Foi apenas uma única palavra que o editor-chefe do "Berliner Zeitung", Fritz Wengler, inseriu no meu artigo. Para mim, foi traição. Para ele, foi uma tentativa de colocar um freio na história.
Os choupos parecem um muro verde ao redor do alto prédio de apartamentos em Fischerinsel, o bairro na ex-Berlim Oriental que é lar de Fritz Wengler, um homem que 20 anos atrás fez uma promessa que não poderia cumprir. As árvores se agitam com o vento de outono e me parece que estavam acostumadas a perder suas folhas muito mais cedo do que perdem hoje.
Wengler mora em um apartamento no segundo andar há 40 anos. E, nesse período, a natureza gradualmente envolveu o prédio como um castelo da Bela Adormecida. Parado diante da entrada, eu novamente me pergunto se deveria deixá-lo em paz. A tentação é grande. Afinal, significaria me deixar em paz -e ao jornal de cuja história fazemos parte.
Eu esperei 20 anos; duas décadas durante as quais lembranças vivas e mortas entram em choque, como um funcionário do órgão responsável pelos arquivos do serviço secreto da antiga Alemanha Oriental, a Stasi, me disse certa vez. As lembranças vivas estão desaparecendo. Nos últimos dias, as emissoras públicas têm exibido seus filmes sobre o fim do comunismo, naquela que se tornou uma tradição anual tão previsível quanto à exibição dos cansados especiais de Natal.
Os filmes sobre esta revolução retratam um mundo sombrio, mal iluminado pela luz quente das velas revolucionárias e pelo brilho frio da iluminação de néon, nos longos e vazios corredores dos prédios da Stasi. Este mundo televisual é habitado por personagens bons e ruins como uma floresta de contos de fadas. Você precisa apenas encontrar seu lugar nele. O ator Heino Ferch interpretando um cavador de túnel ou um agente da Stasi, com peruca e sem peruca. Vítima ou perpetrador, cordeiro ou leão, preto ou branco.
As imagens revestem as memórias. Florian Henckel von Donnersmarck filtrou todos os tons vermelhos de seu filme "A Vida dos Outros" para conjurar uma imagem adequadamente melancólica da antiga Alemanha Oriental. Eu estou convencido de que o sol de outono se punha mais cedo na Alemanha Oriental do que atualmente.
Caminhos inseparavelmente cruzadosAntes da escuridão descer completamente, eu decidi telefonar para Fritz Wengler para perguntar se ele falaria comigo.
"Sobre o quê?" ele pergunta.
"Eu quero descobrir quem eu era", eu respondo.
"Entendo", ele diz, e eu o imagino sorrindo do outro lado da linha telefônica -sorrindo diante da minha ingenuidade.
Vinte anos atrás Fritz Wengler era o vice-editor-chefe sênior do jornal "Berliner Zeitung". Como o editor-chefe estava enfrentando problemas cardíacos, Wengler estava temporariamente no comando do jornal, em meio àquele período revolucionário. Na época eu tinha vinte e poucos anos e era um jovem editor. Nós não trabalhávamos muito juntos, mas nossos caminhos se cruzaram de forma inseparável nas noites de 6 e 7 de outubro de 1989.
O "Berliner Zeitung" me enviou para cobrir a procissão com tochas do grupo jovem comunista Freie Deutsche Jugend (FDJ) pelo centro da cidade, às vésperas do 40º aniversário da Alemanha Oriental. Como me recordo, eu caminhei de Alexanderplatz, passando por uma Scheunenviertel escura como breu, até Neue Wache, onde uma plataforma foi armada para a imprensa. Caxias da Stasi importunavam na escuridão e eu tive que mostrar minha identidade pelo menos quatro vezes antes de chegar em Unter den Linden. Assim que cheguei lá, eu me senti como se tivesse chegado a uma ilha; o último trecho restante de terra onde era possível celebrar o aniversário do país em paz.
