No ano passado, a Eslováquia produziu mais carros per capita do que qualquer outro país do mundo. Agora, o país da Europa Central está lutando para reanimar seu projeto de desenvolvimento nacional.
É comum ver caminhões transportando compactos Kia brilhantes ou minivans da Citroen na auto-estrada D1 da Eslováquia nos últimos anos. Atualmente, porém, é possível ver menos cegonhas na estrada que acompanha o rio Vah, ultrapassando ruínas de castelos nos morros e paradas de caminhões empobrecidas. Com as vendas de automóveis mergulhando no mundo todo, o coração da "Detroit do Leste" - um corredor de fabricantes que se estende da Polônia até a Eslováquia e a República Tcheca - está sofrendo dificuldades como a cidade original.
A Kia Motors, da Coreia, produz carros em Zilina, ao sopé das montanhas cobertas de pinheiros Tatra. A fábrica reduziu os turnos de oitos horas para seis ao diminuir sua produção em 15%. A Volkswagen produz SUVs para os EUA e a Europa em uma grande fábrica no subúrbio de Bratislava, capital, mas temporariamente fechou as linhas de produção nesta primavera. A PSA Peugeot Citroen, da França, demitiu 6% dos 3.500 funcionários de sua fábrica de sedans compactos e minivans em Trnava, a 50 km a leste de Bratislava.
Tais cortes podem parecer suaves se comparados com os problemas em Michigan, mas são muita coisa para esta nação de 5,4 milhões de habitantes. Cerca de 80.000 eslovacos trabalham para as fábricas de automóveis e seus fornecedores, tais como Visteon, Delphi e US Steel. No ano passado, a Eslováquia produziu 591.000 carros- o mais alto número per capta do mundo. A produção deste ano, contudo, deve cair abaixo dos 500.000 e não vai crescer novamente até 2011, segundo pesquisa da IHS Global Insight. "Realmente estamos sentindo o impacto da crise", diz Peter Ziga, secretário do Ministério da Economia da Eslováquia. O desemprego subiu de 8,7% para 10,5% ao final de 2008, enquanto a economia contraiu a um índice anual de 5,4% no primeiro trimestre.
O investimento estrangeiro agora chega em gotas. A adoção do euro pela Eslováquia, que eliminou o risco de moeda para muitas empresas, tornou os trabalhadores eslovacos mais caros do que os húngaros ou tchecos, sem mencionar os da România e Ucrânia, países cujas moedas são muito mais fracas que o euro. Em 2007, a Agência de Desenvolvimento e Comércio e Investimento Eslovaco atraiu 64 projetos estrangeiros no valor de US$ 1,8 bilhão (cerca de R$ 3,6 bilhões), na maior parte relacionados a automóveis. Neste ano, apenas dois projetos foram completados. "Todo mundo está em stand-by", diz Barbora Mikloskova, diretor de desenvolvimento da agência.
Promover pesquisa e desenvolvimentoEnquanto os fabricantes ajustam-se a um mercado encolhido, os eslovacos estão compreendendo que é hora de atualizar o projeto de desenvolvimento empresarial nacional. "A Eslováquia precisa mudar de marcha", diz François Lecavalier, diretor regional em Bratislava do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento. A manufatura barata só empurra uma economia emergente até certo ponto. Para alcançar prosperidade e crescimento de longo prazo, os países em desenvolvimento têm que criar seus próprios produtos inovadores e fomentar empresas domésticas que possam competir internacionalmente.
O governo está fazendo o que pode para reduzir a dependência da Eslováquia da produção de automóveis. As fábricas construídas pela Sony e Samsung nos últimos anos foram um passo na direção certa, apesar de ambas se concentrarem na manufatura. Uma nova lei vai oferecer mais incentivos financeiros -tais como cobrir metade do custo do terreno em áreas deprimidas- para empresas que montarem instalações de pesquisa e desenvolvimento (P&D). A crise também acrescentou urgência aos esforços para ajudar o Leste e o Sul, onde a prosperidade movida pelos automóveis nunca teve muito impacto. Em julho, será iniciada a construção de uma auto-estrada de quatro pistas para ligar Bratislava melhor com o Leste.
