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30/06/2009

O poder da mão de ferro do Irã

Der Spiegel
Dieter Bednarz
Teerã está em estado de emergência enquanto o governo prossegue em sua repressão brutal contra os manifestantes. Linhas-duras e políticos de oposição estão em busca de um acordo nos bastidores, mas o líder supremo do Irã se recusa a fazer qualquer concessão.

A pressão deve realmente ser grande para alguém como Abbas Abdi não querer mais conversar. Seja como revolucionário ou como reformista, Abdi, 51 anos, nunca careceu de coragem e disposição para assumir riscos. Durante a ocupação da embaixada americana em Teerã, em 1979, ele foi um dos primeiros a escalar os muros da embaixada. Com seus brados de "luta contra a arrogância global", ele se tornou o mais famoso dentre aqueles que mantiveram mais de 50 cidadãos americanos cativos por 444 dias.

Mas Abdi também esteve na linha de frente das críticas à teocracia iraniana. Poucos anos após a revolução, ele atacou fortemente os mulás, os acusando de corrupção e nepotismo. Ele conhece bem o interior da notória prisão de Evin, em Teerã, como resultado. Mas Abdi continua lutando pela liberalização e democracia.

Mas até mesmo Abdi ficou sem fala diante da brutalidade que o regime está atualmente empregando contra os críticos da suposta vitória eleitoral do presidente Mahmoud Ahmadinejad. O político veterano rejeita as chamadas ao seu celular quando vê um número estrangeiro em sua tela. Ele também recusa de forma educada mas firme as ligações ao seu telefone fixo, mesmo quando conhece a pessoa que está ligando. Falando em tons sussurrados, como se isso pudesse impedir a polícia secreta iraniana de ouvir suas palavras, ele recorda à pessoa do outro lado da ligação as consequências para os iranianos de ter contato com estrangeiros, especialmente jornalistas.

Nas orações de sexta-feira da semana passada, o aiatolá Ali Khamenei, o líder revolucionário e líder supremo do país, caracterizou a imprensa internacional como "inimiga" do Irã, alegando que ela "retratou muitas coisas incorretamente". De lá para cá, falar com representantes da imprensa estrangeira se tornou perigoso para os iranianos.

A proibição também se aplica à "Spiegel", que realizou uma entrevista de duas horas com o presidente Ahmadinejad há poucas semanas, e com seu principal adversário eleitoral, Mir Hossein Mousavi, poucos dias depois. Após a matéria de capa da "Spiegel" na semana passada, intitulada "Rebelião Contra os Radicais", o "Kayhan", o principal jornal pró-governo, chamou a revista alemã de "jornal sionista".

Dada a atmosfera carregada, críticos do regime como Abdi poderiam muito bem ser acusados de traição apenas por darem uma entrevista - e a pena por traição no Irã é a morte. A perseguição violenta em Teerã espalhou o medo, especialmente agora que o temido promotor público chefe de Teerã assumiu o controle de todas as investigações dos "agitadores" e montou um "tribunal especial" para lidar com esses casos.

Mão de ferro

Será que a chamada "Revolução Verde" morrerá nas mãos da Justiça islâmica, que, nos últimos 30 anos, esmagou todas as tentativas de desvio das regras impostas pelos estudiosos religiosos que controlam o país? Após os protestos em massa contra as irregularidades na eleição, o país foi atingido por uma onda de prisões e repressão não vista no Irã desde os primórdios sangrentos da república. Até mesmo o reservado presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que deseja resolver o conflito nuclear com o regime, disse estar "chocado e ultrajado" com os eventos no Irã e condenou fortemente as "ameaças, agressões e prisões" como evidência da "mão de ferro" do governo.

Os protestos de rua não são mais apenas o resultado daquela que pode ser a maior fraude eleitoral da história da República Islâmica. Os cantos dos manifestantes de "onde está meu voto?" se transformaram em pedidos de "morte ao ditador". E a retórica deles não é voltada apenas ao vencedor oficial da eleição contestada, Ahmadinejad. Em vez disso, as críticas públicas são cada vez mais direcionadas ao homem por trás do presidente, o aiatolá Ali Khamenei, que antes era considerado acima de toda reprovação. Declarar prematuramente a vitória de protegido Ahmadinejad provou ser o maior erro de Khamenei nos 20 anos em que está no poder.

O influente grão-aiatolá Yousef Sanei considera o envolvimento de Khamenei na fraude eleitoral -independente de ter conhecimento prévio ou apenas ter dado sua bênção à fraude após o fato- como "haram", ou pecado. A posição do líder revolucionário exige que ele permaneça neutro. Mohsen Kadivar, um imã e filósofo religioso, fala em nome de muitos acadêmicos quando diz, se referindo a Khamenei: "Ele me lembra muito o xá, que, no final, estava apenas preocupado em preservar seu regime".

Chutados, espancados e baleados

Em resposta às ordens expressas de Khamenei, as milícias Basij, que respondem diretamente a ele, e a temida Guarda Revolucionária, os pasdaran, deram início a uma onda de agressões e mortes. Segundo números oficiais, até o final da semana passada, 18 pessoas morreram em choques entre os manifestantes em grande parte pacíficos e os capangas do governo, vítimas que foram chutadas, espancadas ou mortas a tiros - como a jovem estudante Neda, cuja morte a transformou em mártir do movimento de oposição e objeto de pesar nacional.

O número real de mortos provavelmente é muito maior, apesar do regime dos mulás ter evitado até o momento uma resposta da magnitude do massacre da Praça Tiananmen, em Pequim em 1989, que resultou provavelmente em milhares de manifestantes mortos. Segundo a oposição, os confrontos resultaram em mais de 100 mortos em todo o país. O tipo de reportagem independente capaz de verificar esses números é impossível há dias. Os números citados em e-mails, em páginas de Internet e em sites de rede social como Twitter e YouTube se baseiam nos relatos dos manifestantes.

