As Ilhas Maldivas no Oceano Índico podem desaparecer no final do século. O aquecimento global ameaça elevar o nível dos oceanos, submergindo o arquipélago de baixa altitude. Assim, o presidente recém-eleito Mohamed Nasheed se lançou à tarefa de impedir o avanço da mudança climática.
O presidente das Maldivas tem 1,58 metro de altura. Talvez ele já tenha sido mais alto, mas sua coluna foi arruinada na prisão.
Ele perdoou as pessoas que o feriram. Agora ele tem um problema muito diferente em mãos. No ponto geográfico mais alto, a altitude de seu país em relação ao nível do mar não ultrapassa muito a sua própria altura, e em média o país é cerca de um palmo mais baixo que ele. A não ser, é claro, por um monte gigante de plástico e entulho de construção que fica atrás da central elétrica em Male, capital do país, apesar de isso não contar. O que conta é o fato de que o Oceano Índico pode se elevar em meio metro até o final do século. Ao mesmo tempo, o atol de coral cresce a uma velocidade de um centímetro por ano - desde que os corais sejam deixados em paz, e o lixo não seja simplesmente jogado no mar. As coisas não são mais tão simples, e ainda assim a política exige mensagens simples.
Foi assim que sua excelência Mohamed Nasheed, o presidente da República das Maldivas, foi parar nas águas cristalinas ao redor da Ilha Girifushi, com o nariz a apenas alguns centímetros da superfície do mar, para o primeiro encontro de gabinete debaixo d'água do mundo. "Sr. Presidente!" chamou um jornalista indiano da Star TV, segurando um microfone telescópico como se fosse um bastão salva-vidas. "O que acontecerá se os países não conseguirem entrar num acordo para reduzir as emissões de CO2 na conferência climática de Copenhague?". "Todos nós iremos morrer!", respondeu o presidente. Todos riram. Depois teve peixe com curry.
Um país composto de 1.192 ilhasTodos riram quando, na tenra idade de 17, Nasheed disse que queria se tornar presidente das Maldivas. Seu pai o enviou para a Inglaterra, onde ele se tornou bacharel em estudos marítimos na Universidade de Liverpool. A dissertação de Nasheed foi um projeto para um sistema de transporte público local para as Maldivas; um país que é composto por 99,75% de água, com suas terras espalhadas ao longo de 26 atóis e um total de 1.192 ilhas.
Vivendo exilado no Sri Lanka, Nasheed, então com 36 anos, e outros integrantes da oposição fundaram um partido político na esperança de derrubar o líder das Maldivas, Maumoon Adbul Gayoom, o autocrata asiático que ficou mais tempo no poder. Gayoom não gostou das aspirações políticas de Nasheed, e fez com que o arrivista fosse preso 12 vezes por um total de seis anos, incluindo 18 meses numa solitária, onde ele foi agredido e torturado. A Anistia Internacional assumiu o caso de Nasheed, adotando-o como um de seus prisioneiros de consciência. Ele também sobreviveu a um estranho acidente de carro.
Hoje Nasheed tem 42 anos, e é o primeiro presidente democraticamente eleito das Maldivas. O líder que deixou o poder o congratulou. E as ilhas agora têm seu primeiro serviço público de balsa.
"Sr. Presidente, qual é a sua mensagem para as crianças do mundo?". Um ativista ambiental com antebraços elaboradamente tatuados abriu caminhou até Nasheed e segurou sua câmera de vídeo em frente ao rosto do presidente. Ele disse que interrompeu sua lua de mel especialmente para encontrar o líder do país.
Nos últimos meses, Nasheed se tornou uma espécie de Dalai Lama para os ambientalistas. Al Gore refere-se a ele ao alertar sobre as possibilidades da migração forçada em consequência da mudança climática. A revista "Time" recentemente incluiu Nasheed em sua lista de "Heróis do Meio Ambiente". Ele teve até mesmo uma audiência com a rainha Elizabeth da Grã-Bretanha.
Um apelo à ONUMas tudo isso foi antes de 24 de setembro de 2009, o dia da Assembleia Geral da ONU em Nova York. Barack Obama havia falado, assim como Muammar Gaddafi. Então Nasheed subiu na tribuna, um homem pequeno com traços comuns e o cabelo repartido impecavelmente.
"Estou muito satisfeito de estar aqui", começou o seu discurso, embora esta fosse simplesmente uma frase de efeito. "Passei muitas das sessões da Assembleia Geral preso numa cela quente, úmida e abafada, com as mãos amarradas e os pés presos."
Ninguém aplaudiu - não por má vontade, mas porque os delegados da ONU raramente estão na ponta de suas cadeiras quando um representante das Maldivas se endereça a eles. Normalmente, é o momento de sair para tomar café ou trabalhar em alguns documentos. A maioria das cadeiras estava vazia quando Nasheed falou, dando ao salão da assembléia uma tonalidade azul clara.
O presidente das Maldivas parecia bem mais novo do que sua idade, e poderia ser confundido com um jovem de 20 anos. "Garanto a vocês todo o apoio e cooperação da minha delegação", disse à comunidade global. Seu tom não era livre de ansiedade. Ele parecia tenso, hesitante, e com uma voz um tanto aguda. Quando ele disse a palavra "excelências", sua voz estava tão trêmula que soou mais como "excelênciiiiaaaas".
Ele falou sem anotações sobre os valores da democracia, que ele disse estarem gravados na pedra, e não escritos na areia. Dava pra dizer que ele havia assistido a muitos discursos de seu colega norte-americano. O queixo erguido, as pausas, os olhares rápidos de um lado a outro, e o movimento da cabeça antes do final de uma sentença faziam lembrar o presidente Barack Obama.
"Todas as praias (podem ser) perdidas para o aumento do nível do mar, todas as casas perdidas para as marés revoltas, todos os recifes perdidos para águas cada vez mais quentes", disse ele, com a voz se elevando, e sua articulação ficando cada vez menos clara. Nasheed disse que a redução dos cardumes de peixes ameaçavam todos os empregos no país, e todas as vidas correm o risco de serem perdidas para um clima mais extremo, tornando cada vez mais difícil governar o país, "até o ponto em que tenhamos que considerar abandonar nossa terra natal."
Tradução: Eloise De Vylder