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22/10/2009

Jornalista se disfarça para descobrir como é a vida de um negro na Alemanha

Der Spiegel
Hannah Pilarczyk
O jornalista alemão Günter Wallraff realizou muita coisa na sua carreira. Ele revelou à população alemã como os chamados "trabalhadores hóspedes", imigrantes da Turquia, da Grécia, da Itália, da Espanha e de outros países que vieram para cá nas décadas de 50 e 60 e ficaram, são discriminados neste país. Ele revelou também os métodos de trabalho questionáveis do "Bild", o jornal tabloide mais vendido da Alemanha, e como os funcionários de centros de chamadas telefônicas são explorados. O seu projeto mais recente parece ser também o mais nobre. "Quero descobrir como é ser negro na Alemanha."
  • Der Spiegel/X-Verleih

    Günter Wallraff é o jornalista investigativo mais famoso da Alemanha. Ele ficou famoso ao disfarçar-se para revelar o lado oculto de várias questões sociais. No seu novo filme, ele se transformou em um homem negro para desmascarar a discriminação racial na Alemanha. No entanto, a sua abordagem está gerando críticas



O projeto envolve um livro, "Aus der schönen neuen Welt" ("Saído do Belo Novo Mundo"), e um filme, "Schwarz auf Weiss" ("Preto no Branco"), que será lançado em cinemas da Alemanha nesta quinta-feira (22/10). Para as filmagens, Wallraff fez com que um profissional o cobrisse de maquiagem marrom-escura, usou lentes de contato castanhas e uma peruca afro. Depois, usando o pseudônimo Kwami Ogonno, ele faz uma viagem pela Alemanha. Ele vai a um jogo de futebol na cidade oriental de Cottbus, visita um festival municipal em Magdeburg, tenta obter um local para montar uma barraca em um acampamento na Floresta de Teutoburg e leva o seu cão pastor alemão para uma sessão de treinamento canino em Colônia.

O filme revela o grau assustador do racismo, tanto o explícito quanto o latente, na Alemanha. Quando ele vai a festivais, as pessoas recusam-se a tomar cerveja no mesmo banco em que ele se encontra. Proprietários de imóveis recusam-se a alugar apartamentos para ele. As pessoas não parecem fazer cerimônia em chamá-lo pela palavra pejorativa alemã equivalente a "preto". E hooligans no leste da Alemanha chegam a ameaçá-lo com violência física.

Recepção na comunidade negra alemã
Só há uma coisa estranha quanto ao filme: se Wallraff deseja de fato saber como é viver como negro na Alemanha, por que ele não se deu ao trabalho de deixar que pessoas negras que moram no país respondessem à pergunta?

O modus operandi de Wallraff é disfarçar-se e filmar o que ocorre. As imagens são usadas para demonstrar e explicar aquilo que ele enfrentou ao andar disfarçado. Ele ficou famoso pelo seu filme de 1977, no qual infiltrou-se no "Bild" sob o pseudônimo de Hans Esser. Seis anos mais tarde, ele disfarçou-se de trabalhador imigrante turco, usando o nome Ali Levent. Mas será que esse método é apropriado para este seu novo tópico?

Os negros alemães estão em cima do muro quanto ao filme. "Achamos a mentalidade que está por trás do filme de Wallraff muito problemática", afirma Tahir Della, porta-voz da organização Iniciativa das Pessoas Negras na Alemanha (ISD, na sigla em alemão). "Conforme ocorre com frequência, vemos alguém falando por nós, em vez de conversar conosco". Noah Sow, educadora e músicista associada à organização fiscalizadora da mídia "Der braune Mob" ("A Multidão Marrom"), chega a acusar Wallraff de "ganhar dinheiro com o nosso sofrimento", não importando se ele "deseja realmente ou não combater o racismo".

Existe algo de estranho quanto à maneira como Wallraff lida com a questão do racismo no seu filme e livro, quando comparado à maneira com que ele abordou outros trabalhos jornalísticos. Por exemplo, no capítulo do livro sobre pessoas sem teto, as suas conversas com vários moradores de rua - incluindo Manfred, o empresário do setor de software, Walter, o motorista de caminhão, e Timo, o indivíduo que abandonou o curso secundário - ocupam diversas páginas. Mas não se veem transcrições de conversas com pessoas negras.

É verdade que em um episódio do filme Wallraff coleta relatos sobre negros que foram vítimas de discriminação em vários departamentos administrativos da Alemanha. E a seguir ele se disfarça para verificar ele próprio como é essa experiência. Acompanhado de Avad, um negro alemão, ele tenta se inscrever para o exame necessário para que se obtenha uma licença de caça. Mas os burocratas reagem agressivamente ao seu pedido e recusam-se a fornecer-lhe qualquer informação sobre o teste. No entanto, Avad não diz uma só palavra, e jamais lhe é perguntado o que sente quando funcionários públicos recusam-se a ajudá-lo a obter um emprego. No final, Wallraff também o tira de cena.

Em que pé se encontra o debate
A principal crítica feita ao filme de Wallraff refere-se ao fato de ele não ter mostrado como está avançado o debate sobre o racismo contra negros na Alemanha. Por exemplo, Della critica o filme por "não fazer menção alguma" a como os negros na Alemanha se organizaram. "Estamos felizes com o fato de o racismo ser discutido", diz ela. "Mas os grupos negros estão fazendo esta mesma coisa há mais de 25 anos".

