Quase todas as noites automóveis estão sendo incendiados em meio a um aumento drástico de crimes perpetrados por extremistas de esquerda na capital alemã. A fúria deverá atingir o seu auge com um protesto maciço no Aeroporto Tempelhof neste sábado (20/06) - o que tornará esta uma questão incandescente para os políticos.
Tudo o que é necessário é um pouco de parafina ou fluido de isqueiro - e um fósforo. Basta colocar o material sob um pneu e, após alguns minutos, surge uma fumaça negra. Em breve o carro inteiro está em chamas - e a essa altura os culpados terão desparecido na noite, deixando as autoridades impotentes. Nos últimos meses, esse tipo de quadro vem sendo presenciado em Berlim quase todas as noites.
A capital alemã possui uma vasta tradição de violência esquerdista. Pedradas, coquetéis Molotov e gás lacrimogêneo tornaram-se uma tradição anual no 1º de maio, o Dia do Trabalho na Alemanha. Em ocasiões anteriores, manifestações de esquerda também saíram de controle.
Mas, nas últimas semanas, a tendência de violar a lei com material combustível - de forma pseudo-política ou não - atingiu novos recordes. Todas as manhãs há notícias de novos ataques contra carros de luxo ou outros veículos, em ações que há muito são uma forma de expressão política entre os militantes de esquerda em Berlim.
Na última quarta-feira, indivíduos armados de material incendiário atacaram dez veículos pertencentes a uma firma que fornece refeições a casas de idosos e creches. A companhia foi atacada por pertencer à "Globalplayer Sodexo... que obtém lucros internacionalmente com o fornecimento de equipamento de vigilância a prisões", anunciou o diário "Berliner Morgenpost", citando uma mensagem publicada em um blog após o ataque. Um dia depois, um Volkswagen e um BMW foram queimados em frente à casa do político democrata-cristão Robbin Juhnke. Mas tarde a autoria foi assumida por um website de militantes de esquerda que chamou Juhnke de "elemento de linha dura do Partido Democrata-Cristão" que "persegue esquerdistas e imigrantes".
Outros alvos de quatro rodas pertenciam à companhia de correspondência expressa DHL, que é odiada pelos militantes esquerdistas por dar apoio logístico às forças armada alemãs no Afeganistão.
Segundo a polícia, ao todo 165 carros foram incendiados em Berlim desde o início do ano, o que supera em muito o total do ano passado. E o número de ataques incendiários atingiu um recorde desde o início de junho. Existe a suspeita de que militantes de esquerda estejam por trás do rastro noturno aleatório de destruição, que inclui carros queimados, pedradas e ataques com bombas de tinta a bancos e centros de emprego. Há muitas investigações policiais em andamento, mas elas raramente resultam na detenção de suspeitos - principalmente porque raramente aparecem testemunhas. A maioria dos crimes é registrada no bairro de Friedrichshain-Kreuzberg, que há muito é um reduto da contra-cultura da cidade. Mas agora os ataques contra carros estão se espalhando por Berlim, atingindo distritos que antes não eram afetados pelo problema.
Invasão maciçaA última onda de ataques coincide com as chamadas "semanas de ação", organizadas pela esquerda radical. Motivados pela indignação com a "invasão intensa dos bairros por classes afluentes" e o desaparecimento de espaços abertos, os ativistas estão promovendo uma quinzena de manifestações radicais, que teve início em 6 de junho. A série de eventos deverá culminar neste sábado com a invasão maciça das atualmente não utilizadas pistas do aeroporto central de Tempelhof, uma área ampla equivalente a 525 campos de futebol. Enfurecidos com os projetos oficiais no sentido de usar parte da área para a construção de apartamentos de luxo, os organizadores da manifestação pretendem invadir o local, cruzando as cercas enormes que delimitam o local.
Em um blog, a campanha Invasão de Tempelhof informa desejar que a comunidade seja ouvida a respeito do uso da grande área. Os organizadores esperam o comparecimento de diversos manifestantes de todos os estilos de vida, incluindo moradores locais, famílias, punks, ativistas internacionais e donos de cães. Até mil policiais serão enviados ao local.
Em meio a todo esse rancor, o prefeito esquerdista de Berlim, Klaus Wowereit, vê-se em uma situação delicada. Políticos de oposição o acusam - e também outros políticos de esquerda e do Partido Verde - de uma inação que beira a aceitação tácita dos atos dos indivíduos que desrespeitam a lei. O secretário geral do Partido Democrata-Cristão (CDU) em Berlim, Frank Henkel, fala de um "estado de capitulação diante do terror vermelho". Em uma entrevista a "Spiegel Online", ele disse: "A esquerda radical está testando os limites enquanto o Senado observa passivamente". O Senado de Berlim é o órgão legislativo desta cidade-Estado - essencialmente uma câmara municipal.
De forma similar, Christoph Meyer, o diretor em Berlim do Partido dos Democratas Livres, uma legenda simpática aos empresários, declarou a "Spiegel Online": "Uma parte do Senado transmite aos extremistas de esquerda a sensação de que eles podem fazer tudo o que desejarem".
Mas embora a pressão para conter a violência esteja aumentando, a polícia enfrenta grandes obstáculos. "O fato de os incêndios poderem ser iniciados em uma questão de segundos significa que é muito difícil pegar os perpetradores", disse o ministro do Interior de Berlim, Ehrhart Körting ao diário berlinense "Tagesspiegel". Enquanto isso, a polícia reclama, dizendo que os cortes de despesas desde 2002 deixaram a instituição extremamente carente de pessoal. "Nós mal somos capazes de dar conta das operações usuais de vigília e controle - os criminosos correm um risco muito pequeno de serem presos", disse Klaus Eisenreich, o diretor do sindicato policial de Berlim, em uma entrevista a "Spiegel Online".
Choque no horizonteÀs vésperas do protesto planejado para Tempelhof, as fagulhas políticas estão voando. Políticos conservadores e liberais reclamam de que alguns políticos não se distanciaram suficientemente dos militantes de esquerda. Franziska Eichstädt-Bohlig, a diretora do Partido Verde em Berlim, é uma das figuras que são objetos de polêmicas. Ela disse ao jornal "Die Tageszeitung" que a entrada no aeroporto desativado não se constitui em uma violação da lei, mas em em um ato de expressão política.
Enquanto isso, o Partido da Esquerda em Berlim também tem sido criticado devido à sua proximidade dos manifestantes. Embora oficialmente o partido distancie-se dos protestos planejados, Evrim Baba, uma política da legenda divulgou uma mensagem positiva sobre aquilo que chamou de um "protesto legítimo". "Eu apoio o movimento contra os apartamentos de luxo e a eliminação das habitações sociais na área do Aeroporto Tempelhof", afirmou Baba.
Enquanto o fogo cruzado político persiste, os incêndios de carros continuam. Na ausência de um conselho mais útil, a polícia apresentou uma solução simples para os donos de carros caros: estacione-os nos locais mais seguros da cidade.
Tradução: UOL