A Alemanha Oriental estava em colapso e a procissão de tochas era a orquestra que continuava tocando enquanto o Titanic afundava. Os participantes da marcha saíam da escuridão de forma ruidosa, e corri e perguntei para alguns deles o que estavam fazendo. A maioria veio de longe e estava contente por estar em Berlim. Alguns deles queriam simplesmente ver o líder soviético, Mikhail Gorbachov, alguns sabiam que não representavam mais seu país e outros queriam defender o país que amavam.
Eles gritavam "República Democrática Alemã, nossa pátria!" e "Gorbi!", acenando suas tochas e bandeiras enquanto desapareciam de volta à escuridão.
Minhas mãos tremiamQuando retornei ao jornal dois dias depois, dezenas de agentes à paisana aguardavam na sala de espera. Talvez esperassem que pessoas fossem invadir a redação, o que certamente faria sentido.
Eu me sentei à minha mesa e escrevi um artigo que começava com uma série de perguntas. "As procissões de tochas ainda são relevantes?" foi a primeira. Eu não respondi às perguntas, porque não tive coragem de escrever "Não". Minhas mãos já tremiam do jeito que estava. Eu era editor do "Berliner Zeitung" há dois anos. Antes disso eu passei quatro anos estudando jornalismo em Leipzig. Aqueles anos me ensinaram que sempre é possível encontrar respostas claras para as perguntas difíceis desde que você olhe para elas do ponto de vista certo.
Eu citei algumas pessoas com as quais falei na procissão. Uma garota disse que estava triste porque um amigo dela tinha ido para o Ocidente. E ela tinha chorado apesar do líder alemão-oriental, Erich Honecker, ter dito aos refugiados que ninguém derramaria uma lágrima por eles. Eu mencionei Gorbachov, também Daniel Ortega, mas não Honecker.
Eu enviei o texto ao quarto andar, onde ficava o editor-chefe, e aguardei. No final meu telefone tocou e Fritz Wengler me pediu para ir vê-lo. Wengler estava sentado à sua mesa, em uma sala ampla, e olhava para o manuscrito.
Poucos meses antes, ele me devolveu um artigo, a respeito de um grupo de garotas descontentes em uma fábrica de cosméticos, com as palavras: "Eu não entendi, Alexander". Ele olhou para mim, fez uma pausa, então acrescentou: "Mas sei que você consertará". Eu voltei até as garotas e perguntei a respeito de coisas com as quais estavam contentes no trabalho e em seu país. Elas pensaram em meu pedido e então reuniram todas as coisas positivas nas quais podiam pensar. Eu as coloquei em meu artigo, que até Fritz Wengler então entendeu. As garotas não se importaram. Elas sabiam o que era esperado de mim.
Geladeira com três zonas de temperaturaEu queria me tornar um jornalista esportivo, mas a comissão estatal de encaminhamento de formandos me enviou para a seção de negócios do "Berliner Zeitung" por três anos. Eu precisava aguardar apenas mais um ano. Isso não era muito em um país no qual você sempre estava esperando por algo. E eu não queria deixar o país, porque estava convencido de que estava vivendo na melhor parte do mundo, ou pelo menos naquela com o melhor ponto de vista. Então escrevi sobre a nova geladeira com três zonas de temperatura feita em Berlim, que tinha constantemente problemas com uma das zonas; a respeito do novo gravador de fita cassete com altofalantes removíveis, uma maravilha da Treptow cujos altofalantes se recusavam a se separar quando você queria; e a respeito de um posto de gasolina automático em Weissensee, que bombeava gasolina mesmo quando não devia.
Nada funcionava, mas algum dia funcionaria. Essa era postura geral.
