O presidente afegão Hamid Karzai tem sido bastante elogiado por curvar-se à pressão internacional para que aceitasse um segundo turno eleitoral. Mas os mesmos problemas que afligiram o primeiro turno não desapareceram, e o baixo comparecimento do eleitor e as fraudes poderão implicar em um resultado igualmente problemático. -
Hamid Karzai, 51, etnicamente Pashtun, tem formação em Ciência Política na Índia. Ele chegou a apoiar o Taleban, mas rompeu com eles a partir dos sinais de que o grupo estava caindo sob a influência de extremistas estrangeiros, como Al Qaeda. Em 2001, foi apontado como presidente interino do Afeganistão, após o ataque liderado pelos EUA, e em seguida ganhou as eleições presidenciais de 2004. Corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade. Karzai diz que negociação de paz com Taleban é prioridade se for reeleito
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Abdullah Abdullah, 48, é médico. Em 1986, se juntou à resistência contra os soviéticos. Foi figura de destaque na Aliança Norte, que ajudou os EUA a derrubar o Taleban. Foi nomeado chanceler no governo interino de Karzai, posto que ocupou até 2006. Seu pai era Pahtun e sua mãe era Tajik, e Abdullah é visto como favorito entre os Tajiks. Com promessas de combater a corrupção, pode obrigar Karzai a disputar um segundo turno
Se há algo que é preciso elogiar em Abdullah Abdullah é o fato de que ele não desiste facilmente. Na última segunda-feira, o ex-ministro das Relações Exteriores afegão colocou-se diante de uma multidão de jornalistas para falar mais uma vez a respeito das eleições. Abdullah afirmou que, para garantir que o segundo turno planejado para 7 de novembro seja "livre e independente" - ou seja, para assegurar que o segundo turno não seja tão repleto de corrupção quanto o primeiro -, cabeças terão que rolar na comissão eleitoral. Algumas pessoas diriam que isso é uma ingenuidade; outras simplesmente classificariam isso tudo como briga de campanha.
Mais especificamente, Abdullah está exigindo a demissão de Azizullah Ludin, que o presidente Hamid Karzai nomeou para o cargo de diretor da Comissão Eleitoral Independente (CEI). Pouco após a eleição, esta organização de confiança de Karzai anunciou uma vitória esmagadora do atual presidente. Foi só após uma pressão maciça do exterior que a organização admitiu que havia algo de errado em relação à eleição - ou quanto aos resultados apresentados pela CEI. Um relatório patrocinado pela Organização das Nações Unidas (ONU) que foi divulgado em 19 de outubro último determinou que quase um terço dos votos obtidos Karzai nas eleições de 20 de agosto era fraudulento. E isso fez com que Karzai deixasse de ter uma maioria clara dos votos.
Mesmo assim, Ludin não pretende deixar o cargo. No último fim de semana Ludin pôde ser visto a falar com entusiasmo sobre as suas previsões para o resultado do segundo turno. O estranho a respeito disso não é apenas o fato de que o cargo de Ludin proíba que ele faça qualquer tipo de previsão eleitoral, mas também a maneira como ele fala abertamente sobre a sua preferência política, sem o menor constrangimento. "Teremos uma nova eleição", declarou Ludin recentemente ao "New York Times". "E teremos o mesmo resultado. Karzai vencerá".
Em resposta, Abdullah chamou a declaração de Ludin de "um escândalo" contra o qual devem ser tomadas medidas apropriadas.
Esperanças equivocadasMesmo assim, até onde se pode dizer, não parece provável que as previsões de um novo fiasco feitas por Abdullah venham a mudar muita coisa quanto à eleição de 7 de novembro. De fato, o Afeganistão parece muito mais estar rumando para outra eleição fraudulenta que praticamente não contará com nenhum monitor independente. O Ocidente está deliberadamente fazendo vistas grossas para todo o problema porque os líderes em Washington e nas capitais europeias não suportarão mais uma tentativa fracassada de transformar o Afeganistão em uma democracia. A última coisa com a qual o presidente Barack Obama deseja lidar antes de enviar milhares de soldados adicionais à região são questões irritantes, como, por exemplo, saber se os afegãos estão se registrando com nomes diferentes para poderem votar diversas vezes.
O senador John Kerry, o diretor do Comitê de Relações Exteriores do Senado, percebeu recentemente como Karzai pode ser teimoso e anti-democrático quando visitou Cabul como emissário da Casa Branca. A missão de Kerry era convencer Karzai a concordar com uma eleição de segundo turno. Ele acabou conseguindo, mas o senador teve que se empenhar muito para convencer Karzai. Após conversas, regadas a intermináveis xícaras de chá, que não levavam a lugar algum, Kerry finalmente expôs as coisas a Karzai de uma forma menos diplomática: se Karzai não concordasse com o segundo turno, os Estados Unidos sairiam do Afeganistão. A ameaça surtiu efeito. E o fato de os Estados Unidos terem elogiado Karzai como sendo um grande estadista devido à sua decisão foi na verdade o cumprimento mais venenoso já feito pela Casa Branca em muito tempo.
