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26/10/2009

Clubes noturnos, corrupção e a nova normalidade do Iraque

Der Spiegel
Bernhard Zand
A vida está voltando às ruas do Iraque à medida que a melhora na segurança significa abertura de teatros e cinemas, restaurantes lotados e uma classe média emergente. Mas a violência continua sendo um elemento da vida diária e a corrupção ameaça se tornar um fator debilitante.

Mohammed al-Rahhal usa costeletas, um terno branco e uma camisa vermelha aberta no peito. No palco de um clube noturno de Bagdá, ele canta, dança e bate suas botas no chão ao som da música. Uma banda toca atrás dele, e quatro mulheres jovens estão quase desmaiando ao seu lado - três delas magras, usando sapatos de salto alto e vestidos longos, e uma mais gordinha, um tanto desajeitada.

O público do Khayyam - nome de um poeta persa - está bebendo cerveja bem gelada, beliscando aperitivos libaneses e se balançando de forma exuberante com a música. Um segurança coleta pequenas armas na entrada. Então, um homem de negócios se levanta, caminha até o palco, tira um bolo de notas de dinheiro do bolso e sussurra algo no ouvido do cantor.

"Longa vida à juventude de Adhamiyah!", grita Rahhal no microfone. Adhamiyah é um dos distritos sunitas de Bagdá que, até dois anos atrás, estava sob controle total da Al Qaeda.

"Longa vida à juventude de Madinat Al-Sadr!", diz ele, referindo-se a uma favela xiita no leste que foi cenário de ataques suicidas devastadores. O público aplaude. O homem de negócios joga pilhas de notas de mil dinares e de um dólar no ar. O dinheiro é espalhado pelos ventiladores de teto, e cai no chão lentamente, como confete.
  • Jim Young/Reuters

    O presidente norte-americano Barack Obama cumprimenta e abraça soldados norte-americanos durante visita-surpresa a Camp Victory, em Bagdá, no Iraque, em abril deste ano


"Isso é o Iraque!", grita um homem de origem turca de Kirkuk em meio ao burburinho. "Esse país nunca se tornará uma teocracia!" A euforia aumenta e se transforma em um alegre pandemônio. Jovens - curdos e árabes, sunitas, cristãos e xiitas - pulam e dançam em frente ao palco.

Entusiasmo pela vida
O primeiro clube noturno de Bagdá começou a receber clientes há um ano - o primeiro a abrir desde os anos 90, quando Saddam Hussein de repente assumiu uma postura religiosa depois da derrota na primeira Guerra do Golfo, no Kuait, e proibiu a venda de álcool. E a lei seca foi suspensa por nada menos do que o primeiro-ministro conservador do Iraque, Nouri al-Maliki.

Hoje, depois de anos de violência e morte, um entusiasmo pela vida tomou conta do Iraque. Nas noites de quinta-feira, comboios de casamento intermináveis encostam nos pontos de checagem do hotel, fazendo com que o trânsito congestione por quilômetros. Logo que chegam, 50, ou talvez até 60 casais se unem em casamentos em massa em estabelecimentos com nomes como Mansur, Babil e Palestina. Até o toque de recolher, à meia-noite, lanternas coloridas iluminam a rua Abu Nuwas, um famoso passeio ao lado do rio.

Os restaurantes de carpa no parquet ao longo do rio Tigre, que ficaram desertos durante os anos de terror, estão novamente muito ativos. Assim como os policiais que oferecem segurança para o bairro, normalmente em troca de dinheiro vivo.

No final de junho, as tropas norte-americanas começaram a se retirar, e em janeiro, o Iraque pós-guerra irá às urnas pela terceira vez. O novo Estado está gradualmente tomando forma depois de um nascimento violento que custou a vida de quase 100 mil iraquianos e de mais de 4 mil norte-americanos. Não é o modelo de democracia árabe que o ex-presidente George W. Bush e o ex-primeiro-ministro Tony Blair vislumbravam. Nem é a República Islâmica que os mulás de Teerã gostariam de ter como vizinha. E certamente não é o califado assassino que o líder da Al Qaeda Osama bin Laden queria estabelecer na Mesopotâmia.

