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22/06/2009

"As verdadeiras eleições europeias acontecerão na Alemanha", diz historiador (entrevista com Garton Ash, parte 2)

Der Spiegel
Em entrevista a Der Spiegel, o historiador de Oxford Timothy Garton Ash discute o fim dos social-democratas da Europa, as ameças à União Europeia representadas pelos nacionalistas populistas, a mudança iminente de governo no Reino Unido e a súbita inclinação dos EUA para a esquerda. A seguir, a segunda parte da conversa:

Spiegel: A eleição foi uma eleição europeia, e mesmo assim a Europa não foi o tema de fato. Em vez disso, a eleição girou em torno das políticas nacionais. Isso demonstra que a Europa não está unida, e sim dividida?
Garton Ash:
Gosto de dizer que as verdadeiras eleições europeias acontecerão na Alemanha no final de setembro. A eleição parlamentar alemã é com certeza mais importante para o futuro da União Europeia.

Spiegel: Por quê?
Garton Ash:
Porque está em questão o comportamento do membro mais importante da União Europeia, o que é óbvio. As competências do Parlamento Europeu com certeza cresceram, e acredito que os eleitores subestimem sua influência. Entretanto, a União Europeia não é uma democracia direta, nem se tornará uma tão já. Acredito que os eleitores percebem isso, e sob esse aspecto seu comportamento é totalmente racional.

Spiegel: As competências do Parlamento Europeu foram expandidas, em parte na esperança de que isso aumentaria o comparecimento às urnas, mas mesmo assim ele foi menor do que nunca este ano.
Garton Ash:
Acredito que o comparecimento dos eleitores não deve melhorar num futuro próximo, pelo menos não até que estejamos preparados para dar um grande passo em direção aos Estados Unidos da Europa e à democracia direta. Em quase nenhum lugar da Europa estamos preparados para isso. O parlamento continuará a ser uma parte do sistema europeu, mas os elementos decisivos continuarão sendo o Conselho Europeu, o conselho de ministros e a cooperação entre os governos democraticamente eleitos.

Spiegel: A falta de interesse dos eleitores não mostra que a Europa política se desconectou de seus cidadãos?
Garton Ash:
Acredito que o projeto europeu é vítima de seu próprio sucesso. Em cada país, o argumento pró-europeu, diferenças nacionais à parte, assumiu a mesma forma: estamos indo mal, mas graças à Europa, nosso quinhão vai melhorar. Mas daí chega o momento em que damos a Europa por certa, o que gera a pergunta: qual é o propósito dessa Europa?

Spiegel: E qual é?
Garton Ash:
Precisamos, por exemplo, de uma política estrangeira comum para toda a Europa, para que possamos defender nossos interesses num mundo cada vez mais não europeu.

Spiegel: As palavras de Henry Kissinger continuam válidas?
Garton Ash:
... de que ele estava procurando o número de telefone da Europa? A propósito, acho que ele nunca disse isso. Fizemos muita pesquisa na universidade e não conseguimos encontrar uma fonte para a citação. No fim, eu mesmo escrevi para Henry Kissinger, e perguntei:
onde foi que você disse isso? A resposta dele foi maravilhosa. Ele
escreveu: acho que devo ter dito. Só não lembro quando nem onde. É claro, há uma semente de verdade no comentário. Do ponto de vista de Washington, ou de Beijing ou Moscou, a Europa não existe como um ator na política internacional. E precisamos começar a existir.

Spiegel: Você de fato acredita que a Alemanha ou a França desistirão de suas próprias políticas internacionais? Os interesses nacionais não valem sempre mais do que os interesses europeus?
Garton Ash:
Por que sempre? Por que algo que foi verdade no passado deve continuar sendo verdade no futuro? O marco alemão foi o ícone da identidade alemã, e mesmo assim os alemães abriram mão dele. A história da União Europeia durante os últimos 50 anos é uma história de coisas impossíveis que aconteceram, afinal.

Spiegel: E como chegamos a uma política internacional comum?
Garton Ash:
Não precisamos criar os Estados Unidos da Europa para isso. O que precisamos, acima de tudo, é da vontade política de uma coalizão estratégica de Estados-membros. Ela deve incluir a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha, e outros também. Quando isso acontecer, será possível buscar uma política internacional comum.

Spiegel: Mas há uma grande diferença entre abrir mão de uma moeda e abrir mão da própria política internacional do país. Economicamente falando, a União é aceita como uma história de sucesso, mas politicamente a Europa é criticada. Na Grã-Bretanha e no leste europeu, os céticos em relação à União Europeia estão pedindo a volta a uma união puramente econômica.
Garton Ash:
Já temos uma política internacional comum na UE hoje - em relação ao programa nuclear de Teerã, por exemplo. E isso também é aceito pelo público. Agora é hora de explicar porque faz sentido estabelecer uma política comum para a Rússia, ou para a China, e porque somos mais fortes juntos do que separados.