Essas medidas, contudo, talvez não sejam suficientes. O boom da Eslováquia começou com reformas econômicas lideradas pelo primeiro-ministro de centro-direita Mikulas Dzurinda. Contudo, três anos atrás, ele foi derrotado por eleitores que não tinham se beneficiado muito com a nova prosperidade e empossaram o esquerdista Robert Fico. O novo governo não mexeu muito nas reformas, mas tampouco agiu com a rapidez que gostariam as empresas para melhorar a educação e a saúde. E enquanto a Eslováquia está tentando atrair mais empregos de pesquisa e desenvolvimento, que têm salários mais altos, particularmente em automóveis, essa estratégia coloca o país para competir com a China e outros países nos quais os custos são menores e a quantidade de trabalhadores bem formados é maior.
Duvida-se, contudo, que a Eslováquia conseguirá ter tanto sucesso em atrair P&D quanto foi em atrair as linhas de montagem. As empresas de automóveis gravitaram para a Eslováquia e outros lugares na Europa Central não apenas pela mão-de-obra barata, mas também porque a região está próxima tanto da Europa Ocidental quanto dos mercados em crescimento na Europa do Leste e Rússia. A geografia não importa tanto para P&D. Afinal, os fabricantes de automóveis de Detroit fazem grande parte de seu design na Califórnia, observa Mary Stokes, analista da consultoria RGE Monitor. "A Eslováquia é um local ideal para a produção de automóveis, mas terá vantagem comparativa quando subir pela cadeia de valor?", pergunta.
De fato, nenhum dos três fabricantes na Eslováquia tem significativo departamento de P&D ou design no país. Para mudar isso, a Eslováquia precisa melhorar suas universidades mal equipadas para que o país produza mais engenheiros. Apesar de ter algumas escolas técnicas bem conceituadas, a Eslováquia tem a pior posição na União Europeia em número de pessoas empregadas em P&D. "Definitivamente, há uma falta de educação de alto nível. Isso será um enorme obstáculo", diz Jean Mouro, chefe da Peugeot Citroen Eslováquia.
Soldadores robóticosA queda na indústria de automóveis foi um golpe para um dos mais bem sucedidos membros do antigo bloco soviético e modelo para países emergentes em toda parte. Em 2004, a Eslováquia introduziu um imposto único de 19% sobre a renda de pessoa física ou jurídica. Isso e a mão-de-obra de baixo custo levaram a um salto em investimentos estrangeiros, o que ajudou a promover o crescimento para mais de 10% em 2007. Graças à prudência nos gastos do governo, a Eslováquia ultrapassou seus vizinhos e entrou na zona comum do euro neste ano. A indústria de automóveis, responsável por 8% do PIB e 40% das exportações, teve um papel crucial no sucesso do país. "Escrevemos a história recente da indústria de automóveis na Eslováquia", diz Andreas Tostmann, diretor executivo da Volkswagen Eslováquia, que em 1991 assumiu uma fábrica estatal que hoje é responsável por 10% de todas as exportações do país.
As plantas modernas da Eslováquia não poderiam estar mais distantes das montadoras da era comunista que substituíram. A fábrica da Kia, que produz o modelo de SUV Sportage e um compacto chamado cee'd, parece um hospital de tão limpa. "Redukujeme Poruchy Na Nulu", implora um cartaz acima da linha de montagem -"Reduza os defeitos a zero". Do lado de fora, a grama recém aparada cerca canteiros de flores. Apesar de os trabalhadores do país ganharem em média US$ 16.800 (em torno de R$ 37.600) anualmente -ou menos da metade do salário médio da manufatura na Europa Ocidental- os planejadores da Kia sabiam que os salários iam aumentar. Então, desenharam a planta com muita automação, com soldadores robóticos e braços computadorizados que buscam partes das estantes de metal quando a linha de montagem necessita.
A fábrica da Kia vai cortar a produção de 200.000 em 2008 para 170.000 veículos neste ano, bem abaixo da capacidade de 300.000. A Kia, contudo, não se arrepende de investir em Zilina, diz In Kyu Bae, diretor da Kia Motors Eslováquia. A locação dá à empresa fácil acesso tanto à Europa Ocidental quanto à Rússia, que se tornou um mercado maior para a Kia do que a Alemanha. E os trabalhadores eslovacos são mais produtivos que os romenos ou ucranianos, apesar de serem mais caros. "Estou muito satisfeito com nossos funcionários", diz Bae tomando chá verde em uma sala mobiliada ao estilo coreano, com uma mesa baixa redonda. Um desses trabalhadores, Robert Ondrejkovic, operador sênior de 38 anos da linha de montagem da Kia, diz que é grato à administração por ter evitado demissões. Ele poderia estar falando por todos os eslovacos quando acrescenta: "As pessoas precisam comprar mais carros."
Tradução: Deborah Weinberg