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01/07/2009

Alegria e apreensão enquanto tropas americanas deixam as cidades

Der Spiegel
Bernhard Zand
Em Bagdá
A retirada das tropas americanas das cidades iraquianas marca um momento histórico, com os iraquianos novamente assumindo o controle de seu próprio país. Mas a autoconfiança exagerada de seus líderes pode ter um alto custo para os cidadãos iraquianos. O país rico em petróleo, apesar de cheio de potencial, permanece extremamente vulnerável.

Se há um homem no Iraque cujo rosto denuncia o pleno espectro de triunfos, fracassos e eventos trágicos dos últimos seis anos, seria o do profundamente exausto e às vezes excessivamente alegre neurologista Mowaffak al-Rubaie.

Al-Rubaie, como a maioria daqueles que atualmente governam o Iraque, retornou ao país em 2003 no rastro das tropas e tanques americanos, após passar décadas no exílio. Ele foi nomeado conselheiro de segurança nacional de Bagdá em 2004, ficou face a face com seu inimigo mortal Saddam Hussein em uma prisão e, em uma noite fria de inverno três anos depois, conduziu o ex-ditador até a forca. "Eu segurei o braço dele assim forte", ele disse, cerrando os punhos. "Assim forte." Que vitória... e que satisfação.

Ele assistiu seu país mergulhar no terror e tentou dar uma visão positiva da situação, mesmo em 2006 e 2007, quando até 3 mil pessoas morreram em assassinatos e atentados a bomba em poucos meses. Ele viajou para Washington, primeiro para pedir paciência aos americanos e, posteriormente, quando as coisas lentamente começaram a melhorar, para negociar a retirada americana. Ele foi à cidade iraquiana de Najaf e a Teerã, a capital do Irã, para obter a bênção dos mulás.

Mas nada disso foi o bastante. No início de junho, após meses de atrito, o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, informou Al-Rubaie que seus serviços não eram mais necessários. Al-Rubaie ainda mora em uma propriedade vizinha à do primeiro-ministro na Zona Verde de Bagdá, mas o Parlamento já está analisando seus documentos e suas contas de despesas. Al-Rubaie claramente caiu em desgraça e sua carreira como conselheiro de segurança nacional acabou.

Mas em vez de desistir, Al-Rubaie fundou seu próprio partido, conhecido como Al-Wasat ou o Partido do Centro. Há duas semanas, seus membros se reuniram no lendário Palestine Hotel de Bagdá para sua convenção de fundação. Rubaie não tem tempo para se sentir humilhado ou deprimido. Ele tem grandes planos para o Iraque -e ele quer se tornar primeiro-ministro.

'Uma grande vitória'

Na terça, as tropas americanas se retiraram das cidades iraquianas, mas ficarão nas bases militares. Os americanos, animados e autoritários após sua rápida vitória há seis anos, estão discretos e pensativos hoje. Os iraquianos, mesmo diante de seu profundo trauma, estão tão autoconfiantes quanto Al-Rubaie, apesar da perda de seu cargo. Al-Maliki descreve a retirada americana como uma "grande vitória" do Iraque sobre a ocupação, comparável à retirada das forças britânicas nos anos 20. Ele declarou a terça-feira um feriado nacional e, se referindo aos americanos, disse ao jornal francês "Le Monde": "Nós não pediremos que intervenham em operações de combate ligadas à manutenção da ordem pública. Está encerrado".

Ainda veremos se será realmente assim. Mais de 200 pessoas morreram em ataques em junho, de Kirkuk no norte até Bathaa no sul. É bem possível que Maliki em breve seja forçado a pedir novamente assistência militar aos americanos. Por mais que os xiitas, sunitas e curdos do Iraque normalmente discordem, todos esperam que a situação da segurança se deteriorará significativamente entre o início de julho e as eleições em janeiro.

Todavia, há uma mágica inerente neste momento, um sentimento de confiança não visto no Iraque por toda uma geração. O estigma da ocupação está sendo removido, assim como a profunda amargura entre os iraquianos com o fato de terem precisado de ajuda externa para se libertarem da ditadura.

Esses sentimentos agora estão sendo substituídos por outras sensações. O terror dos últimos anos ofuscou o fato de que o país tem o potencial de se tornar novamente uma potência dominante na região. Ele tem reservas de petróleo que só perdem em tamanho para as da Arábia Saudita e Irã, e possui mais água do que o Egito. E apesar do enorme êxodo de médicos, engenheiros e pessoas com formação superior, o Iraque ainda conta com uma população com um grau de educação relativamente bom.

