá Ali Khamenei que detém maior influência no Irã. Os assessores de Obama "compreendem que é o Líder Supremo e as pessoas a sua volta que formulam qualquer movimento em termos das relações entre os EUA e o Irã... independentemente de quem foi eleito presidente iraniano", disse à "Associated Press" Anthony Cordesman, analista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacional em Washington.

Em outras palavras: no conflito com o Irã, a questão de quem é presidente não é decisiva. Além disso, o governo americano ainda não está seguro sobre o que fazer com as acusações de fraude eleitoral. De acordo com o colunista do "Washington Post" David Ignatius, avaliações iniciais de inteligência sugerem que Ahmadinejad e o aiatolá enganaram nas eleições - mas o presidente de fato pode ter vencido em número de votos.

Flynt Leverett do centro de estudos New America Foundation, considerado um dos principais especialistas em Washington, disse ao "Spiegel Online" imediatamente após as eleições que o apoio ao principal opositor de Ahmadinejad, Mir Hossein Mousavi, foi "exagerado" no Ocidente. Mesmo que houvesse grandes irregularidades nas eleições, não reconhecer a vitória de Ahmadinejad poderia levar o conflito com o Irã a escalar de forma perigosa, ao ponto do confronto militar, segundo ele.

Em Washington, as implicações da atual escalação em Teerã em relação a Obama e seu discurso no Cairo ao mundo islâmico agora estão sendo discutidas. O aparente triunfo de Ahmadinejad, a princípio, pareceu ser um contragolpe para o presidente americano. Críticos que vêem o esforço de Obama para conversar com o Irã como politicamente ingênuo sentiram-se vingados. Leverett, por exemplo, chamou essa diplomacia pública de "perda de tempo". "O que vai importar é a substância da política", disse ele. "Se você não colocar ofertas substanciais na mesa, todos os bons discursos do presidente não vão mudar nada."

Contudo, as imagens das manifestações em Teerã também podem fornecer apoio à abordagem da Casa Branca, sugerindo que o presidente, com sua oferta de diálogo, atingiu as pessoas comuns - inclusive os ativos blogueiros de Teerã, estimados em 100.000. Eles parecem sentir que o apoio do regime a Ahamdinejad pode atingir seus limites se os protestos continuarem por muito tempo. "As eleições tempestuosas iranianas são mais um sinal de como o mundo foi agitado na era de Barack Obama", escreve Ignatius no "Washington Post".

A oposição no Irã está se organizando online, comunicando-se via Facebook e Twitter. Neste respeito, o governo americano interveio até certo ponto. O Departamento de Estado dos EUA confirmou oficialmente na terça-feira ter pedido ao Twitter no final de semana para adiar um trabalho de manutenção que teria interrompido o acesso diurno no Irã aos serviços. "Ressaltamos a eles que era uma forma importante de comunicação", disse um membro do Departamento de Estado aos repórteres. A empresa de micro-blog concordou com o pedido e adiou a manutenção até depois de meia-noite no Irã.

Na questão iraniana, o próprio Obama teve uma experiência de como a cultura política foi trasnformada pela mídia. O "Washington Post" comentou satisfeito sobre o "silêncio online" de um governo tão interativo. Por um longo tempo, não houve nada no blog da Casa Branca sobre a situação no Irã. Em vez disso, entre outras coisas, havia um texto sobre concertos de jazz organizados pela primeira-dama Michelle Obama.

O blog não permite comentários, mas os cidadãos rapidamente protestaram na página da Casa Branca no Facebook. Um usuário que se identificou como "Andy" comentou: "Há uma verdadeira revolução democrática ocorrendo neste momento no Irã... e vocês falam de jazz? Demonstrem capacidade de liderança. Estou chocado com seu silêncio. Essa não é a 'mudança' pela qual votei!"

Tradução: Deborah Weinberg

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