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25/10/2009

Conheça Heinrich, o primeiro disc jockey do mundo

Der Spiegel
David Crossland
Neste mês, a cidade alemã de Aachen comemora o fato de ser a pioneira da discoteca, há 50 anos. O primeiro DJ do mundo, Heinrich, contou à "Spiegel Online" como transformou a música em história, mais ou menos por acidente.

A tranquila cidade de Aachen, no oeste da Alemanha, que se tornou notícia quando Carlos Magno viveu lá há 1.200 anos, alega com credibilidade ter sido o berço da discoteca - o que significa que o primeiro disk jockey da história foi Heinrich.

Até o final dos anos 50, as danceterias de todo o mundo usavam exclusivamente bandas ao vivo. Os discos foram jogados fora porque eram considerados "música morta".

Depois, em outubro de 1959, o empresário austríaco Franzkarl Schwendinger lançou uma nova moda. Ele abriu um restaurante exclusivo, o Scotch Club, em Aachen, e contratou alguém para tocar uma série de discos para o entretenimento dos clientes. Ele teve a ideia depois de ouvir a Rádio Luxembourg, uma estação que logo se tornou "cult"
tocando música pop, algo até então desconhecido no mundo conservador das rádios alemãs da época.

Marlene Bergamo/Folha Imagem
Cheias de luzes, danceterias modernas lembram pouco as tradicionais "discos" onde a atividade de DJ nasceu



Heinrich, cujo verdadeiro nome é Klaus Quirini, era um jovem repórter de 19 anos do jornal local e havia sido enviado para escrever uma matéria sobre o novo e estranho fenômeno de tocar discos em público. O homem que estava no palco, um cantor de ópera de Colônia, mudava os discos sem dizer nada, e o público não estava muito impressionado.

Milagre surpreende o público
"O lugar estava cheio, mas o entretenimento não estava indo muito bem, então começamos a reclamar", disse Quirini à "Spiegel Online". "Eu estava bebendo uísque pela primeira vez na vida e talvez tenha falado um pouco mais alto, então o gerente veio até mim e disse: por que você não tenta?"

Cheio de coragem proporcionada pelo álcool, ele pulou para cima do palco. "Eu disse: senhoras e senhores, nós vamos enrolar as pernas das nossas calças e inundar esse lugar porque "Um Barco Virá" ["A Ship Will Come"] com Lale Andersen!"

"Um Barco Virá", do cantor alemão Lale Andersen, era um sucesso na época e o público ficou surpreso com a sagacidade com que ele introduziu a música, disse Quirini. "As pessoas começaram a aplaudir, acharam que um milagre havia acontecido."

Uma nova tendência nascia naquela noite em Aachen. Alguns argumentam que o Scotch Club, com suas baladas alemãs sentimentais e seu rígido código de vestir - paletós e gravatas para os homens e saias para as mulheres - abriram caminho para as discotecas dos anos 70 e para os modernos clubes techno com shows de laser e dançarinos girando em jaulas suspensas.

Aachen deu o pontapé
As discotecas tomaram conta da Europa durante os anos 60 e só chegaram aos EUA nos anos 70, diz Quirini. De fato, ele se lembra de não ter ficado muito impressionado com os lugares que viu em Nova York durante uma viagem em meados dos anos 80. "Não vi nenhuma discoteca bacana lá.
Estávamos 10 a 15 anos à frente deles."

"A concorrência tirava sarro de nós no começo, mas a história mostrou que estávamos certos", diz Quirini, hoje com 68 anos. Schwendinger, dono do Scotch Club, sabia que estava fazendo um bom negócio e ofereceu imediatamente um emprego de tempo integral a Quirini, por 800 marcos por mês, um ótimo salário naquela época. Mas seu pai, um juiz importante que conduzia um grande julgamento político na época, insistiu que ele mudasse o nome se aceitasse o emprego.

"Primeiro eu queria me chamar Egon, porque havia um sucesso na época chamado 'Oh, Egon, Eu Só Bebi um Copo a Mais por Amor a Você'. Mas nós não tínhamos esse disco", disse Quirini. "Tínhamos um outro que dizia 'Heinrich, Eu Só Tenho Você'. Então eu mudei meu nome para Heinrich.
Quando eu ando entre as pessoas entre 70 e 80 anos de Aachen, elas ainda me chamam de Heinrich."

DJ Heinrich trabalhou no Scotch Club por oito anos, acrescentando o rock and roll a seu repertório de baladas alemãs, Frank Sinatra e Dean Martin. Ele se mudou para a Suíça e montou a primeira discoteca do país nos Alpes em 1968. Depois trabalhou em uma rádio pirata transmitida a partir de um barco ancorado no porto de Hamburgo por três meses, até que a cidade ameaçou processá-lo e ele teve que ir embora.

"Ou você tem ou não tem"
A palavra discoteca foi cunhada poucos anos depois que Quirini subiu pela primeira vez no palco - o Scotch Club se auto-intitulava Jockey Dance Bar, uma descrição que não vingou, o que não é de surpreender.

O que é necessário para ser um bom DJ? Heinrich certamente parecia levar jeito. "Você deve dar uma olhada nas letras e usar isso quando anunciar as músicas, não é algo que você pode aprender. Ou você tem ou não tem. Lembro de dançar sobre uma mesa vestido com um kilt para ensinar às pessoas como dançar o twist." Ele tinha um estoque de centenas de frases engraçadas e piadas para divertir o público entre as músicas.

Quirini parou de ser DJ há décadas, mas continua antenado nas novas tendências - como os clubes tiveram que abrir caminho para os gigantescos templos techno dos anos 90, e como a cena agora está voltando para os lugares pequenos.

Nos anos 60, muitos jovens queriam se tornar DJs porque o trabalho parecia ser uma forma fácil de fazer dinheiro e atrair mulheres.
Quirini lutou para ter a ocupação de DJ reconhecida como trabalho e formou a Organização Alemã de Disc Jockeys em 1963.

Alguns podem dizer que a forma como os DJs alemães se organizaram foi algo típico desse país altamente regulado e organizado. "Todos os DJs que quisessem se tornar membros tinham que mostrar sua certidão negativa da polícia", disse. Nos anos 70, ele fez uma campanha bem-sucedida para que os DJs tivessem acesso a seguro de saúde e aposentadoria - uma atitude não muito "rock'n'roll", talvez, mas útil para a estabilidade a longo prazo.

Público mais velho continua ativo
A palavra "disco" saiu de moda e hoje designa o estilo dos anos 70, consagrado para sempre no filme "Saturday Night Fever", de 1977 - globos espelhados, luzes e John Travolta balançando os quadris. Para Quirini, a discoteca tradicional é muito diferente do que ele chama de "discos", ou os modernos clubes noturnos. Seu tipo de discoteca continua vivo e ativo, apesar de o público estar envelhecendo, diz ele.

"Em uma discoteca um DJ modera e traz a música para a vida com suas introduções. Na discoteca moderna, as faixas são trazidas à vida por efeitos de luz, fumaça ou bolhas de sabão. O auge da discoteca não acabou. Em Colônia, por exemplo, no Wiener Steffie (nota do editor - uma grande pista de dança com bancos de madeira, que com frequência faz festas temáticas), o público vai de 35 a 80 anos e se os DJs ousam tocar Britney Spears, eles o mandam embora."

"Eu ainda vou a discotecas, mas só a lugares onde as pessoas da minha idade vão", diz Quirini. "Para o Tanzpalast, em Aachen, por exemplo, onde você com certeza não encontrará gente dançando dentro de jaulas."

Tradução: Eloise De Vylder

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