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30/10/2009

James Murdoch: "A News Corp. sempre foi rebelde"

Der Spiegel
Susanne Amann e Isabell Hülsen
Em Londres (Reino Unido)

A News Corp. de Rupert Murdoch não é apenas um dos maiores impérios de mídia do mundo, também é um dos mais controversos. A "Spiegel" falou com James Murdoch a respeito da imagem da empresa, a especulação de que ele poderia assumir o lugar de seu pai, Rupert, e o futuro da notícia online.

Spiegel: Sr. Murdoch, há quanto tempo o senhor tem medo do futuro?
Murdoch:
Fico surpreso por você ter essa impressão. A News Corp. é uma empresa que tem um apetite real por mudanças.

Spiegel: Em 2000 o senhor disse: "Se eu tiver que ler outra coisa a respeito de sobrevivência no futuro digital ou qualquer tolice repleta de ansiedade como isso, eu darei um tiro em mim mesmo". Hoje o senhor faz discursos inflamados a respeito de como está cada vez mais difícil para empreendimentos comerciais realizarem um jornalismo lucrativo na era da internet. Se isso não é medo...?
Murdoch:
O medo do futuro na internet nos persegue desde os anos 90, com as mesmas conferências e os mesmos artigos de jornal. Mas a transformação digital não está mais no futuro, ela já está aqui, e a News Corp. não tem medo dela. Meu discurso em Edimburgo há poucas semanas foi direcionado ao monopólio público da BBC. As barreiras estão caindo na internet: não há mais um mercado de TV, não há mais um mercado de jornais e revistas e não há mais um mercado online. Na verdade, há apenas um mercado dentro do qual todos nós operamos. Não importa mais quem é que transmite os uns e zeros pela internet. A "BBC" compete com a "Spiegel" na internet atualmente, mas ela recebe dinheiro público.

Spiegel: Ainda assim, as pessoas se acostumaram a uma maior autoconfiança da gigante de mídia News Corp.
Murdoch:
O que me incomoda é que simplesmente não é possível ter uma discussão razoável a respeito desse assunto, porque o aparato de serviço público é considerado quase sagrado, portanto, intocável. Neste debate nós somos sempre acusados de uma coisa - de que a News Corp. só está interessada nos lucros. Sim, nós não temos vergonha de pedir um preço justo para enviar jornalistas ao Afeganistão, para disponibilizar a eles uma infraestrutura em campo, nem de investir na segurança deles. Mas quando a concorrência começa a ficar acirrada por agentes subsidiados, fica difícil. Afinal, a pergunta que precisa ser feita é: não é questionável para uma sociedade quando emissoras públicas detêm tamanho poder no mercado de mídia?

O clã Murdoch

  • Rose Prouser/Reuters - 08.11.1998

    James Murdoch (dir.) ao lado do pai Rupert Murdoch (centro) e do irmão Lachlan, nos anos 90


Spiegel: Mas a imagem da News Corp. até o momento é de ser um monopólio de opinião impiedoso. Vocês possuem 200 jornais, incluindo alguns poderosos como o tablóide "Sun", no Reino Unido, e o "Wall Street Journal", nos Estados Unidos, além dos canais de televisão da Sky até a Fox. Sempre que Murdoch aparece, surge indignação e medo. Esta imagem incomoda?
Murdoch:
Nós não nos preocupamos com o que é constantemente dito e escrito a respeito de nossa imagem. O que importa para nós é apenas o que os leitores e telespectadores pensam a nosso respeito. Na Itália, nós ganhamos cinco milhões de assinantes em cinco anos para nossa TV paga, no Reino Unido são quase 10 milhões - e todos eles vieram voluntariamente. Nós apenas dizemos: isto é o que oferecemos, este é um preço justo. Compre se você quiser. Caso contrário, então teremos que nos esforçar mais.

Spiegel: Na internet, vocês têm, em grande parte, oferecido seu conteúdo gratuitamente. Seu pai anunciou recentemente que a News Corp. em breve cobraria pelos sites de seus jornais. Por que vocês acreditam que conseguirão reeducar os leitores após todos esses anos de conteúdo gratuito?
Murdoch:
Ninguém disse que será fácil. Mas nós temos uma boa chance de sucesso porque acreditamos que nosso conteúdo é genuinamente distinto. Entretanto, o jornalismo digital é muito mais do que apenas um site de internet: há lojas de aplicativos para o iPhone e o BlackBerry; há aparelhos de leitura digital, cujas telas estão ficando cada vez melhores. Talvez o Kindle possa ainda não estar pronto, mas a tecnologia está progredindo rapidamente. A Apple lançará um leitor. Todos eles fornecerão uma oportunidade única para mudar nosso modelo de negócios.

