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28/10/2009

"Precisamos agora de uma terapia de choque no Afeganistão", diz estrategista militar

Der Spiegel
Cordula Meyer
Os norte-americanos estão profundamente divididos quanto à estratégia correta para o Afeganistão - eles deveriam enviar mais tropas ao país ou retirarem-se completamente? Em uma entrevista a "Der Spiegel", o ex-coordenador estratégico da Casa Branca no Afeganistão, Bruce Riedel*, diz que até o momento a guerra tem sido feita de forma barata. Ele argumenta que é necessário enviar mais tropas e comprometer-se mais com a missão.
  • AP

    Tropas no Afeganistão: "Durante oito anos tentamos obter sucesso no Afeganistão de forma barata. Colhemos um resultado previsível, que é a confusão em que estamos mergulhados"

Spiegel: Na semana passada o presidente afegão Hamid Karzai concordou finalmente com um segundo turno eleitoral. Como foi que o governo dos Estados Unidos conseguiu isso?
Riedel:
O presidente Obama deve bastante ao senador John Kerry pelos esforços feitos por ele nos últimos dias no sentido de convencer Karzai de que este teria que aceitar um segundo turno.

Spiegel: Com o argumento de que, caso contrário, os Estados Unidos não enviariam tropas adicionais?
Riedel:
Foi precisamente essa a ameaça que o senador Kerry transmitiu com muita energia. Após o total fiasco do primeiro turno, com a descoberta de mais de um milhão de votos falsos para Karzai, nenhum membro do congresso dos Estados Unidos, pelo menos entre os democratas, apoiaria o envio de mais soldados ao Afeganistão sob tais circunstâncias.

Spiegel: E, sem tropas adicionais, o governo afegão estaria fadado ao fracasso?
Riedel:
Sem mais recursos, ou seja, mais tropas e outras coisas, nós não reverteremos o ímpeto que o Taleban acumulou nesta guerra. Se deixarmos a situação continuar como está, nós nos veremos em um atoleiro. Precisamos de uma terapia de choque no Afeganistão neste momento. Primeiro temos que consertar o processo eleitoral afegão. A seguir é preciso lançar uma campanha de contra-insurgência - dotada também de componentes políticos. Precisamos tentar alcançar e convencer os elementos moderados do Taleban.
  • Brookings Institution

    Bruce Riedel estudou história e diplomacia na Universidade Harvard. A sua carreira teve início há cerca de 30 anos e ele trabalhou para a CIA, para o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca e para dois secretários de Defesa dos Estados Unidos. Atualmente, ele é especialista em Paquistão e Afeganistão na respeitada Brookings Institution. No início deste ano, ele ajudou a criar uma nova estratégia para Washington relativa ao Afeganistão e também assessorou o presidente Obama



Spiegel: O povo norte-americano não deveria estar chocado com a quantidade de tropas e de verbas necessária para que façamos uma diferença no Afeganistão? Pouco após ter tomado posse, o presidente Obama aprovou o envio de mais 17 mil soldados. Agora o comandante das operações militares aliadas no Afeganistão, general Stanley McChrystal, está pedindo mais 40 mil soldados norte-americanos. Tanto a população quanto o governo estão profundamente divididos quando se trata de decidir a linha de ação necessária.
Riedel:
Bom, é muito evidente que existe um tremendo cansaço em relação a essa guerra, e o povo, com razão, está perguntando porque nós não estamos fazendo nenhum progresso. Durante oito anos nós tentamos obter sucesso no Afeganistão de forma barata, e acabamos presenciando um resultado previsível, que é a confusão em que atualmente estamos mergulhados. Agora temos que investir recursos na guerra, e dar ao general McChrystal mais dois anos para que ele trabalhe. Depois disso deveremos avaliar se a estratégia funcionou.

Spiegel: Qual a importância da decisão de Obama de enviar ainda mais tropas ao Afeganistão?
Riedel:
Estamos em um estágio decisivo. A situação na guerra está se deteriorando tão rapidamente que daqui a um ano poderíamos nos ver em uma situação irrecuperável na qual a única questão seria: como nos retiraremos com o mínimo de baixas?

