O governo dos Estados Unidos vinha intensificando a pressão dia a dia.
Nesta terça-feira, o presidente afegão Hamid Karzai cedeu e anunciou que se submeterá a uma eleição de segundo turno contra o seu adversário, Abdullah Abdullah. Uma reincidência de fraude eleitoral poderia significar uma desmoralização para os Estados Unidos - e comprometer a condição do Ocidente como fiador da democracia.
A espera pelo resultado oficial da eleição no Afeganistão chegou ao fim.
Nesta terça-feira, a Comissão Eleitoral no Afeganistão deu um parecer contrário ao presidente Hamid Karzai - juntando-se assim à Comissão de Queixas Eleitorais, patrocinada pela ONU (Organização das Nações Unidas), que descobriu que cerca de um terço dos votos depositados nas urnas do país durante a eleição presidencial de agosto último foram inválidos. Agora Karzai enfrentará um segundo turno contra o seu adversário, Abdullah Abdullah, em 7 de novembro.
-
Hamid Karzai, 51, tem formação em Ciência Política na Índia. Em 2001, foi apontado como presidente interino do Afeganistão, após o ataque liderado pelos EUA, e em seguida ganhou as eleições presidenciais de 2004. Corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade
-
Abdullah Abdullah, 48, é médico. Em 1986, se juntou à resistência contra os soviéticos. Foi figura de destaque na Aliança Norte, que ajudou os EUA a derrubar o Taleban. Foi chanceler no governo interino de Karzai, até 2006
Karzai admitiu a derrota e afirmou que aceitará a decisão da Comissão Eleitoral, modificando a posição, que manteve durante semanas, de recusar a se submeter a um segundo turno, apesar dos numerosos indícios de fraude eleitoral. Segundo os resultados iniciais, Karzai vencia com uma maioria absoluta de 54% contra os 28% de Abdullah, que durante anos foi ministro das Relações Exteriores do Afeganistão. Agora, porém, ficou claro que a parcela de votos de Karzai ficou abaixo dos 50%.
As alegações de fraude e a aparentemente interminável espera pelos resultados finais paralisaram nas últimas semanas esse país devastado pela guerra. Os Estados Unidos enviaram o senador John Kerry, presidente do poderoso Comitê de Relações Exteriores, a Cabul, na tentativa de chegar a uma solução rápida. Kerry reuniu-se com Karzai em cinco ocasiões desde o último sábado para convencê-lo de que um segundo turno se fazia necessário. O ex-diplomata norte-americano Zalmay Khalilzad, que é bastante respeitado na região, também esteve em Cabul para defender a posição dos Estados Unidos.
O ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, também foi ao Afeganistão, e vários chefes de Estado e governo telefonaram para Karzai e rogaram a ele que retrocedesse. A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, intensificou a pressão no início desta terça-feira, afirmando: "Estou muito esperançosa de que teremos uma solução condizente com a ordem constitucional nos próximos dias".
Um passo importante rumo à democraciaApós Karzai ter anunciado que se submeteria a um segundo turno, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, manifestou satisfação:
"Esse é um passo importante à frente para garantir que haja um processo creditável para o povo afegão, que resulte em um governo que reflita a vontade popular", disse Obama em uma declaração pública. "Agora é essencial que todos os elementos da sociedade afegã continuem a se unir no sentido de promover a democracia, a paz e a justiça."
Para que Karzai cedesse foi necessária uma frenética atividade diplomática. Na sua declaração aceitando o segundo turno, ele afirmou:
"Nós acreditamos que a decisão da Comissão Eleitoral Independente seja legítima, legal e constitucional e ela fortalece a rota rumo à democracia".
Com essa iniciativa frenética, os negociadores conseguiram impedir uma segunda desgraça. A reputação do Ocidente, já seriamente prejudicada pela guerra que dura oito anos e pelo comportamento ocasionalmente autoritário das tropas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), corria o risco de sofrer um novo dano. A eleição presidencial, que foi anunciada pelo Ocidente como um passo rumo a um futuro melhor para o Afeganistão, transformou-se em uma farsa como resultado da fraude eleitoral.
A maior vitória do Taleban em oito anos"O que se pretendia era que as eleições fossem um marco na jornada do país rumo à democracia e à estabilidade", escreveu na edição de "Der Spiegel" desta semana Peter Galbraith, o ex-vice-enviado da ONU que foi exonerado devido às suas objeções à eleição fraudada. "Em vez disso, elas destruíram a credibilidade de Karzai tanto no Afeganistão quanto no exterior - e reduziram a confiança dos afegãos na democracia. Essa eleição garantiu ao Taleban a sua maior vitória estratégica em oito anos de guerra."
O fato de Karzai estar agora concordando com um segundo turno permite que o Ocidente, e especialmente os Estados Unidos, se safem por ora desse escândalo. Mas a ameaça persistirá caso o presidente sedento de poder tente novamente impor obstáculos a uma solução verdadeiramente democrática. Isso prejudicaria a imagem da comunidade internacional, que o colocou no cargo durante a Conferência do Afeganistão, realizada em Bonn, na Alemanha, em dezembro de 2001. Se, por exemplo, as urnas forem fraudadas ou surgirem outras irregularidades durante o segundo turno entre Karzai e Abdullah, o Ocidente ficará totalmente comprometido como fiador da democracia.
