Os livros eletrônicos revolucionaram tanto o mundo editorial quanto a leitura em todo o mundo. Mas na Alemanha, as editoras preferem não entrar na área digital. É um esforço, como alegam, para proteger os escritores e livrarias, ou um temor profundamente enraizado da tecnologia?
O objeto inconspícuo pesa tão pouco quanto três barras de chocolate e não é maior do que um livro de capa dura muito fino. Apesar de pequeno, ele está prestes a revolucionar a forma como os alemães leem.
Ele se chama Kindle e é vendido pela gigante de varejo online americana Amazon. Você pode usá-lo para comprar e baixar textos de todo tipo, usando uma conexão sem fio UMTS gratuita. Os livros comprados dessa forma são chamados de "e-books" (livros eletrônicos). Este meio de obter material para leitura está se tornando cada vez mais popular nos Estados Unidos, mas alguns o veem como uma ameaça ao mundo do material impresso.
Nos últimos anos, fala-se muito a respeito desta nova tecnologia na Alemanha, mas ela ainda não ganhou ampla popularidade. Mas a Amazon planeja mudar isso. A partir de 19 de outubro, logo após o encerramento da Feira do Livro de Frankfurt, ela inundará o mercado alemão de aparelhos. Nos Estados Unidos, eles custam cerca de US$ 279 (187 euros). O consumidor alemão pagará 250 euros (US$ 374), incluindo imposto, frete e taxas.
Apesar dos preços variarem enormemente em diferentes regiões com leis diferentes, há 100 países ao redor do mundo nos quais os consumidores podem usar o Kindle para comprar e baixar livros da Amazon a um clique de botão. Nas últimas semanas, 104 dos 112 livros na lista de best-sellers do "New York Times" estão disponíveis nos Estados Unidos no formato e-book por US$ 9,99.
É claro, isso inclui "O Símbolo Perdido", o mais recente romance de Dan Brown, um thriller um tanto verboso envolvendo o poder secreto e símbolos crípticos da Maçonaria. O livro chegou às livrarias alemãs na quarta-feira, a tempo da Feira do Livro de Frankfurt - e, por acaso, logo após a chegada do thriller futurista "Limit", escrito por Frank Schätzing, o competidor em língua alemã de Brown.
Um novo aparelho, um mercado com futuro muito promissor e dois best-sellers garantidos? Pode parecer condições perfeitas para introdução de um novo meio. Mas isso acontecerá? Não.
Ficções econômicasEnquanto as pessoas nos Estados Unidos podem comprar online o livro de Dan Brown - em um piscar de olhos - por menos de US$ 10, os alemães terão que desembolsar 26 euros *US$ 39) por ele -e apenas nas livrarias. Apesar da editora ter considerado que valia a pena rodar uma primeira edição 1,2 milhão de cópias, ela não planeja oferecê-lo como livro eletrônico. Mesmo o romance de Schätzing, que terá uma primeira edição de 400 mil cópias, estará disponível online apenas no próximo ano.
A indústria do livro alemã é uma estranha para este novo mundo digital. Segundo estimativas da Goldmedia, 10 mil leitores já aderiram na Alemanha. Mas, segundo o GfK Group, uma importante empresa de pesquisa de mercado, nos primeiros seis meses de 2009, apenas 65 mil livros foram vendidos, excluindo obras especializadas.
Diferente dos Estados Unidos, o custo de baixar um livro eletrônico na Alemanha também é assustadoramente alto. O principal concorrente do Kindle, o Sony Reader, também está disponível nas livrarias alemãs há algum tempo por cerca de 250 euros. Mas o aparelho da Sony não pode baixar diretamente os livros eletrônicos pela Internet. E como os e-books são tão caros quanto as versões impressas mais baratas na Alemanha, eles ainda são muito caros quando comparados ao preço do hardware necessário.
De fato, o preço de um livro eletrônico só poderá baixar assim que a edição brochura (capa mole) chegar ao mercado, que geralmente leva cerca de dois anos. Ironicamente, até mesmo "Limit" de Schätzing - um romance de ficção científica que celebra a tecnologia do futuro - não conseguiu vencer estas políticas de bloqueio.