Spiegel: Durante semanas Obama tem cogitado um aumento das tropas. Que facção da Casa Branca vencerá? O general McChrystal ou o vice-presidente Joe Biden, que deseja limitar o engajamento dos Estados Unidos no Afeganistão?
Riedel:
O presidente está bastante consciente de que o país encontra-se dividido. Mas com a sua capacidade de liderança, ele está em uma posição que lhe permite persuadir os norte-americanos de que a guerra no Afeganistão é uma guerra necessária.

Spiegel: Mas o que acontecerá se ele decidir dar ouvidos a Biden?
Riedel:
O argumento constante do vice-presidente tem sido de que nós deveríamos aplicar uma abordagem puramente contra-terrorista e nos basearmos principalmente nas aeronaves da CIA operadas por controle remoto e nas forças especiais de elite. O problema é que foi isso essencialmente o que George W. Bush fez durante sete anos - e ele fracassou.

Spiegel: Mas Biden não é o único que tem essa opinião.
Riedel:
Até o momento Biden vinha sendo um solitário, mas agora ele está obtendo cada vez mais apoio, particularmente no congresso, à medida que as pessoas questionam cada vez mais o rumo que o presidente está dando a esta guerra.
  • Romeo Gacad/AFP

    Soldados americanos vigiam base militar ao sul do Afeganistão, próximo à fronteira com o Paquistão



Spiegel: Mas a questão central é: o Ocidente deve se dedicar à tarefa de "construção de país" no Afeganistão ou se limitar a perseguir a Al Qaeda?
Riedel:
A segunda abordagem não funcionará. A chamada "construção de país" ganhou erroneamente uma má reputação e, no Afeganistão, ela não está fadada ao fracasso. O Taleban é uma minoria, e todas as pesquisas demonstram que a maioria dos afegãos ainda deseja que nós defendamos o seu país contra os extremistas. Mas nós não podemos nos dar ao luxo de esperar. Muito em breve poderemos presenciar uma verdadeira insurgência nacional em vez de uma rebelião que está confinada ao sul e ao leste do país.

Spiegel: Mas Biden ainda deseja que nós nos foquemos especialmente no Paquistão.
Riedel:
A estratégia do presidente Obama baseia-se no entendimento de que Paquistão e Afeganistão são dois países distintos, mas a guerra é uma só, e de que a estabilidade é necessária para ambos. Também seria um grande erro, no momento em que o Paquistão está começando a fazer a coisa certa ao combater os extremistas no Vale Swat e no Waziristão, enviar um sinal de que estamos desistindo da luta bem ao lado, no Afeganistão.

Spiegel: Como ex-coordenador, você desempenhou um papel na revisão da estratégia dos Estados Unidos para o Afeganistão e o Paquistão. Assim sendo, você não pode estar muito satisfeito com as discussões atuais.
Riedel:
Existe um debate saudável e sensato em andamento sobre a quantidade de recursos que nós deveríamos investir nesta guerra. O presidente tem uma tarefa difícil pela frente para persuadir os seus colegas democratas, mas ele ainda conta com um capital político suficiente. Obama demitiu o predecessor de McChrystal e escolheu pessoalmente o general, que argumentou que a abordagem correta em termos de contra-insurgência é o foco na proteção do povo afegão.

Spiegel: O general McChrystal está tentando aplicar no Afeganistão muitas das lições aprendidas durante a guerra no Iraque. Será que Obama aprendeu com o seu predecessor, George W. Bush, a lição de que, quando se trata de volume de tropas, é preciso ouvir os militares e não os políticos?
Riedel:
Este é o desafio. A equipe de segurança nacional de Obama precisa garantir que não deixará os políticos norte-americanos dirigirem a guerra no Afeganistão. Obama adiou a sua decisão, por causa das eleições afegãs. Eu suspeito que o presidente dará ao general McChrystal pelo menos um parte significativa daquilo que este deseja.

Tradução: UOL

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