"O Iraque tem um grande futuro", disse Al-Rubaie. Ele pegou um pedaço de papel, desenhou uma bússola e colocou o Iraque no meio. "No oeste, nós temos a América e Israel. No leste temos o Irã. Os turcos e europeus estão no norte, e os árabes ricos do Golfo ao sul." O Iraque estará perdido caso se envolva no conflito do oeste com o Irã, ele disse. Em vez disso, o Iraque precisa se alinhar com o eixo norte-sul, disse Rubaie, porque é onde está o futuro.

Persas, turcos e árabes

O empresário Ahmed Chalabi, outro político caído com grandes planos, reside oficialmente na ex-embaixada brasileira em Bagdá. Em 2003, ele era o candidato preferido do Pentágono para ser o líder do novo Iraque, mas sua popularidade em Washington despencou juntamente com a do ex-presidente americano George W. Bush e do ex-secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. Os iraquianos também o removeram do cargo no voto, mas Chalabi ainda está envolvido na política nos bastidores. Ele espera restabelecer a Aliança Unida Iraquiana, que conduziu os xiitas ao poder e lhes garantiu o cargo de primeiro-ministro em 2005. É um plano com potencial de sucesso.

Os elementos da política externa de Chalabi parecem um pouco com o conteúdo de sua propriedade no distrito rico de Mansour, em Bagdá: mármore, retratos históricos, móveis e pinturas de bom gosto, tapetes persas. Um descendente de altos oficiais durante o período otomano, Chalabi quer formar uma nova aliança entre o Iraque, Irã, Turquia e Síria como os sucessores dos quatro reinos tradicionais do Oriente Médio -a dinastia abbásida de Bagdá, o império persa sassânida, os otomanos de Istambul e a dinastia omíada de Damasco. A inclusão do Irã na união proposta é um motivo para sua perda de prestígio junto aos americanos.

Ignorando as objeções de mentalidade estreita, Chalabi prevê um tipo de novo Pacto de Bagdá, como o tratado da época da Guerra Fria adotado pelo Iraque, Irã, Turquia, Paquistão e Reino Unido em 1955. Por exemplo, ele acredita que a questão sobre quem vencerá a disputa pelo poder no Irã ainda está aberta. Iraquianos e persas, disse Chalabi, são vizinhos há milhares de anos e a história é bem mais significativa do que os conflitos menores do presente. Em outras palavras, os Saddams, xás e mulás vêm e vão, enquanto os povos permanecem.

Políticos embriagados de poder

As ambições elevadas de homens como Al-Rubaye e Chalabi são mais do que sonhos presunçosos daqueles que desejam retornar ao poder. Na verdade, as ações e palavras daqueles que já estão no poder não são muito diferentes.

No início de junho, o primeiro-ministro Al-Maliki realizou uma recepção para seus 300 mais altos funcionários. Um oficial americano uniformizado que quis participar foi impedido de entrar. O que se seguiu foi uma ladainha de louvores ao "Mestre", palavras que provocaram uma sensação de déjà vu para qualquer um que lembrava do Iraque de Saddam.

Enquanto o primeiro-ministro falava, as fileiras de subalternos à sua esquerda e direita anotavam de forma diligente e agradecida cada palavra de autoelogio que dizia. "Maliki está atualmente embriagado de poder", disse um membro do Parlamento iraquiano que testemunhou algo semelhante pouco tempo depois, em uma reunião com os líderes dos partidos representados no Parlamento. "Ele nos ameaçou abertamente: se alguém tivesse algo negativo a dizer a respeito dele e seu partido Dawa, então ele certamente encontrava algo contra aquela pessoa."

Empresários ocidentais e até mesmo diplomatas contam histórias de como ministros e burocratas iraquianos passaram a olhá-los com desprezo. O senso compreensível de satisfação ao lentamente se sentirem mestres de seu próprio país às vezes se transforma em pura arrogância. As autoridades iraquianas às vezes comparecem com horas de atraso aos compromissos ou os cancelam na última hora, sem uma explicação. Os iraquianos são particularmente sensíveis -e isso é compreensível até certo ponto- quando europeus e americanos continuam chegando aos seus gabinetes com pequenos exércitos de guarda-costas.