O romance se passa em 2025. Nele, a distância entre a Lua e a Terra foi reduzida com o estabelecimento de uma espécie de elevador espacial. A Lua também se tornou um destino de visita mais interessante, por ser rica no isótopo hélio-3. Assim que for transportado para a Terra, esperam os protagonistas do romance, o isótopo solucionará completamente a séria escassez de energia do planeta.
Mesmo em 2025, a humanidade ainda não se livrou de sua natureza avarenta - e sua incansável curiosidade científica. Os americanos e chineses estão disputando o controle da Lua e, com ela, o mundo todo. O romance é um pouco exagerado e verboso, mas serve como uma leitura empolgante e intensamente informativa, além de ser um empreendimento bem-sucedido em combinar fato didático com ficção.
Com 1.328 páginas e pesando 1,3 quilo, "Limit" seria um candidato ideal para um e-book bem mais fácil de manusear. Mas sua editora argumenta que o custo do software que converte as obras impressas no formato e-book é alto demais. Mas isso soa como uma desculpa esfarrapada. Afinal, todas as editoras de propriedade do Holtzbrinck Publishing Group, incluindo a Kiepenheuer & Witsch, a editora de "Limit", têm acesso ao que a editora alemã Helge Malchow chama de "depósito eletrônico", onde os livros impressos são transformados em livros eletrônicos. E, além disso, o fato é que, a longo prazo, esse tipo de argumento econômico não faz sentido. Não há como ignorar o fato de que os livros impressos são mais caros -devido, entre outras coisas, ao alto preço do papel, o processo de impressão e transporte dos livros.
Na verdade, isto tem mais a ver com as leis alemãs que estabelecem preços fixos para obras impressas. Mas o que supostamente foi implantado para proteger objetos de valor cultural e pequenas livrarias, também ajudou a suprimir a concorrência. O medo é de que, quando uma versão eletrônica de uma obra for lançada, os consumidores estarão muito mais inclinados a escolher, comprar e baixar a obra -uma opção mais barata e eficiente dadas suas exigências necessárias relativamente modestas- do que sair de casa. Como resultado, o livro eletrônico gradualmente tornará as pequenas empresas obsoletas.
Auf Wiedersehen, Herr Gutenberg?Para muitos, o longo adeus a Johannes Gutenberg, o alemão que inventou a tipografia, teve início nos Estados Unidos. "Ela foi uma tecnologia incrivelmente bem-sucedida", diz Jeff Bezos, o fundador e presidente-executivo da Amazon. "Mas agora é a hora de uma mudança."
Para cada livro vendido na Amazon.com disponível tanto em versão impressa quanto digital, metade é comprado na versão eletrônica. E especialistas estimam que, até 2012, o mercado americano para aparelhos de leitura de e-books aumentará dos atuais 1 milhão para 12 milhões.
Até agora, quase todas as pessoas que compram leitores de e-books parecem ser "leitores profissionais", pessoas como editores e empresários cujo trabalho exige que leiam grandes quantidades de texto. Segundo uma pesquisa feita recentemente para a Feira do Livro de Frankfurt, apenas um entre 12 alemães tem uma ideia clara a respeito do que é um livro eletrônico, e sete entre 10 preferem a versão impressa em vez da digital.
Talvez o que esteja por trás do ceticismo do mercado alemão seja a lembrança da crise em torno dos tocadores de MP3 e a pirataria de música. O que realmente perturbou a todos foi o fato de cópias ilegais de arquivos de música se espalharem pela Internet com a velocidade de vírus antes que as empresas pudessem vendê-los legalmente.
Nos Estados Unidos, ao menos, parece que as editoras estão tentando aprender com o grande desastre da indústria da música. Elas responderam rapidamente à nova tecnologia, oferecendo alternativas baratas aos livros impressos e às versões digitais ilegais disponíveis na Internet. Todavia, o piratas da Internet ainda representam uma ameaça. Veja, por exemplo, o mais recente romance de Dan Brown, "O Símbolo Perdido". O romance estava disponível como download ilegal gratuito tão logo chegou às lojas em Washington.
Tudo isso não quer dizer que o livro impresso não sobreviverá. Não, ele permanecerá entre nós como o opulento livro de mesa, um item de colecionador para os amantes de livros, feito de papel caro e mantido em condição impecável, e - acima de tudo - como uma relíquia de uma era passada em nossa memória coletiva.
Tradução: George El Khouri Andolfato