Os jornais norte-americanos nunca enfrentaram um período tão ruim quanto o atual. Nos últimos seis meses eles amargaram uma queda média de tiragem da ordem de 10,6%. Agora os especialistas estão propondo uma solução radical: auxílio estatal. Mas as reações contra essa proposta acumulam-se - mesmo dentro da própria indústria.
Todos os anos, a primeira tarefa dos alunos da Escola de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Colúmbia é reunirem-se na "World Room". O nome desse histórico salão na Avenida Broadway é derivado do "New York World", o velho jornal fundado pelo fundador da escola, Joseph Pulitzer. É nesse aposento que a escola anuncia os prêmios Pulitzer anuais. Os aspirantes a jornalistas entram no local cheios de respeito e temor.
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Medida desesperada Nos últimos seis meses,
os jornais norte-americanos amargaram uma queda média de tiragem da ordem de 10,6%. A crise suscitou um debate sobre a possibilidade de o governo socorrer as empresas de comunicação
A seguir, o reitor da instituição os saúda com um discurso austero, mas encorajador, sobre o futuro da profissão e a respeito das perspectivas do jornalismo - uma discurso encorajador para prepará-los para o papel que eles assumirão no "Quarto Poder" da democracia norte-americana.
Há quem tenha dúvidas quanto ao tipo de mensagem que o reitor Nicholas Lemann está passando atualmente para os seus alunos, no momento em que a mídia dos Estados Unidos enfrenta a maior crise existencial da sua história. Será que ele não deveria recomendar aos estudantes que procurassem uma profissão diferente?
Lemann ri. "O que eu digo a eles é que o jornalismo não está desaparecendo, mas sim remodelando-se de uma forma bastante fundamental", declara ele durante uma entrevista a "Spiegel Online". "Sob o ponto de vista de um aluno que deseja ser repórter em regime de tempo integral e encontrar um emprego para iniciantes, a situação no momento não é tão ruim assim".
Ou é? Os mais recentes números referentes à tiragem dos jornais norte-americanos estão piores do que nunca. A tiragem diária média, segundo o Departamento de Análise de Tiragem, caiu 10,6% de abril a setembro deste ano em relação ao mesmo período de seis meses em 2008 - uma queda muito mais rápida do que aquela de 7,1% registrada no período de outubro a março.
O veículo que apresentou o pior índice foi o problemático "San Francisco Chronicle": a sua tiragem sofreu uma queda de mais de 25%, chegando a251.782 exemplares. Entre os 25 maiores jornais dos Estados Unidos, somente o "Wall Street Journal" acusou um aumento de tiragem, embora de anêmicos 0,6%, tendo superado o tradicional ocupante do primeiro lugar, o "USA Today", que teve uma queda de tiragem de 17%.
Ofertas de demissão remunerada a cem editores e repórteresMas não é só a tiragem que está diminuindo. A "New York Times Company", que também é proprietária do "Boston Globe", jornal que vem apresentando problemas, anunciou mais um prejuízo trimestral nesta semana (US$ 35,6 milhões, o equivalente a R$ 62,5 milhões), alimentado pela redução contínua da renda com publicidade. Embora isso não tenha sido tão ruim quanto se esperava, a "Gray Lady" ("Dama Cinzenta", apelido do "New York Times", devido ao fato de o jornal apresentar muito texto e poucas fotografias) fez ofertas de demissão remunerada a cem editores e repórteres, na tentativa de cortar um total 150 empregos da companhia.
Os leitores e as empresas que fazem publicidade no jornal estão diminuindo, e todo mundo está reduzindo os custos. Segundo vários estudos, a quantidade total de funcionários das redações dos jornais dos Estados Unidos caiu para cerca de 40 mil em 2009, o menor número já registrado desde 1971. Este não é exatamente um número capaz de encorajar um jornalista iniciante.
Será que isso é um prenúncio do fim do lendário jornalismo norte-americano? Esta é a grande pergunta formulada - e parcialmente respondida - por um abrangente estudo publicado na semana passada pela Escola de Jornalismo Lemann. Escrito por Leonard Downie, ex-editor do "Washington Post", e pelo professor de jornalismo Michael Schudson, o relatório de cem páginas - o mais abrangente já publicado até hoje sobre o assunto - alega que o antigo modelo empresarial dos jornais não está mais funcionando.