Sow faz uma crítica similar. "Onde quer que se procure, seja na academia, na mídia ou nos relatórios anuais dos departamentos de combate à discriminação, existem informações sobre o racismo diário que estão acessíveis com o clicar de um mouse", diz ele. "Os brancos têm que parar de ignorar essas informações e de duvidar delas". Ele acredita que o único motivo pelo qual Wallraff teve sucesso em atrair atenção para o sofrimento de Kwami Ogonno foi o fato de ele ser "privilegiado no sistema racista, o que lhe permitiu a obtenção de resultados de pesquisas, publicações e depoimentos feitos por negros".
  • Der Spiegel/X-Verleih
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    Wallraff, antes e depois Para
    as filmagens, o jornalista fez com que um profissional o cobrisse de maquiagem marrom-escura, usou lentes de contato castanhas e uma peruca afro. Depois, usando o pseudônimo Kwami Ogonno, ele faz uma viagem pela Alemanha



As histórias dos negros alemães vem sendo divulgadas em filmes, livros e músicas há vários anos. Em 2006, o documentário "Alemanha Negra" foi lançado, mostrando lideranças negras alemãs na comunidade artística falando sobre como os negros são percebidos por si próprios e pelos outros. Em 2007, a atriz, entrevistadora de televisão e diretora de cinema negra alemã Mo Asumang lançou "Raízes Germânia", um filme sobre as raízes da sua família. E, em 2009, o rapper negro alemão Samy Deluxe lançou um álbum e um livro intitulados "Dis wo ich herkomm" ("É de Lá que eu Venho"). As duas obras apresentam uma análise polêmica do seu relacionamento com a Alemanha, o seu país natal.

No entanto, em resposta a tais críticas, Wallraff reclama, dizendo: "Infelizmente pouca gente assiste ou lê tais trabalhos. Seria muito melhor se eles tivessem uma plateia maior".

O que é verdadeiro na realidade?
Quando fazia pesquisas para a produção do seu filme, Wallraff chegou até mesmo a fazer contato com a ISD para obter relatórios sobre as experiências dos negros na Alemanha. Ele também consultou Mouctar Bah, um proeminente ativista dos direitos humanos na Alemanha. Mas nem Bah nem outros negros são entrevistados durante o filme.

"Isso teria transformado o trabalho em um outro filme", disse Wallraff a "Spiegel Online". "Conforme ocorreu em todos os outros papeis que desempenhei, este tratou-se de experimentar uma situação pessoalmente". Ele acredita também que foi totalmente apropriado usar o seu método de disfarce para a abordagem desta questão. "A minha abordagem faz com que o racismo cotidiano seja compreensível para os alemães", afirma ele, referindo-se, é claro, aos alemães brancos.

Quando assumiu a falsa identidade de um trabalhador imigrante turco vivendo na Alemanha, 25 anos atrás, Wallraff deu uma voz e uma face a um segmento da sociedade que, à época, era muito pouco representado na mídia alemã. Em 2009, conforme se constata com os exemplos de Mo Asumang, Samy Deluxe e muitos outros, os negros alemães estabeleceram firmemente a sua presença no cenário público. Mas Wallraff decidiu não inserir o seu personagem, Kwami, no mundo profissional. "Com o meu personagem Ali, eu quis expor a discriminação no universo trabalhista", diz Wallraff. "Mas, com Kwami, eu optei deliberadamente por um personagem que seria capaz de ajudar as pessoas a enxergarem basicamente os tipos de manifestações racistas que ocorrem no cotidiano".

Ausência de diferenciações sutis
Uma das coisas que Wallraff deixa claras no seu filme é a forma como as linhas divisórias entre raça e discriminação de classes tornam-se pouco distintas. Por exemplo, quando o seu personagem Kwami Ogonno circula pelo país sem usar uma jaqueta, levando apenas uma sacola plástica e falando um alemão carregado de sotaque, ele é geralmente tratado como qualquer outra pessoa economicamente marginalizada. Mas quando se veste com estilo e fala alemão sem sotaque ao visitar uma loja cara especializada em relógios em Düsseldorf, ele é tratado com extrema cortesia.

Quando proferiu o seu discurso sobre racismo em 2008, o então candidato presidencial Barack Obama tocou na questão de como os conflitos raciais e de classe muitas vezes estão entrelaçados. Ele falou sobre "os ressentimentos dos norte-americanos brancos" que sentem-se ameaçados pelos avanços feitos por negros na sociedade estadunidense. Barack prosseguiu, dizendo que "rotular os brancos norte-americanos de equivocados ou até mesmo de racistas sem levar em conta que eles estão se baseando em preocupações legítimas é algo que também amplia a divisão social e bloqueia o caminho rumo ao entendimento". Ao final, ele concluiu que tantos negros quanto brancos se beneficiariam se lutassem juntos por mais oportunidades.

No entanto, nem no filme nem no livro Wallraff alcança essa espécie de diferenciação sutil. No filme, Wallraff reclama particularmente de que, como negro, ele é "sempre definido exclusivamente com base na cor da pele". "Quando se é negro", diz ele em um dos poucos momentos em que há algum comentário, "as pessoas não se concentram - e sequer reconhecem - naquilo que realmente faz do indivíduo uma pessoa".

Mesmo assim, ele também parece cometer este mesmo pecado da super-simplificação no seu filme. "No meu papel, eu geralmente não tenho nenhuma história pessoal", diz Wallraff. "Eu era simplesmente 'o outro', 'o outro negro'".

Tradução: UOL

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