Spiegel: Não é um voto de não-confiança em relação à Europa quando os eleitores elegem alguém como a Paris Hilton romena, Elena Basescu, filha do presidente do país, para o parlamento, assim como o Partido Pirata da Suécia, e piadistas e personagens estranhos como o populista austríaco Hans-Peter Martin?
Garton Ash:
Isso é uma indicação de duas coisas. Primeiro, os eleitores estão dizendo a si mesmos que o Parlamento Europeu não é tão importante, então podemos nos dar ao luxo de eleger um bando de piratas. Segundo - e isso é algo que vemos em todo lugar na Europa - há uma insatisfação crescente e profunda com a classe política, ao ponto de chegar a um clima pré-revolucionário. O escândalo que estamos vivendo em relação aos gastos dos políticos britânicos é apenas um exemplo entre muitos.

Spiegel: Qual é a fonte dessa profunda insatisfação?
Garton Ash:
Ouço a mesma coisa de uma ampla variedade de pessoas em toda a Europa: o parlamento é uma loja self-service, e a classe política está lá simplesmente para ir atrás de seus próprios interesses.

Spiegel: Mas essa visão é corroborada pelo escândalo em torno dos membros do parlamento britânico que usaram fundos do governo para comprar TVs de plasma e filmes pornô.
Garton Ash:
Na verdade é mais complicado do que isso. A razão desse escândalo é que os políticos, há mais ou menos 30 anos, não tiveram a coragem de aprovar um pagamento melhor para os membros do parlamento.
Foi por isso que eles criaram esse sistema absurdo de verbas, que na verdade são compensações. Como resultado, todos os membros do parlamento se tornaram cavaleiros das despesas. E alguns deles eram até mesmo cavaleiros de verdade, certo?

Spiegel: No momento, parece que David Cameron será o próximo primeiro-ministro britânico.
Garton Ash:
De fato.

Spiegel: Cameron está ameaçando fazer um referendo em relação ao Tratado de Lisboa. Isso seria uma declaração de guerra em relação à Europa. Você acha que ele fará isso?
Garton Ash:
Se injetássemos um soro da verdade em David Cameron, ele provavelmente teria de confessar sua esperança secreta de que o tratado já estará ratificado até lá. Então o referendo não seria mais necessário. Acredito que, no fundo de seu coração, ele não é um eurocético no que diz respeito à Europa. A maioria de seus parlamentares e seu porta-voz de política internacional, William Hague, são eurocéticos por convicção. Ele tem que usar essa retórica principalmente porque o Ukip foi muito bem nas eleições europeias. E é por isso que é importante para a União Europeia que o fim do governo de Gordon Brown seja prolongado o máximo possível.

Spiegel: Cameron está tentando agora forjar uma aliança com os oponentes poloneses e tchecos da Europa no Parlamento Europeu.
Garton Ash:
Farsa gera farsa. Infelizmente, ele declarou descuidadamente uma posição sobre a questão do Parlamento Europeu em 2005, quando estava lutando pela liderança dos Conservadores. Fora isso, entrentanto, ele aprendeu uma lição importante com Blair. Nunca se comprometa com anda. Mas é por isso que agora ele precisa ser fiel a si mesmo, e portanto está comprometendo os Conservadores britânicos.
De repente, eles se descobrem na cama com seus amigos SS Waffen da Latvia, homofóbicos poloneses e tchecos que negam a mudança climática.

Spiegel: Gordon Brown é verdadeiramente, conforme dizem, o pior primeiro-ministro britânico desde Neville Chamberlain?
Garton Ash:
De jeito nenhum. Ele não é um primeiro-ministro ruim, no que diz respeito ao conteúdo de suas políticas. Não sei se o inexperiente David Cameron teria lidado com essa grande crise de forma mais eficiente. Mas enquanto personalidade, Brown é sem dúvida um dos políticos mais fracos. Ele parece ridículo quando tenta, com jeito de avô, no YouTube, vender uma solução para o problema das despesas. Ele está preso pelo máquina da política.

Spiegel: Falta-lhe carisma?
Garton Ash:
Totalmente. Ele não conseguiu nem mesmo se apresentar simplesmente como um personagem direto e moral, coisa que Angela Merkel dominou. Ele poderia ter sido o Sr. Merkel escocês. Mas ele é muito blairista para isso. Ele quer manipular a opinião pública, e talvez a pior coisa seja tentar e não atingir esse objetivo.

Spiegel: Quem é responsável pela morte do novo trabalhismo? Tony Blair ou Gordon Brown?
Garton Ash:
Se essa for a morte, então ele certamente teve uma boa vida. Na verdade, teve bastante sucesso: três mandatos legislativos consecutivos, coisa que o trabalhismo não conseguia em cem anos. Fora isso, o governo trabalhista está deixando para trás um legado substancial - incluindo os Conservadores, que adotaram a abordagem do novo trabalhismo.

Spiegel: O partido trabalhista não pode ter sucesso novamente, por fim, quem sabe com Alan Johnson como novo líder partidário?
Garton Ash:
Como historiador, eu sei que tudo é possível na história, exceto enganar a morte. Mas eu apostaria uma garrafa de champanhe que até mesmo o melhor líder trabalhista do mundo não seria capaz de ganhar a próxima eleição.

Spiegel: Que tipo de garrafa?
Garton Ash:
De um litro e meio, eu diria.

Tradução: Eloise De Vylder

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