O jornalismo está entrando em uma fase de "reconstrução caótica", um "momento de transformação" histórico com um final sombrio. "A era dos jornais dominantes e das influentes divisões de redes de notícias está rapidamente dando lugar a uma outra na qual a coleta e a distribuição das notícias está mais dispersa", escreveram os autores.
"Medida desesperada"O Relatório Downie/Schudson, conforme ele é amplamente conhecido, manifesta um otimismo cauteloso quanto à possibilidade de o jornalismo sobreviver, mas não tenta minimizar a gravidade da situação. Ele recomenda que sejam aplicadas sugestões bastante radicais e polêmicas para que se reinvente a mídia sem matar o "jornalismo responsável", aquele jornalismo crítico, revelador de sujeiras, questionador do poder, mas dispendioso, pelo qual os Estados Unidos são famosos.
O relatório propõe que as organizações de mídia sejam transformadas em entidades sem fins lucrativos, o que permitiria a elas receber doações que poderiam ser deduzidas do imposto de renda. Ele desafia as redes públicas de rádio e televisão a expandirem a sua cobertura jornalística e a compartilharem essa cobertura com os jornais. O relatório propõe ainda "mais cooperação" entre os diferentes veículos de comunicação.
No entanto, a proposta mais drástica - e instantaneamente polêmica - é a de financiamento governamental.
"Não estamos propondo que o governo socorra o governo com verbas, e tampouco estamos sugerindo que o governo aplique vários subsídios diretos aos jornais, conforme acontece em vários países europeus", garantem os autores, antecipando a potencial reação contra as propostas. "E também não estamos recomendando o financiamento nem o controle governamental direto das redes ou estações de televisão".
O que eles recomendam é um fundo nacional, usando taxas já recolhidas pela Comissão Federal de Comunicação (FCC, na sigla em inglês), para o financiamento do jornalismo de nível local. Eles imaginam uma estrutura semelhante a da Fundação Nacional para as Artes (NEA), que é financiada pelo governo, mas que atua de forma independente.
O furor provocado pelo relatório foi imediato - e o barulho foi maior dentro do próprio universo da mídia. E a mais notável reação foi a do crítico, blogger e professor de jornalismo Jeff Davis. Durante a apresentação festiva do relatório na biblioteca pública da cidade de Nova York, ele levantou-se subitamente da sua cadeira no auditório e questionou as informações apresentadas, afirmando que estas se constituem em uma "medida desesperada".
"Não há crise alguma", escreve Jarvis no seu blog. Para ele, a "responsabilidade coletiva" que o relatório exige da sociedade para salvar a mídia de notícias não passa de "jornalismo socializado". E este é um termo explosivo nos dias de hoje, quando os inimigos do presidente Barack Obama o acusam diariamente de ser adepto do "socialismo".
Uma barreira contras a publicidadeOutras críticas se seguiram. "Ao levar-se em conta que certos Estados, como a Califórnia, já enfrentam enormes déficits, declarando-se em estado de emergência nacional, que quantidade de dinheiro poderia estar disponível para ser doada a esse tipo de jornalismo?", indaga o blogger especializado em mídia Drew Grant. Até mesmo Howard Kurtz, o crítico especializado em mídia do "Washington Post", enxerga "a potencial marca de agendas políticas ocultas" na proposta de financiamento governamental.
Dean Lemann não compartilha dessas preocupações. "Nas universidades existem muitas atividades de pesquisa louváveis financiadas pelo governo e que apresentam bastante sucesso", afirma ele. "Tudo se resume a como construir a proteção e erigir uma barreira. Durante anos isso tem funcionado também em relação à publicidade. Nós nos acostumamos a este sistema, que funciona bem".
De qualquer forma, a Escola de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Colúmbia não parece estar sofrendo com a crise, e o entusiasmo dos alunos também não diminuiu. No primeiro dia de aulas do atual semestre, Lemann saudou 207 alunos na "World Room", quando estes ingressaram no programa de mestrado da universidade - na sala havia 43 alunos a mais em relação ao ano passado.
Tradução: UOL