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23/10/2009

Segundo turno afegão: "A legitimidade não nasce apenas das urnas"

Der Spiegel
Gregor Peter Schmitz
Agora que o presidente afegão Hamid Karzai concordou com um segundo turno contra seu principal opositor Abdullah Abdullah, há preocupações que uma repetição da fraude que manchou o primeiro turno possa ser atribuída ao Ocidente. Brian Katulis, especialista norte-americano em Afeganistão, explica ao "Spiegel Online" por que as eleições ainda são vitalmente importantes para o futuro do país.

Spiegel Online: É possível organizar uma eleição no Afeganistão até o dia 7 de novembro?
Brian Katulis:
Os desafios no Afeganistão são tremendos. Fazer uma eleição em tempos de guerra é muito difícil. Acrescente a isso as dificuldades logísticas em um país sem infra-estrutura - dificuldades que devem piorar com a chegada do inverno - e leve em conta que esta é a primeira vez desde a queda do Taleban que as instituições afegãs estão liderando esse processo. Tudo isso significa que expectativas e padrões devem ser calibrados realisticamente. Nesta semana, foi anunciada a substituição de metade dos principais responsáveis pelas eleições, o que pode ou não levar a uma eleição mais limpa.
  • Emilio Morenatti/AP

    Hamid Karzai, 51, tem formação em Ciência Política na Índia. Em 2001, foi apontado como presidente interino do Afeganistão, após o ataque liderado pelos EUA, e em seguida ganhou as eleições presidenciais de 2004. Corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade

  • AFP

    Abdullah Abdullah, 48, é médico. Em 1986, se juntou à resistência contra os soviéticos. Foi figura de destaque na Aliança Norte, que ajudou os EUA a derrubar o Taleban. Foi chanceler no governo interino de Karzai, até 2006



Spiegel Online: Então devemos esperar outra eleição fraudulenta?
Katulis:
Estamos diante de um cenário em que precisamos avançar além do clichê de eleições "livres e justas" e buscar algo que seja "bom o suficiente" aos olhos do povo afegão e dos candidatos e facções concorrentes.

Spiegel Online: Isso seria bom o suficiente para os EUA? Eles aceitarão o presidente Hamid Karzai como legítimo mesmo que seja declarado vencedor de uma eleição viciada?
Katulis:
A legitimidade não nascerá apenas das urnas. Os líderes do Afeganistão - no plural, ou seja, não é apenas Karzai - vão conquistar legitimidade estabelecendo o compromisso de satisfazer as necessidades de seu povo e cumprindo essas promessas. O verdadeiro teste de legitimidade virá quando os líderes do Afeganistão fornecerem segurança, melhorarem o padrão de vida e providenciarem justiça aos cidadãos ordinários.

Spiegel Online: Mas é isso que Karzai promete há oito anos, com poucos resultados. Seu governo é considerado altamente corrupto e ineficaz. Quanta pressão Washington teve que colocar sobre ele ao menos para que mudasse de opinião sobre o segundo turno?
Katulis:
Não foi apenas Washington, mas uma série de líderes mundiais que trabalharam juntos para que ele refizesse seus cálculos políticos. Se lermos as declarações feitas pelo time de Karzai no último mês e contrastarmos com as declarações de Karzai na conferência com a imprensa nesta semana, é justo concluir que a frente diplomática - não apenas de Washington, mas também do Reino Unido, da ONU e de uma série de atores internacionais - deve ter surtido algum efeito.

Spiegel Online: Ainda assim, o senador John Kerry teve que conversar por horas em particular com Karzai.
Katulis:
A experiência do senador John Kerry com a frustração diante dos resultados de pesquisas pode ter sido útil em seu diálogo com Karzai. O senador Kerry fez referência a sua própria experiência nas eleições presidenciais de 2004, inclusive citando as questões sobre cédulas em Ohio.

Spiegel Online: Como o segundo turno vai impactar a decisão do presidente Barack Obama sobre o número de soldados no Afeganistão?
Katulis:
Suspeito que o presidente Obama não tomará decisões importantes sobre o número de tropas até o mundo ter uma noção melhor não apenas do segundo turno, mas também da reação do povo afegão aos resultados. Eu pessoalmente acho que seria pouco sábio o presidente Obama dedicar mais recursos significativos até termos um compromisso maior dos líderes afegãos com o combate ao tráfico de drogas e à corrupção e no avanço da governança. Também vale observar que os EUA essencialmente triplicaram sua presença militar no Afeganistão nos últimos três anos.

Spiegel Online: O general McChrystal, comandante norte-americano no Afeganistão, está colocando muita pressão no presidente Obama para que envie mais tropas ao país. Este tipo de pressão é inadequado ou compreensível? Afinal, ele está ponderando publicamente uma estratégia que anunciou oficialmente em março.
Katulis:
Como chefe das Forças Armadas, o presidente é quem dá as ordens. Os militares podem sugerir e oferecer conselhos e recomendações, mas, de acordo com nossa constituição e leis, o papel dos militares é cumprir as decisões do presidente.

Spiegel Online: Como os EUA podem seriamente pedir aos seus parceiros que enviem mais soldados com tantos debates nos EUA?
Katulis:
O Afeganistão continua sendo um importante desafio de segurança global, não apenas um problema de segurança nacional para os EUA. Todos podem fazer mais - com a condição que os líderes afegãos demonstrem que compartilham nossos objetivos.

Brian Katulis é integrante do Centro de Progresso Americano, um centro de estudos em Washington D.C. com laços com o governo Obama. Ele acompanhou as eleições presidenciais no Afeganistão em agosto como observador.

Tradução: Deborah Weinberg

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