Spiegel: O senhor já disse que não faz distinção entre blogueiros e jornalistas. Se é o caso, por que as pessoas deveriam pagar pelo jornalismo profissional?
Murdoch:
Não cabe a mim fazer distinção entre um membro de carteirinha do Clube dos Correspondentes Estrangeiros e alguém que escreve de sua casa. Cada cliente decide o que ele ou ela deseja ler. Como um executivo e investidor, eu tento obter o melhor conteúdo e então reuni-lo em um pacote - e isso custa dinheiro. Entretanto, eu me sentiria muito desconfortável se o jornalismo profissional fosse deixado aos cuidados de escritores por hobby - isso significaria que seria praticado apenas pelos ricos ou ociosos. A democratização do jornalismo promovida pela internet é algo bom, mas não deve levar a uma situação onde as pessoas deixem de ser remuneradas pelas suas realizações criativas - independente de serem blogueiros ou jornalistas.

Spiegel: O quanto seu pai ainda realmente entende a respeito de seus negócios? Seu biógrafo, Michael Wolff, escreve que Rupert Murdoch não gosta de ler e-mails e que mal consegue usar seu computador e telefone celular - não exatamente o que alguém chamaria de um pioneiro da internet.
Murdoch:
Eu só posso aconselhar você a usar a palavra biógrafo com cautela. Esse homem agora está desenvolvendo uma carreira para si mesmo ao escrever sobre uma empresa sobre a qual realmente não conhece. A ideia de que o presidente da News Corp. está desconectado da internet é falsa e, mais ainda, injusta. Afinal, foi meu pai que teve a visão de como poderia ser a TV digital - e ele tornou essa visão uma realidade com a Sky.

Spiegel: Em sua juventude o senhor foi o enfant terrible da família: você abandonou seus estudos em Harvard, tingiu seu cabelo de loiro, fez piercing e fundou uma gravadora de hip-hop. O que resta de sua rebeldia hoje?
Murdoch:
Permita-me responder desta forma: nós sempre fomos rebeldes. Como uma empresa, a News Corp. sempre foi uma forasteira, diferente das outras. Por exemplo, quando transferimos nossos jornais e a gráfica para este prédio, ele não estava exatamente no centro da cidade. Além disso, a BSkyB não fica no centro de Londres, nem moramos na chique Corso, em Roma. Em Hong Kong, nós estamos do outro lado do porto. Nós somos sempre forasteiros, um desafiante que tenta ser melhor e mais eficiente do que os agentes estabelecidos. O que eu quero dizer é isto: o rebelde em nossa família é o chefe e tem sido assim desde os anos 50.

Spiegel: O senhor aparentemente vê as coisas de modo um pouco diferente de quando tinha 20 e poucos anos. Naquela época, você não se interessava em trabalhar na empresa.
Murdoch:
Eu abandonei a universidade naquela época porque queria tentar algum empreendimento pessoal. Aquilo foi ótimo, eu aprendi muito...

Spiegel: ...e após apenas dois anos, você fez seu pai comprar sua gravadora Rawkus Records e começou a trabalhar na News Corp.
Murdoch:
Eu tive sorte por ter a chance de ingressar nesta empresa e fiz uso disso. Mas não ocorreu nenhuma mudança filosófica profunda por trás dessa ação. Nos anos 90, a News Corp. era simplesmente empolgante. Era o início da era da internet; nós demos alguns passos errados na internet que foram difíceis. Eu poderia trabalhar na Ásia...

Spiegel: ...e foi uma época durante a qual você passou por uma espécie de curso empresarial intensivo. Há dez anos, sua mãe se queixou que, em uma entrevista para a revista masculina "GQ", você usou demais a palavra "foda". A publicação "Intelligent Life" da revista "The Economist", por outro lado, escreveu recentemente que você falava como se tivesse engolido um relatório anual. O que aconteceu a você entre esses dois artigos?
Murdoch:
É decepcionante que você tenha desenterrado algo que minha mãe disse anos atrás. Eu me esforço bastante para não dizer palavrões. Às vezes eu não consigo cumprir esse objetivo, como muitos de nós. Você precisa formar sua própria impressão conversando comigo. Eu então viverei com as consequências, como qualquer um que lida com a imprensa.

Spiegel: Diferente do senhor, seu irmão Lachlan e sua irmã Elisabeth iniciaram suas carreiras na News Corp. e posteriormente deixaram a empresa. O senhor agora é visto como o príncipe herdeiro. Isso é um fardo?
Murdoch:
Eu não acompanho o debate sobre quem será o sucessor de meu pai. Esta é uma decisão do conselho diretor. Nós temos muitos acionistas e um conselho diretor independente. Eu apenas tento fazer meu trabalho da melhor forma possível e atingir nossas metas - que são extremamente ambiciosas. Eu sou responsável por alguns dos nossos principais mercados, como a Europa Ocidental e a também a Índia. Em muitos países nós ainda estamos desenvolvendo nossos negócios. Conseguir isso já é difícil o bastante e não deixa espaço para que eu pense em minha própria carreira. É assim que sempre respondi a essa pergunta. Talvez se continuar repetindo, algum dia alguém acreditará em mim.