Raio-X do Afeganistão
-
Área: 652.230 km² (sem saída para o mar)
População: 33 milhões
Urbanização: 24% da população é urbana
Taxa de fertilidade: 6,5 crianças nascidas por mulher (4º maior do mundo)
Mortalidade infantil: 151 mortes por 1000 nascimentos (3º maior do mundo)
Expectativa de vida ao nascer: 44,5 anos
Grupos étnicos: pashtun (42%), tajik (27%), hazara (9%), usbeque (9%) e outros
Religião: sunitas (80%), xiitas (19%), outros
Alfabetização: homens, 43%; mulheres, 12%
Taxa de desemprego: 40%
Fonte: CIA World Factbook 2009
Mas mesmo se ele for reeleito por meios democraticamente aceitáveis, a questão ainda permanece: será que um governo sob a liderança de um homem como Karzai, que é considerado um fantoche do Ocidente desde que foi colocado no poder, na conferência de Bonn, e que agora está maculado pela prática de fraude eleitoral, será algum dia levado a sério?
Os diplomatas norte-americanos estão bastante conscientes desse
problema: eles não tiveram escolha a não ser suportar Karzai - que já foi a grande esperança dos Estados Unidos - ainda que ele tivesse se tornado parte do problema. A prioridade agora é encontrar uma solução de curto prazo, disse um representante graduado do governo dos Estados Unidos. A obstinação de Karzai está fazendo com que seja impossível para Washington forjar uma nova estratégia para o Afeganistão, e a decisão sobre os reforços com tropas dos Estados Unidos está suspensa até que não haja qualquer dúvida sobre o futuro governo afegão. "Por ora pode ser Karzai", disse o representante. "Mas no médio prazo, o Afeganistão precisa de um novo líder - e há uma carência enorme de candidatos apropriados."
A porta está escancarada para fraudes em novembroJá o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, disse na última segunda-feira à noite que o governo norte-americano não pode se dar ao luxo de adiar o envio de tropas adicionais ao Afeganistão até que o problema do governo afegão seja resolvido. Mas se Obama seguir em frente e começar a mandar reforços, ele terá que explicar por que deseja apoiar um governo corrupto.
O general norte-americano Stanley McChrystal solicitou a Obama mais 40 mil soldados. Atualmente os Estados Unidos respondem por 32 mil do total de 68 mil soldados da Força Internacional de Assistência de Segurança e possuem mais 33 mil soldados que não integram a estrutura dessa força no Afeganistão. A maioria dos afegãos não os vê mais como libertadores, mas sim como uma força de ocupação - e isso é parte do motivo pelo qual Washington está procurando uma nova estratégia para reconquistar a confiança da população afegã.
O Ocidente foi pego em uma armadilha de credibilidadeHá muito tempo o Afeganistão transformou-se em uma armadilha de credibilidade para o Ocidente. O país necessita urgentemente de assistência internacional, especialmente do Ocidente. Se a Otan se retirasse e deixasse o Afeganistão se virar por conta própria, conforme alguns países membros da organização continuam exigindo, o Ocidente perderia de uma vez por todas - isso seria uma capitulação frente ao Taleban e um sinal para o mundo de que é possível conquistar a Otan com ataques suicidas e táticas de guerrilha.
Agora, o acordo forçado de Karzai relativo a um segundo turno faz com que as agências fiscalizadoras das eleições, tanto afegãs quanto estrangeiras, se deparem com um novo dilema: ainda que a comissão eleitoral insista que está se preparando para um segundo turno e já tenha começado a imprimir o material necessário para uma segunda votação, o fato é que ninguém ainda reservou dinheiro para esse processo. A quase totalidade dos US$ 300 milhões (R$ 522 milhões) que foram necessários para a realização da primeira eleição saiu dos bolsos da comunidade internacional, e não se sabe que quantia poderá ser arrecadada para o segundo turno até o início de novembro.
Além disso, os críticos questionam se um segundo turno seria menos fraudado do que o primeiro. Eles dizem que não existe nada capaz de impedir uma repetição das centenas de milhares de "votos fantasmas" - indivíduos que se registraram com várias identidades para poderem votar inúmeras vezes - conforme ocorreu na eleição inicial. Além do mais, observadores independentes não serão capazes de viajar até as regiões remotas nas quais os auditores acreditam que ocorreu a maior parte das fraudes. Conforme disse um diplomata ocidental que está em Cabul: "No início de novembro as portas estarão escancaradas para o mesmo tipo de fraude".
O segundo turno também representa uma tarefa enorme para as tropas internacionais. Ainda que elas desempenhem apenas um papel de apoio, deixando que as forças afegãs forneçam segurança direta aos locais de votação, os soldados da Força Internacional de Assistência de Segurança ainda terão que superar enormes obstáculos logísticos. De fato, após a primeira votação, autoridades graduadas afirmaram que as unidades da Otan não ajudariam a proporcionar segurança caso houvesse um segundo turno. Este tópico certamente estará no topo da agenda quando os ministros da Defesa da Otan se reunirem em Bratislava no final desta semana.
A secretária de Estado norte-americana disse à CNN nesta terça-feira que Karzai provavelmente será o vencedor no segundo turno das eleições. "Creio ser possível concluir que a probabilidade de que ele vença um segundo turno é provavelmente bastante alta", disse Hillary Clinton.
Tradução: UOL