Um nacionalista autoritário
É um Estado em que centenas de pessoas continuam a morrer todos os meses em ataques e tiroteios. A Al Qaeda foi forçada a se retirar para o norte, onde têm lançado um número cada vez maior de ataques nas últimas semanas. Agora que a guerra entre sunitas e xiitas cessou, a organização terrorista quer reacender o conflito entre os árabes e os curdos.

No sul, o governo está tentando incrementar a produção de petróleo, mas em junho, quando abriu concorrência para oito poços de petróleo, só conseguiu encontrar investidor para um deles. O Iraque é o país mais rico do Oriente Médio, depois do Irã; ele tem o petróleo que a Síria, o Egito e a Turquia não têm; ele tem a água que não é tão disponível na região; e tem uma elite com boa escolaridade. Mas também tem um governo que ainda não começou a explorar seu potencial.

O resultado é um regime contraditório que, tanto para os iraquianos quanto para o resto do mundo, levará algum tempo para se acertar. É um Estado de polícia - mas que garante também liberdades que não eram vistas na memória recente. É uma superpotência do petróleo cheia de nepotismo e corrupção, onde um punhado de parlamentares se esforça para moldar um Estado constitucional. É um país cujo primeiro-ministro, durante meros três anos e meio no poder, deixou de ser um candidato de compromisso com os xiitas para ser um nacionalista autoritário que, apesar disso, permite uma quantidade de liberdade incomum.

Uma nova e rica classe alta emergiu. Durante o mês de jejum religioso do Ramadã há dois anos, os jatos comerciais que voavam entre Bagdá e Beirute, Amã e Dubai, não eram preenchidos nem pela metade de passageiros. No festival desse ano, que aconteceu desde o final de agosto ao final de setembro, os voos foram reservados com bastante antecedência. A elite do Iraque foi às compras. No afluente distrito de Karrada, em Bagdá, que recebeu novos refrigeradores, bicicletas de crianças e aquecedores de querosene depois da invasão dos EUA, em 2003, em uma onda inicial de prosperidade, as concessionárias agora vendem carros Porsche e Jaguar.

"Enchendo os bolsos"
Há muito dinheiro em circulação, mas de onde ele vem? "A corrupção sempre foi ruim", diz a ex-ministra das Telecomunicações Juwan Fouad Masum. Ela diz que as próximas eleições, em janeiro, estão estimulando os políticos e funcionários do alto escalão a roubarem ainda mais. "Nenhum ministro ou diretor-geral sabe se ele continuará em seu posto depois das eleições. Então estão enchendo seus bolsos agora."

Masum mora em um condomínio em Kadissija, uma área residencial guardada por unidades de elite curdas, onde os ministros de Saddam costumavam viver. Quatro carros estão estacionados em frente à sua casa e a piscina brilha azulada ao entardecer.

"O problema", diz ela, "é o sistema". Quando um ministro sai do governo, toda a equipe também sai, até o homem que faz o chá. É um costume que foi restaurado da era de Saddam. Há um favoritismo generalizado, que também leva à incompetência e à corrupção. Masum agora tem um emprego dirigindo uma firma de consultoria. Ela diz que prefere trabalhar fora do que em seu próprio país.

Corrupção debilitante no novo Iraque
Durante os últimos anos, o Iraque passou a ser o segundo país mais corrupto do mundo, superado apenas pela Somália no índice de corrupção da organização não-governamental Transparência Internacional. O ex-ministro do Comércio Abd al-Falah Sudani, junto com seus irmãos, desviou tanto dinheiro do programa de distribuição de alimentos - conhecido como o Sistema Público de Distribuição - que decidiu que seria melhor fugir para Dubai. Seu avião já estava no ar quando ordenaram que ele voltasse a Bagdá, onde ele foi preso no aeroporto.

"Temos dez horas de eletricidade por dia, 15 horas de liberdade de expressão e 24 horas de corrupção", dizem os curdos no norte do Iraque, onde dois clãs controlam o poder há décadas. Um desses grupos é liderado pelo presidente iraquiano Jalal Talabani.