Eu escrevi sobre uma feira para os artesãos do amanhã, um encontro de primavera do FDJ e sobre o Festival Mundial dos Jovens e Estudantes. Não tinha fim. O jornal era como uma cápsula trancada em seu próprio sistema de valores. Nenhum dos meus amigos ou parentes no mundo real levava meus artigos a sério. Críticas e reconhecimento eram distribuídos dentro da organização como aqueles globos onde neva quando você o sacode. Todavia, eu ficava satisfeito quando era elogiado. Nós descrevíamos um mundo imaginário habitado por pessoas que buscavam constantemente soluções construtivas e geladeiras nas quais todas as zonas de temperatura funcionassem. Nós tínhamos pouco contato com o mundo real externo. Apenas uma vez, depois que escrevi sobre um novo tipo de unidade de dessulforização de fumaça da usina elétrica de Rummelsberg, é que uma mulher me escreveu sugerindo que visitasse sua sacada, para ver pessoalmente quão preta sua roupa lavada ficava por causa de toda a fuligem. Eu escrevi para ela uma carta educada e ela escreveu uma carta educada em resposta, surpresa por eu ter respondido. Talvez ela tenha ficado surpresa pelo fato de eu realmente existir.
As rachaduras começaram a aparecer no globo de neveMas rachaduras começaram a aparecer no globo de neve e o mundo real começou a invadir nosso prédio na Alexanderplatz. Dezenas de milhares de pessoas estavam fugindo do país e aqueles que ficaram para trás começaram a lentamente tomar as ruas.
Fritz Wengler tinha recebido um duro golpe, mas não estava pronto para desistir. Ele nunca foi de falar alto ou gritar como os outros. Em vez disso, ele escondia seu poder atrás de um forte sotaque operário e um rosto que parecia um desenho do cartunista Loriot. Mas ele era durão. Nós lutamos como leões a respeito do meu pequeno artigo tímido até tarde da noite. No final, ele continha Honecker, o líder do FDJ, Eberhard Aurich e uma frase de encerramento construtiva, mas também a garota que chorava pelo amigo que partiu, assim como as perguntas de abertura, que eram habituais para um jornal que sempre tinha resposta para tudo.
Pouco antes da meia-noite, a prova do texto veio da gráfica. A sala estava quase deserta. Fritz Wengler e eu permanecemos juntos à sua mesa, lendo o texto até a última linha. Nenhum de nós estava completamente satisfeito, mas estava ficando tarde.
"Prometa-me que não vai mudar mais nada, Fritz", eu disse, e ele apertou minha mão. Então eu entrei no Polski Fiat de 17 anos que meu cunhado me deu antes de fugir para o Ocidente e dirigi de volta ao mundo real, escuro, até alguma festa onde ninguém conversava sobre procissões de tochas e certamente não sobre Aurich, e bebi algumas cervejas. Quando eu abri o jornal na manhã seguinte, todas as minhas perguntas abertas tinham sido respondidas com um "Sim".
Os jovens de hoje ainda precisam acenar bandeiras e entoar cânticos para expressar o que sentem? Sim.
Ele ficou apreensivoEu senti o chão se abrir sob meus pés. Wengler não estava. Eu corri até o editor-chefe encarregado, o Doutor Arnold, resmungando algo sobre direitos autorais. Karl-Heinz Arnold era o esnobe da redação. Nós o chamávamos de "o Doutor". Ele dirigia um Mazda azul e se beneficiava de uma educação humanista. "O que você sabe sobre direitos autorais, garoto?" ele respondeu de modo fanhoso. Um colega disse que ele entenderia se eu pedisse demissão, mas acrescentou que seria uma pena, porque a Glasnost estava dobrando a esquina. Wengler posteriormente pediu que alguém me dissesse que ele tinha ficado apreensivo.
Nós dois permanecemos no jornal. Eu fiz uma carreira nele, Wengler não. Ele não foi expulso, insultado ou chamado para prestar contas diante de algum comitê. Ele simplesmente foi transferido para um canto do jornal. Ele continuou sendo vice-editor-chefe, mas ninguém lhe dava o que fazer. O novo editor-chefe cortou suas funções, talvez porque ele o lembrasse demais de si mesmo. Wengler foi encarregado de cuidar dos jornalistas jovens, de pequenas e médias empresas da Alemanha Oriental e de questões relacionadas à caça, porque um de seus amigos era caçador. No final, eu o vi circulando pelos corredores com um pequeno carrinho de mão, distribuindo textos. Em 1993, Eric Böhme, o publisher, lhe fez uma oferta lucrativa de aposentadoria antecipada, que ele aceitou e se aposentou. Eu o tinha visto apenas uma vez nos últimos 16 anos, no funeral do fotógrafo Wulf Olm. Eu nunca discuti aquela noite de outubro com ele ou sua promessa não cumprida.