"Nós percebemos que teremos que exercer maior moderação no futuro", disse um diplomata. Mas uma coisa é notável, ele acrescentou: a maioria desses ministros ou altos funcionários não trouxe suas famílias do exterior para o Iraque. "Nossas preocupações de segurança são justificadas."

Apenas interessados em dinheiro

Também justificadas são as dúvidas sobre se a classe política em Bagdá legitimizará sua autoconfiança nos próximos seis meses. "Eu não acho que nada importante acontecerá antes das eleições", disse Shatha Al-Musawi, uma parlamentar independente que, como integrante do comitê financeiro, está encarregada de controlar o governo -até onde isso é possível.

"Os cavalheiros atualmente não estão nem um pouco interessados" nas questões-chave do Iraque, disse Al-Musawi, como a lei que divide a riqueza do petróleo do país entre o governo central e as províncias, o retorno dos tecnocratas que eram membros do Partido Baath de Saddam aos seus cargos nos ministérios do governo e a luta contra a corrupção. "Eles só estão interessados em se conseguirão manter seus cargos após a eleição e se controlarão o mesmo orçamento."

Segundo Al-Musawi, o atual grau de corrupção e audácia com que os poderosos no Iraque desviam dinheiro público é difícil de explicar para pessoas de fora. "Veja, por exemplo, Al-Rubaie, o conselheiro de segurança nacional. Pela lei, ele tinha direito a um quadro de 60 funcionários. Nós descobrimos que ele tinha 273." Ou Shirwan al-Waili, outro dos muitos ministros que também cuidam de questões de segurança nacional. "Ele tem um orçamento para 20 pessoas, mas emprega milhares." Quando o comitê orçamentário do Parlamento tentou convocar Al-Waili para depor, seus membros receberam repentinamente telefonemas ameaçadores dos ministérios do Interior e Defesa, dizendo para não interferirem.

Algumas das violações são tão graves que até mesmo o primeiro-ministro não pode evitar de remover um membro de seu próprio partido. No final de maio, por exemplo, um avião que tinha decolado para o sul foi ordenado a retornar ao Aeroporto de Bagdá. Sentado na classe executiva estava o ministro do Comércio, Falah al-Sudani, que estava fugindo do país para Dubai. Ele agora está na prisão - assim como as duas autoridades que ordenaram o retorno do avião com Al-Sudani sem antes pedir permissão para Al-Maliki.

"Independente do que você ouça sobre os grandes negócios que supostamente pode fechar aqui, esqueça", disse um empresário cuja empresa deu o passo audacioso de vir para Bagdá há poucos meses - e agora está considerando partir de novo. "Talvez daqui três, cinco ou 10 anos. Este não é o Leste Europeu após a queda da Cortina de Ferro. Este é o Oeste da África." Ele disse que passa grande parte do tempo em reuniões com autoridades, rechaçando exigências mais ou menos abertas de propina.

Pequeno demais para governar, grande demais para subjugar

"É deprimente demais e nossa influência é muito pequena, de forma que certamente não concorrerei uma segunda vez ao Parlamento", disse Shatha al-Musawi.

É claro, disse Al-Musawi, ela também está contente em ver o desaparecimento gradual dos comboios americanos das ruas e em observar o desmonte gradual dos altos muros de concreto, que transformaram Bagdá de uma cidade de milhões em uma aglomeração de campos militares e bairros fortificados. Quem pode descrever a alegria dos iraquianos quando, no início desta semana, eles puderam dirigir para casa por uma estrada antes bloqueada entre o Parlamento e o Al Rasheed Hotel, em vez de passarem horas presos em congestionamentos brutais? Seria semelhante ao Túnel Lincoln de Nova York ficar fechado por seis longos anos.

É claro, disse Shatha al-Musawi, ela também vê o enorme potencial de seu país, que está apenas aguardando por uma liderança que possa finalmente libertá-lo. O Iraque em 2009, disse Ahmed Chalabi, tem pelo menos uma coisa em comum com a Alemanha após a guerra: ele é um país que é pequeno demais para dominar seus vizinhos, mas grande demais para se deixar subjugar por qualquer um deles.

A única pergunta é se ele está se referindo à Primeira Guerra Mundial ou à Segunda Guerra Mundial. E a pergunta sobre o que Iraque poderá ver em seguida: um milagre econômico ao estilo Wirtschaftswunder -ou um República de Weimar?


Tradução: George El Khouri Andolfato

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