O parlamento em Bagdá é na verdade uma das instituições responsáveis por investigar abusos como este. "Nosso salário mensal é equivalente a US$ 10 mil (R$ 17 mil)", diz a parlamentar Maysoon al-Damluji. "Além disso, cada um tem o direito a 30 seguranças com um salário mínimo de 300 euros (R$ 750) por mês." Ela não quer falar mal de seus colegas, acrescenta, mas é muito comum que parentes e amigos sejam colocados nas folhas de pagamento dos políticos, independente de saberem alguma coisa sobre segurança.

"Nosso governo é como uma grande máfia"
Por outro lado, os seguranças genuínos devem proteger os membros do comitê parlamentar de orçamento e anticorrupção, que incluem homens como Sheikh Sabah al-Saadi e mulheres como Shada al-Moussawi. "Você não faz amigos quando mostra que o conselheiro de segurança nacional tem legalmente o direito a uma equipe de 60 pessoas, mas que na verdade tem 273 pessoas em sua folha de pagamento", diz Moussawi. Quando seu comitê decidiu convocar um ministro, ela recebeu telefonemas de ameça: "Foi uma época interessante para mim no parlamento. Com certeza não vou concorrer a outro mandato".

Al-Saadi também conta como ele foi ameaçado de ser "liquidado fisicamente". "Nosso governo é como uma grande máfia", diz ele. "Nós descobrimos redes que se estendem praticamente por todos os ministérios". Seu próprio partido xiita, Fadila (Virtude), não está envolvido, diz, porque não tem ministros no gabinete.

O partido de Saadi se juntou à Aliança Nacional Iraquiana (INA), uma das duas coalizões de forças políticas que - dependendo dos resultados das eleições - apontará o próximo primeiro-ministro. Um desenvolvimento importante acontecerá em janeiro, quando os curdos decidirão quem preferem - a INA dominada pelos xiitas ou a lista de candidatos lançada pelo primeiro-ministro Maliki. E a decisão dos curdos dependerá de qual aliança tem mais chances de garantir a eles o grande prêmio: a cidade petrolífera de Kirkuk, que é disputada tanto pelos curdos quanto pelos árabes.

"Comparada aos conflitos que ameaçam entrar em erupção depois das eleições, a corrupção pode ser, na verdade, um fator de estabilização", diz Joost Hiltermann, um analista para o Grupo de Crise Internacional. "A corrupção mantém a mente das pessoas focada no dinheiro e não na violência", diz Hiltermann.

Religião e política não se misturam
Até agora no Iraque pós-Saddam, o costume tem sido de incluir o maior número possível de grupos políticos no governo. Mas essa abordagem teve suas desvantagens, e a principal é que evitou o surgimento de uma oposição.

"O modelo de governo de unidade nacional falhou", diz Safiya Suhail, membro liberal do parlamento. Houve uma época em que os EUA depositavam sua esperança em políticos como ela. Quando o presidente George W. Bush fez seu discurso de Estado da União ao Congresso em fevereiro de 2005, ela estava presente como símbolo de um Iraque novo e democrático.

Suhail entrou no parlamento na lista do ex-primeiro-ministro Iyad Allawi. Depois de atuar independentemente por alguns anos, agora ela mudou de lado e se aliou ao primeiro-ministro Maliki. Ela recentemente apareceu como a única mulher sem lenço na cabeça quando ele apresentou sua lista - Maliki foi um dos primeiros a entender que a política e a religião não se misturam no Iraque.

Seu próprio partido era originalmente chamado de Dawa Islamiya (Missão Islâmica). Agora ele abandonou o adjetivo, referindo-se a ele simplesmente como Dawa. Outros partidos seguiram o exemplo de Maliki. O partido concorrente não se chama mais Casa dos Xiitas, mas enfatiza o grande número de líderes sunitas que se juntaram a ele. Outros grupos escolheram nomes ideologicamente neutros como O Centro, A Constituição ou Os Qualificados. Todos os partidos querem evitar suspeitas de representarem movimentos religiosos específicos. Ainda há muitos temores de que possa haver uma guerra civil entre sunitas e xiitas, apesar de parecer pouco provável no momento. Há esperança de que no novo Iraque, os velhos conflitos sejam travados na arena política.