Spiegel: Por que a questão da sucessão é tão evitada? Este seria um momento ideal para uma mudança de geração. A indústria da mídia está mudando dramaticamente; seu pai tem 78 anos...
Murdoch:
...mas ele é extremamente jovem (risos). Falando seriamente, nós temos uma equipe administrativa muito forte. Nós também estamos bem posicionados estrategicamente no momento. E se, quem sabe quando, o assunto surgir, então o conselho terá uma decisão a tomar.

Spiegel: Quão estreito é seu relacionamento com seu pai? Com que frequência vocês conversam por telefone; com que frequência vocês se veem?
Murdoch:
Nós conversamos com relativa frequência, pelos menos algumas vezes por semana - durante períodos intensos, quando há muito que fazer, talvez várias vezes por dia. Nós dois nos deslocamos com frequência, porque a News Corp. é ativa em muitos continentes. Mas se há decisões pendentes, nós telefonamos rapidamente ou realizamos uma videoconferência.

Spiegel: Seu pai parece confiar em você. Oito anos atrás, ele gastou bilhões na TV paga alemã Premiere - um investimento que ainda não se pagou. No ano passado, o senhor se envolveu de novo. Vocês estão tentando consertar as coisas?
Murdoch:
A situação é totalmente diferente hoje. Naquela época, nós éramos acionistas minoritários, um entre muitos. Agora somos o maior acionista e outros acionistas apoiam nossa causa. Nós temos uma boa equipe administrativa lá e podemos realmente cuidar dos negócios.

Spiegel: O Premiere deu prejuízo por 18 anos. Por que o senhor acredita que pode convencer os alemães a respeito das virtudes da TV paga?
Murdoch:
Muitas coisas não foram tentadas na Alemanha. Nós agora estamos trazendo experiência e uma equipe conosco. É claro, não é possível fazer tudo exatamente como fizemos no Reino Unido ou na Itália - a TV paga não tem uma fórmula, mas muitas coisas são semelhantes.

Spiegel: Vocês já investiram quase 1 bilhão e mudaram o nome do Premiere para Sky Deutschland. Mas a única coisa que cresceu até o momento foi o prejuízo.
Murdoch:
Nós ainda estamos no início na Alemanha. É preciso lembrar de onde veio esta empresa. Apenas do ponto de vista administrativo, há uma história muito forte. Nós a estamos virando do avesso completamente, nós melhoraremos o serviço e o aprimoraremos tecnologicamente; por exemplo, nós desenvolvemos sete canais de alta definição em um espaço muito curto.

Spiegel: Mas por que os alemães devem pagar pela televisão? Há mais canais gratuitos disponíveis aqui do que em quase qualquer outro lugar.
Murdoch:
Quando estávamos desenvolvendo a Sky Italia, nós enfrentamos as mesmas preocupações. E 20 anos atrás ocorreu o mesmo no Reino Unido. Lá as pessoas diziam que a BBC era maravilhosa e que os britânicos eram muito pão-duros para pagar um extra pela televisão. Nós agora estamos transformando a Sky Deutschland em um produto pelo qual as pessoas vão querer pagar.

Spiegel: O investimento na Alemanha ainda não se pagou para a News Corp. Ele ainda dá prejuízo.
Murdoch:
Estava claro para nós desde o início que isso seria difícil e que precisaríamos de tempo. Mas nós atingiremos nossas metas. Nosso negócio sempre foi um desafio. Pense nos marcos na história de nossa empresa: nós começamos em Adelaide nos anos 50, contra um rival muito maior no ramo de jornais; nós criamos a Fox News nos Estados Unidos, onde ninguém achava que havia uma necessidade. A Sky Deutschland será potencialmente um de nossos próximos maiores marcos.

Spiegel: Vocês estariam preparados para investir mais dinheiro se necessário?
Murdoch:
A Sky Deutschland está atualmente em uma posição financeira sólida. Nós veremos se ela precisará de mais capital no futuro. No momento, não há planos para maiores investimentos.

Spiegel: O senhor se transformou em uma espécie de solucionador de problemas na News Corp. - alguém que é chamado quando algo está saindo errado em algum lugar. Primeiro o senhor teve que cuidar do setor de internet, então tirar do vermelho a Star TV de Hong Kong. Agora a Sky Deutschland. Este é o último grande teste?
Murdoch:
Todo dia da minha vida é um teste. Se você não é continuamente testado, então seria maçante. Mas precisamos ficar alertas.

Spiegel: Sr. Murdoch, obrigado por falar conosco.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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