UOL Notícias Internacional
 

03/07/2009

Paisagista holandesa quer transformar região do muro de Berlim em um jardim gigante

Der Spiegel
Cathrin Schaer
Em Berlim (Alemanha)
Enquanto havia o muro, a zona entre Berlim Oriental e Ocidental era um lugar potencialmente mortal. Contudo, desde o fim da Guerra Fria, em geral está desértico. Agora, uma arquiteta paisagista holandesa quer transformar a antiga terra de ninguém em uma série de jardins secretos e áreas de recreação.

Há vinte anos, aquelas faixas inocentes de areia e cascalho na antiga fronteira entre a Alemanha Oriental e Ocidental tinham um propósito bem mais sinistro. Elas eram tão arrumadas que era fácil para os guardas de fronteira verem as pegadas dos cidadãos que tentassem fugir do Leste para o Oeste. Agora, uma paisagista holandesa quer ver essas areias mudando novamente -mas por razões totalmente diferentes.

Construindo o muro

  • AFP

    Moradores de Berlim Ocidental observam operários erguendo o muro que viria a separar Berlim Ocidental e Berlim Oriental, em agosto de 1961

  • AFP

    Trabalhador ergue o muro na Bernauer Strasse

  • AFP

    Soldados vigiam trabalhadores que levantavam o muro com blocos de concreto pré-fabricados

Joyce Van den Berg é curadora de uma mostra, "Nova Luz sobre a Terra de Ninguém", a ser inaugurada no Centro Alemão de Arquitetura (DZA) em Berlim no início de julho, que estuda o que pode ser feito com o que resta da antiga faixa de fronteira cercando Berlim Ocidental.

A "faixa mortal" ou terra de ninguém era um território entre as duas Alemanhas. A fronteira consistia de um muro de concreto, mais conhecido como Muro de Berlim, cercado principalmente por cercas, torres de vigias e uma faixa vazia de "terra de ninguém". Há cerca de 155 km da antiga faixa de fronteira com cerca de 20 metros e 2,5km de diâmetro. Van den Berg pesquisou exatamente onde costumava ser e seu tamanho. Grande parte dessa extensão não está utilizada, não está cuidada e, como escreve o DAZ em seu site na Web, é um "cenário único com enorme potencial."

Van den Berg, que começou a se interessar pelas antigas fronteiras quando estudou Berlim há 10 anos, gostaria de ver as faixas de morte -que ela chama de "cenários de trauma"- transformadas em áreas de recreação. A paisagista trabalhou em projetos urbanos similares em Utrecth e Amsterdã, em lugares como o antigo aeroporto militar. Ela considera uma vantagem ter uma perspectiva de estrangeira durante o projeto e diz que seu objetivo é respeitar a história das áreas e preservar quaisquer restos da antiga área de fronteira enquanto embeleza a terra, replantando e dando tratamento paisagístico, assim como permitindo passatempos como ciclismo, caminhadas e outros esportes.

Segundo seu plano, as faixas estéreis de areia seriam removidas em intervalos regulares para estimular o crescimento de novas plantas, assim como a formação de mega-dunas, que já estão evoluindo naturalmente nas florestas alemãs.

Van den Berg, que estudou cuidadosamente exatamente onde costumava ser a fronteira, também tem algumas ideias para os restos da antiga fronteira. Em certo ponto, houve 302 torres de vigilância na fronteira; hoje, existem apenas cinco. Van den Berg quer manter as cinco restantes e quaisquer outras que possam ser reconstruídas e montar ali jardins secretos pequenos. Plantas incomuns podem ser criadas ali dentro, protegidas do vento e dos elementos, e os transeuntes nem veriam as torres de vigilância se não se aproximassem delas, diz ela.

Vand den Berg também tem um esquema interessante para marcar os túneis de fuga escondidos que levavam do Leste para o Oeste. Esses são considerados restos importantes da antiga fronteira porque, se os túneis, construídos com grande risco, fossem descobertos, frequentemente levariam a uma mudança na fronteira do lado da Alemanha Oriental, algumas vezes até a demolição de prédios ou blocos. Para marcar onde estavam os túneis, Van den Berg sugere feixes de luz do oeste para o leste, comemorando tanto os túneis quanto as pessoas que tentaram usá-los.

A mostra, que começa no dia 10 de julho e continuará até o final de agosto em Berlim, dará aos visitantes uma visão geral das sugestões de Van den Berg. Os visitantes também poderão fazer duas excursões de bicicleta, lideradas pela própria Berg, ao longo da trilha que já existe na fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental. "Há muitas memórias ruins presas nesta antiga região de fronteira", diz o comunicado do DAZ à imprensa sobre a mostra. "O conceito de Van den Berg quer mudanças positivas."

De fato, o único problema que Van den Berg pode prever com seu plano de paisagismo é a questão de propriedade privada: apesar de grande parte da faixa de fronteira ainda pertencer ao Estado, algumas partes já foram vendidas a cidadãos privados. Para resolver isso Van den Berg acha que Berlim pode usar a experiência dos holandeses. Na Holanda, proprietários de locais significativos historicamente frequentemente se tornam membros de uma fundação de preservação das áreas.

No momento, porém, é tudo teoria. Por mais que as ideias de Van den Berg pareçam sólidas, não há planos firmes para fazer nada assim com as faixas fronteiriças. "Realmente gostaria de iniciar o debate e fazer as pessoas pensarem sobre como fazer as mudanças", explica Van den Berg. "Gostaria de abrir os olhos das pessoas. Acho que podem ficar agradavelmente surpresas. E acho que é muito importante não apenas para Berlim e Brandenburgo, mas para toda a Europa, porque é parte de nossa história."

Tradução: Deborah Weinberg

Compartilhe:

    Tempo

    No Brasil
    No exterior

    Trânsito

    Cotações

    Hospedagem: UOL Host