"Aprendemos muita coisa"
Diferente de quatro anos atrás, a bandeira verde do profeta, meias luas e espadas não dominam mais os cartazes eleitorais. "Aprendemos muita coisa", admite Sheikh Jalaleddin Saghir. Ele é xiita como Maliki, mas um rival rigoroso de seu ex-aliado.

O que incomoda Saghir no primeiro-ministro é exatamente o que o torna popular entre os eleitores: sua impulsividade e sua tendência de governar o Iraque como autoritarismo. "Maliki usou muito do seu talento para desapontar seus amigos e fazer inimigos", diz Saghir.

Muitos no Iraque sentiram o embate - que começou com as milícias xiitas em Basra, Kut, Hilla e Madinat al-Sadr, quando Maliki aplicou medidas duras em março de 2008. Alguns de seus antigos parceiros de coalizão reclamaram que a brutalidade da operação - chamada de Arrancada dos Cavaleiros - era comparável às campanhas punitivas de Saddam no sul.

Maliki também não evita o confronto com os curdos - ele luta contra os guerreiros Peshmerga toda vez que eles tentam exercer sua influência além de sua zona autônoma. Algumas tribos sunitas isoladas, cujos conselhos de "despertar" foram responsáveis por expulsar a Al Qaeda do centro do Iraque, são ignoradas por Maliki. E por fim, há o grupo dos Mujahedin do Povo do Irã, antes apoiado pelos EUA, que defende a queda da República Islâmica do Irã. Makiki ordenou que tropas do governo atacassem a base do grupo no campo Ashraf em julho, resultando em 11 mortos e 500 feridos, de acordo com os rebeldes iranianos.

"Maliki está bêbado com o poder nesse momento", diz um membro do parlamento que presenciou seu comportamento em primeira-mão em uma reunião secreta com os chefes dos partidos representados no parlamento. "Ele nos ameaçou abertamente lá: se alguém trouxesse algo contra ele e seu partido Dawa, ele definitivamente encontraria algo contra a pessoa também."

Decreto secreto
O primeiro-ministro tem "uma forte veia autoritária", diz Kadhim al-Rikabi, que lidera uma associação pela mídia independente. Ele diz que é assustador ver com que determinação o governo está silenciando a imprensa: "Se a ocupação dos EUA nos deixou com algo bom em termos legislativos, foram os decretos de mídia de 2003", diz Rikabi. Na época, o pró-consul norte-americano Paul Bremer estabeleceu um conselho independente de mídia, cujos membros deveriam ser eleitos pelo parlamento.

Mas desde que Maliki está no poder, reclama Kadhim, ele nomeou pessoalmente os conselhos de mídia, que podem fornecer concessões para a mídia impressa e eletrônica. Ele reintroduziu as leis de censura da era de Saddam, e intervém diretamente se desaprova algum artigo. Ele também assinou um decreto em 6 de agosto e enviou para os ministros do Interior, da Defesa e da Saúde. "O primeiro-ministro e supremo comandante ordenou", escreveu, "que todos os funcionários do governo que, depois de ataques terroristas, derem detalhes sobre as vítimas para a imprensa, deverão ser punidos severamente".

A ideia de notícias patrióticas de Maliki pode ser vista nos jornais do canal do governo Al Iraqiya. O líder sempre se senta à frente da mesa, com seus subordinados à esquerda e à direita tomando notas de seus discursos. Os elogios à sabedoria de sua liderança são compulsórios - da mesma forma que eram nos dias da ditadura.

Bom dia Bagdá
"Ah, veja como nossa cidade é bonita no outono", disse um apresentador há poucos dias no programa "Bom Dia, Iraque". "Agora vamos ouvir uma música de Qassim Sultan."

Imagens de uma Bagdá surrealmente bela apareceram na tela, com crianças se balançando no parque de diversões Saura, um padeiro colocando pão no forno, policiais dirigindo o trânsito na praça Kahramana. "Bom dia, Bagdá", cantou Qassim Sultan, "bom dia, nossa vida, inshallah (se Allah quiser), será maravilhosa."

Essas são músicas das Sirenes, remanescentes do governo de Saddam. A realidade em Bagdá é diferente, mas sem dúvida é melhor do que nós últimos anos repletos de violência, ataques e barbárie, que são a base de comparação para o Iraque de hoje.

Tradução: Eloise De Vylder

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