Enquanto permaneço diante da confusa placa do prédio de apartamentos em Fischerinsel, um velho baixinho se aproxima e me pergunta em um dialeto saxão quem estou procurando. "Wengler", eu digo. "O que você quer com Fritz?" pergunta o homem.
Eu olho para ele. O homem tem 70, talvez 80 anos, com um olhar extremamente determinado e um garfo de churrasco em sua mão. "Eu quero conversar com ele", eu digo.
'Cuidado com esse garfo'"Entendo", diz o homem. "Venha comigo. Eu quero lhe mostrar algo."
Ele me leva até as caixas de correio e demonstra como consegue pescar as cartas em qualquer uma delas usando seu garfo de churrasco. Isso não era possível nas caixas de correio da velha República Democrática Alemã, ele diz, mas os inquilinos precisam pagar por esta porcaria assim mesmo. Ele diz que não suporta mais isso. Ele vai processar os ladrões. "Ladrões!" esbraveja o homem. "Eu realmente preciso ir", eu digo. "Vou levar você até ele", ele responde.
O segundo andar cheira a lixeira. O homem passa por mim e toca a campainha.
Fritz Wengler olha para nós com interesse. Ele tem 75 anos. Seu rosto limpo, amistoso e seus olhos escuros insondáveis pouco mudaram. Antes que eu possa dizer uma palavra, meu guia começa a esbravejar, se lançando em críticas furiosas nas quais tenta associar o ministro do Interior, Wolfgang Schäuble, o mundo financeiro internacional e o destino do prédio de apartamentos em Fischerinsel. "São todos ladrões!" esbraveja o homem. "Mas agora tudo acabou. O prédio pertencia a nós, o povo. E vamos tomá-lo de volta. Vamos processar, Fritz!" ele continua esbravejando, brandindo seu garfo de churrasco.
"Cuidado com esse garfo, Rolf", diz Wengler. Ele me conduz para dentro do apartamento e fecha a porta.
"Ele é um sujeito decente: um engenheiro", explica Wengler. "Infelizmente, atualmente ele anda um pouco confuso." É o mesmo tom de voz que ele usou quando defendeu meu chefe de departamento, que bebeu demais e bateu seu Lada em um portão de jardim em Basdorf, no verão de 89. "Ele é um bom camarada", ele disse na época.
Em uma reunião importante, Wengler certa vez se queixou ao líder regional do partido, Günter Schabowski, que não serviam (salsichas) frankfurter decentes nas cantinas das editoras. "Frankfurters?" disse Schabowski, que então caiu na gargalhada. Wengler não entendeu o que era tão engraçado. Afinal, os campeões do socialismo precisavam de salsichas decentes.
'Como você sabia?'Fritz Wengler é o representante dos inquilinos do prédio há muitos anos. Ele me conduz a uma pequena sala escura contendo duas estantes e uma mesa redonda. Uma garrafa térmica com café e duas xícaras estão sobre a mesa. Sua esposa se apresenta brevemente, então se retira. Fritz Wengler fecha a porta. Nós estamos sozinhos. Nós podemos conversar de homem para homem.
"Então", ele diz. Eu rapidamente lhe digo que quero conversar sobre o artigo da procissão de tochas. "Eu sei", diz Fritz.
"Como você sabia?"
"Por que mais você estaria aqui? Eu mudei tudo com um simples 'Sim'. Eu também nunca estive em uma situação como aquela antes. Eu penso frequentemente naquilo nos últimos anos", ele diz. "Quer açúcar?"