Todavia, os relatos das testemunhas sugerem que o número de mortos é alto. Na metade da semana, um estudante de medicina descreveu as condições nos hospitais como "caóticas". Apesar das ordens oficiais para que todas as vítimas da violência ligada às manifestações fossem enviadas aos hospitais militares, notou o estudante, os hospitais da cidade estão "lotados". Muitos dos que deram entrada aparentemente sofreram traumas severos. Na noite anterior, disse o estudante, nove pacientes no hospital onde ele trabalha morreram devidos aos ferimentos; cerca de 28 pacientes tinham ferimentos de bala. Segundo o estudante, funcionários do governo chegavam nas primeiras horas da manhã e removiam os mortos "em caminhões, antes que pudéssemos até mesmo obter seus nomes ou qualquer outra informação".

Travando guerra contra Deus

O destino da maioria dos presos ainda continua incerto. Em Isfahan, Shiraz e Mashhad, cidades que também viram protestos em grande escala, as forças de segurança informaram a detenção de cerca de 500 manifestantes. E em Teerã, o centro da inquietação, um campo especial no sul da cidade aparentemente está cheio. O quartel próximo do enorme cemitério de Behesht-e Zahra da cidade, antes usado para abrigar viciados em drogas, agora contém cerca de 1.000 manifestantes.

Diferente das manifestações estudantis em 1999, desta vez não são apenas homens que estão encabeçando as manifestações. Cerca de um quarto dos presos são mulheres jovens. Mousavi, que fez muitas de suas aparições de campanha segurando a mão de sua esposa, trouxe mais mulheres iranianas às urnas do que antes - e as encorajou a se juntarem aos protestos.

O regime nem mesmo hesitou em efetuar prisões nas sedes de campanha dos principais adversários eleitorais. Por todo o país, cerca de 250 funcionários e cabos eleitorais, incluindo conselheiros-chave de Mousavi e do candidato Mehdi Karroubi, foram presos e enviados para a prisão de Evin. Como nos tempos do xá, parentes podiam ser vistos novamente diante da mais notória prisão do país enquanto liam as listas afixadas em busca dos nomes de seus entes queridos. Muitos observadores acreditam que é apenas questão de tempo até os nomes Mousavi e Karroubi aparecerem nas listas.

A brutalidade do regime está tendo um efeito, levando os reformistas a pararem de pedir os protestos. Os próprios protestos se transformaram em iniciativas dispersas realizadas por alguns poucos milhares de manifestantes obstinados, enfrentando forças do governo vastamente superiores. Testemunhas dizem que a cidade parece um "campo militar".

Percebendo que não podem vencer a disputa pelo poder nas ruas, os desafiantes Mousavi e Karroubi deslocaram seus esforços para o establishment religioso. Nesse campo, a posição de Khamenei nunca foi forte, porque ele carece de competência religiosa. Ele recebeu o título de aiatolá ("sinal de Deus"), que é importante para ser nomeado líder revolucionário, mais ou menos da noite para o dia, quando foi designado o herdeiro político do aiatolá Khomeini, o homem que derrubou o xá.

Mousavi e Karroubi são apoiados por um dos mais poderosos e hábeis homens nos bastidores da teocracia dos mulás, o ex-presidente Hashemi Rafsanjani. Supostamente o homem mais rico no Irã, Rafsanjani há muito é rival de Khamenei. Ele está ciente de que reformas são urgentemente necessárias para salvar o sistema e, se possível, sua própria posição privilegiada. Além disso, o ex-presidente ainda sente as dores da derrota esmagadora para Ahmadinejad na última campanha presidencial, há quatro anos. Já naquela eleição, Rafsanjani alegou que ocorreram "irregularidades" na apuração dos votos.

Uma recontagem parcial da eleição teve início em Teerã e nas províncias do país na segunda-feira, segundo a imprensa estatal. O poderoso Conselho Guardião ofereceu uma recontagem aleatória de 10% dos votos -uma proposta rejeitada por Mousavi, que insiste que toda a eleição deve ser anulada. Observadores esperam que o Conselho Guardião dê seu veredicto final sobre a eleição em breve, possivelmente na segunda-feira.

Muito agora dependerá de que lado da questão ficarão os doze grão-aiatolás em Qom. Como indicação do poder deles, tanto Rafsanjani quanto Mousavi viajaram para a cidade sagrada a 150 quilômetros a sudoeste de Teerã para consultar os líderes religiosos. Os reformistas esperam que o sitiado Khamenei acabe concordando com a realização de novas eleições. Como concessão, Mousavi e Karroubi estão dispostos a abandonar suas candidaturas, desde que Ahmadinejad faça o mesmo. Caso contrário, diz Mousavi, eles prosseguirão seus protestos "dentro da estrutura de nossas opções legais".

Para lamentar a morte da manifestante Neda, os críticos do regime soltaram balões verdes e pretos, as cores de seu movimento e de luto, nos céus de Teerã.

O aiatolá Ahmad Khatami, um dos mais radicais dos linhas-duras, conduziu as orações da última sexta-feira na Universidade de Teerã, local do anúncio de Khamenei da posição dura do governo contra os protestos, na semana passada. Em seus comentários, Khatami pediu aos tribunais para "punirem rigorosamente os líderes dos insurgentes, sem qualquer piedade". Ele os chamou de "mohareban", pessoas que travam "guerra contra Deus".

A pena para essa ofensa é a morte.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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