No fim das contas, todos os governos ocidentais - incluindo o da Alemanha - concordaram com um acordo sujo. A chanceler Angela Merkel chegou a ficar tão entusiasmada que elogiou publicamente Karzai por ter obedecido à mais básica das leis eleitorais do país. É raro que uma liderança política tão cautelosa quanto Merkel apoie abertamente um político que deixou claro que, para ele e o seu clã, a democracia é apenas uma irritante escala intermediária na rota para o poder. Nos seus vários discursos, ele observou também que o Ocidente não deseja que a segunda eleição provoque qualquer comoção e que os países ocidentais querem que ele seja o "nítido" vencedor.
Poucas perspectivas de justiça e legitimidadeQuando chegar o momento da eleição de 7 de novembro, é provável que ninguém se importe muito com o fato de as circunstâncias em torno do segundo turno não serem muito diferentes daquelas que marcaram o fracassado primeiro turno. Apesar do fato de que 200 monitores eleitorais serão enviados a postos de votação espalhados pelo país, nem mesmo Kai Eide - o diplomata norueguês que é o enviado especial da ONU ao Afeganistão - acredita que estes fiscais farão muita diferença.
Assim como várias outras autoridades da ONU, Eide espera apenas que a eleição não seja apenas uma repetição da farsa de 20 de agosto. Mesmo assim, após ter passado bastante tempo em Cabul, Eide tornou-se um realista. "Eu não espero ser capaz de eliminar a fraude em um período de duas semanas", disse Eide na última sexta-feira aos jornalistas. "Mas o que eu espero, e o que tentarei fazer, é reduzir o nível de fraude".
Reduzir a fraude é uma coisa, mas a ONU não será capaz de fazer nada quanto ao problema subjacente. Durante o processo de registro de eleitores, centenas de milhares de títulos eleitorais falsos foram colocados em circulação. Esses cartões ainda estão circulando, e eles ainda poderão ser utilizados no segundo turno. E, além disso, há outras questões perturbadoras. Primeiro, a chegada do inverno tornará a tarefa dos fiscais eleitorais mais difícil, especialmente nas zonas rurais do país. Segundo, o fato de o tempo disponível para a fase de planejamento da eleição ser limitado significará que a missão de monitoramento contará com menos gente - e com ainda menos flexibilidade - para realizar a sua tarefa. Da mesma maneira, em várias áreas no norte e no leste do país, as pessoas sequer serão capazes de votar já que os temores quanto à segurança impossibilitarão o funcionamento de diversos locais de votação.
Raio-X do Afeganistão
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Área: 652.230 km² (sem saída para o mar)
População: 33 milhões
Urbanização: 24% da população é urbana
Taxa de fertilidade: 6,5 crianças nascidas por mulher (4º maior do mundo)
Mortalidade infantil: 151 mortes por 1000 nascimentos (3º maior do mundo)
Expectativa de vida ao nascer: 44,5 anos
Grupos étnicos: pashtun (42%), tajik (27%), hazara (9%), usbeque (9%) e outros
Religião: sunitas (80%), xiitas (19%), outros
Alfabetização: homens, 43%; mulheres, 12%
Taxa de desemprego: 40%
Fonte: CIA World Factbook 2009
"O prefeito de Cabul"O Ocidente continua exigindo que a eleição seja legítima. Mas a maior probabilidade de anulação de qualquer alegação de legitimidade reside no fato de que parece provável que o comparecimento dos eleitores às urnas será baixo. Já na primeira eleição, somente cerca de 40% dos afegãos qualificados para votar compareceram às urnas. Mas, desta vez, ao considerar que o Taleban está ameaçando usar uma violência maciça contra quem participar do segundo turno, muitos observadores preveem que os eleitores mostrarão muito menos entusiasmo para votarem na eleição de novembro. E caso o índice de participação fique abaixo de 30%, será difícil para os lideres em Washington e Berlim sequer fingir que houve uma eleição genuína ou que existe um presidente legítimo.
Tendo em vista essa miríade de fatores, é altamente improvável que Abdullah Abdullah tenha uma chance, sequer remota, contra Karzai. Este último é descrito de forma zombateira como sendo meramente o "prefeito de Cabul", uma ironia feita para enfatizar o fato de que as forças militares do governo exercem pouco ou nenhum controle sobre grandes áreas do país. Mas nem mesmo isso pode anular o fato de que ele ainda controla uma rede que funciona no país - e ninguém pode também negar que ele ainda é capaz de pelo menos arrecadar o dinheiro para formar tal rede. De toda forma, os indivíduos em volta de Karzai estão convencidos de que o seu líder emergirá vitorioso do segundo turno.
O que não se sabe ainda é se alguma pessoa em Cabul ou em qualquer outra região do país dará ouvidos às justificadas reclamações feitas por Abdullah após a eleição. Como indicação disso, algumas horas após a entrevista coletiva que Abdullah concedeu à imprensa, Karzai rejeitou os apelos para que demitisse o diretor da comissão eleitoral sem citar qualquer motivo para a decisão.
Tradução: UOL