Ele diz que se recorda vividamente daquele dia. Ele me conta sobre as diretrizes que tinha que seguir como editor-chefe. Diretrizes emitidas por Joachim Herrmann, o secretário de agitação e propaganda do Politburo e ex-editor-chefe de Wengler no jornal "Junge Welt". Ele expõe as entranhas do sistema de diretrizes. "Eles todos conheciam uns aos outros", ele diz. Havia diretrizes que ele não entendia, mas que não vieram de lugar nenhum. Elas foram emitidas por pessoas que ele conhecia há anos -confidentes, por assim dizer.
Era tudo sobre a existência da Alemanha Oriental"Tudo se baseava teoricamente no centralismo democrático. Você sabe sobre tudo isso", ele diz e eu concordo. "Marx era um editor-chefe ditatorial", diz Wengler com um sorriso sarcástico. Marx. Agora ele tem um chão sólido sob seus pés.
"Foram-nos dadas as seguintes instruções para o aniversário: não deixaríamos que cuspissem na nossa sopa. Nós temos todo motivo para nos orgulharmos de nós mesmos e a procissão de tochas é a peça central. Nós sabíamos que tudo estava desmoronando lá fora, mas os jovens da República Democrática Alemã mostrariam ao mundo as nossas realizações. Era o que Achim Herrman ficava repetindo ao telefone. Eu não me recordo com que frequência ele ficava me telefonando naquela noite. Mais ou menos constantemente. 'Está tudo transcorrendo bem com a procissão de tochas, Fritz?' Era sempre o mesmo. Ele deve ter ligado do Parlamento municipal. Então seu artigo chegou à minha mesa e eu sabia que não podia publicá-lo daquele jeito."
Ele faz uma pausa, bebe seu café e diz: "Por três motivos". Eu posso senti-lo crescendo -e eu encolho de volta ao jovem editor. Sempre havia três motivos para as coisas não estarem certas. "Primeiro, as perguntas. Segundo, o canto de 'Gorbi' e a omissão de Honecker, e, finalmente, a garota que chorava por causa do amigo que deixou o país", ele diz. "Eu queria manter a garota. Eu realmente lutei com a minha consciência. Mas no final eu não sabia mais ao certo. Foi o motivo para ter acrescentado o 'Sim'. Era minha cabeça que estava em jogo, afinal."
"Mas você me prometeu que não mudaria."
"Não era a opinião de Osang que estávamos publicando. Era nossa posição editorial. E eu fui para a cama com uma consciência culpada naquela noite, acredite."
"Se sentindo culpado por minha causa?"
"Em relação ao meu partido. Em relação ao meu país", ele diz, me olhando diretamente nos olhos.
Eu sou uma roda dentadaEu sou uma roda dentada -uma parte minúscula de uma máquina. Neste momento, Fritz Wengler é minha memória viva.
Eu me recordo de todas as vezes que me alertaram para assegurar que meus interesses pessoais fossem os mesmos da sociedade na qual eu vivia. Sempre foi automaticamente sobre tudo. Se você dormisse na sala de aula, você estava colocando a paz mundial em risco. E às vezes era preciso matar seus interesses pessoais para harmonizá-los com os da sua sociedade. Diante disso, um acordo entre dois homens não vale muito.
É estranho como tudo isso volta nesta pequena sala. Talvez seja melhor você ver apenas árvores quando olha pela janela.
Fritz Wengler não se encontra mais com seus antigos colegas. Ele ocasionalmente vê um deles em alguma manifestação, ele diz. Nas estantes se encontram livros de história sobre os Hapsburgs, os Hohenzollerns, os hunos e os celtas. Eles estão ao lado de livros de memórias de celebridades da Alemanha Oriental, como Frank Schöbel, Eberhard Esche, Inge Keller, Gisela May e Gaby Seifert, assim como espécies de manuais de referência da era comunista a respeito do mundo e do socialismo, dados aos jovens nas comemorações da Jugendweihe, um ritual secular de maioridade. Meu individualismo deve parecer patético para ele: tão autocentrado e queixoso. Ele diz que não quer se esconder atrás de ninguém. "Se você deseja se tornar papa, então é preciso ser católico", ele diz. "Não se faz omelete sem quebrar ovos."
Aquilo não se tratava de mim e nem mesmo do "Berliner Zeitung", ele explica. Tratava-se da existência da República Democrática Alemã.
'Consenso não leva você a lugar nenhum'"Você pensou em mim por um segundo quando acrescentou aquele 'Sim'?" eu pergunto, percebendo que estou à beira das lágrimas e tenho dificuldade para contê-las. Eu fico cada vez menor.
"Ah, qual é! É claro que não ignorava o fato de que estava arruinando o artigo de um jovem jornalista e talvez até sua reputação. Mas eu tinha um trabalho a fazer", diz Fritz Wengler. "Meu partido me deu instruções e me identificava com ele. Eu estava convencido de que podia salvar o país caso me mantivesse firme. Consenso não leva você a lugar nenhum."
Ele me conta como, quando era membro estudante do FDJ, ele foi enviado para proteger a Casa dos Ministérios na Leipziger Strasse, contra os insurgentes em 17 de junho de 1953 -o dia em que grandes manifestações estouraram em Berlim Oriental. Ele fala sobre encrenqueiros, tropas e situações complicadas. Mas no final, eles recolocaram tudo sob controle e ele pôde retornar para a escola, ele se tornou um jovem brigadeiro no centro de telecomunicações de Upper Spree e escreveu um diário inspirador sobre a vida de um brigadeiro, um diário que o levou primeiro à conferência dos escritores de Bitterfeld e posteriormente lhe rendeu um emprego no jornal "Junge Welt".
"Eu já fiz o que você fazia no 'Berliner Zeitung': sair, escrever, então sair de novo. Eu sempre fui mais rápido que os outros e tinha um bom olhar", ele diz. Ele explica como escrevia seus artigos para incomodar as pessoas e como costumava usar toda oportunidade para apresentar um retrato da realidade.
"Ele está me fisgando", eu acho. Talvez ele queira dizer que 7 de outubro de 1989 tenha sido para mim o que 17 de junho de 1953 foi para ele; uma experiência que pode ter me tornado mais duro, mais sábio, mais consciente e, talvez algum dia, um vice-editor-chefe, que me possibilitaria participar das reuniões semanais do Comitê de Agitação do Comitê Central, para receber instruções que eu nem sempre entenderia, mas que seguiria assim mesmo por que não vieram de lugar nenhum, mas foram emitidas por pessoas que eu conheceria; confidentes, por assim dizer. Eu poderia ser mais outro representante de um poder que não existiria sem mim.
Cinquenta anosPouco depois, a esposa de Wengler nos traz uma tigela de batatas fritas e comemos algumas como velhos conhecidos; confidentes, por assim dizer.
"Nós já conversamos sobre aquele único 'Sim' por quatro horas", diz Wengler.
Eu digo para ele que aquele artigo da procissão de tochas volta recorrentemente para me assombrar, sempre que alguém com alguma queixa contra mim o copia e envia para todos, mostrando a todos que tipo de pessoa eu era.
"Então você quer se livrar dele?" pergunta Fritz Wengler, com um sorriso de piedade.
Ele me diz que já leu tudo o que foi publicado na Alemanha a respeito da Revolução Francesa. Foram necessários 50 anos até os historiadores começarem a fazer justiça aos jacobinos, ele diz.
Cinquenta anos.
Fritz, meu editor-chefe, fica lá lendo seus livros de história, esperando que esta lhe faça justiça. Muitos anos atrás, ele fez uma promessa que era bem maior do que a promessa que me fez naquela noite de outubro. Ele manteve uma quebrando a outra. É como ele vê e isso me coloca em seu barco. Seu 'Sim' permanecerá no meu artigo para sempre. Mesmo quando a memória viva se for, Fritz Wengler e eu permaneceremos inseparavelmente ligados naquele artigo, naquele jornal.
Algumas coisas simplesmente não podem ser corrigidas.
Tradução: George El Khouri Andolfato