A Série A da Itália, que já foi a liga de futebol mais emocionante do mundo, está em crise. Seus estádios estão ultrapassados, o comparecimento aos jogos caiu bastante e os atos extremos de violência estão aumentando. Mas agora o Juventus, o clube que foi o pivô de um escândalo de manipulação de juízes há três anos, está liderando um movimento de mudança.
Nuvens densas de fumaça de maconha pairam sobre a Curva Bulgarelli, área onde os torcedores fieis do Bologna ficam durante os jogos do time em casa. Seu líder, um jovem com cabeça raspada e uma corrente grossa em volta do pescoço, sobe sobre um corrimão em frente à cerca. Apesar de estar de costas para o campo, ele é capaz de dizer o que está acontecendo em campo simplesmente ao ver os rostos e gestos dos torcedores que ele incentiva a cantar junto com ele.
No jogo de contra o Livorno, mais uma vez é hora de os torcedores darem o melhor de si. Seu clube, que ganhou um campeonato nos anos 60 com o jogador alemão Helmut Haller, está lutando para evitar ser rebaixado da Série A. Em uma voz rouca, o homem de frente para a multidão grita "Forza Ragazzi!" ou "Força, rapazes!". Milhares de vozes ecoam suas palavras - mais de uma vez - até que o jogo termina em um feliz 2 a 0 para o time da casa.
Quando você está na presença desses perseverantes "tifosi", ou torcedores - que são barulhentos, entusiasmados e selvagens - parece que o apoio para o futebol na Itália está mais forte do que nunca. Mas a impressão é equivocada. De fato, não acontece muita coisa nas outras arquibancadas do estádio de Bolonha, onde cerca de 80% dos lugares estão vazios.
Quer seja em Bolonha, Catania, Siena ou Parma, a maioria dos clubes da principal liga de futebol da Itália, a Série A, sofreu uma queda dramática no número de espectadores. Mesmo os estádios das maiores cidades - como Roma, Milan e Turin - raramente ficam lotados. Há uma década, a primeira liga da Itália tinha tantos espectadores quanto a Alemanha e o Reino Unido. Mas hoje, é uma história completamente diferente. Enquanto a Premier League da Inglaterra e a Bundesliga da Alemanha ainda preenchem 90% da capacidade de seus estádios semana após semana, os times da Série A italiana normalmente jogam em estádios metade cheios.
A era de ouro de outroraDurante anos, o futebol da Série A foi um espetáculo. O auge começou no verão de 1984, quando o argentino Diego Armando Maradona saiu do Barcelona e foi para o Nápoles - e chegou no estádio de helicóptero. Desde então, os jogos eram um desfile de astros mundiais. Mas os dias de jogadores como Maradona, Michel Platini, Lothar Matthäus, Gabriel Batistuta e Zinédine Zidane mostrando seus talentos diante de estádios lotados se foram há muito tempo. Hoje, a Série A - uma das ligas mais emocionantes do mundo - está em péssimas condições.
Durante anos, o maior problema da liga foi a extrema violência das torcidas rivais de hooligans brigando umas contra as outras, ou contra os seguranças, nos dias de jogos. Algumas fatalidades aconteceram, como a do policial que apanhou até a morte em 2007 em uma briga de rua em Catania, na Sicília.
Por outro lado, os estádios italianos também estão totalmente desprovidos de serviços. Enquanto os estádios do Reino Unido e da Alemanha foram transformados em shopping centers do futebol e ir aos melhores jogos é considerado um programa para a família, os estádios da Itália são fortalezas de concreto sem decoração. Mesmo o fato de a Itália ter ganhado a Copa do Mundo de 2006 não conseguiu incentivar a virada tão necessária à situação. O chamado caso "Calciopoli" de 2006 fez com que muitos torcedores perdessem a confiança na liga. O escândalo se deu porque Luciano Moggi, o gerente do time de Turin, o Juventus, pressionou os árbitros para decidirem jogos a favor de seu time. Como punição, a equipe foi relegada à segunda da liga.
A crise estrutural da liga também afetou o desempenho em campo. Embora os clubes italianos ainda dominassem os jogos entre os clubes europeus nos anos 90, dentro de duas temporadas, os jogadores da Bundesliga poderão até mesmo conseguir assegurar mais posições na Liga dos Campeões do que os jogadores da Itália. Se isso acontecer, a Série A cairá para o quarto lugar na Europa.
Em meio a essas circunstâncias, ninguém ficou surpreso quando os dois últimos superastros que estavam na Itália abandonaram o país neste verão. Por razões financeiras, o Milan foi obrigado a vender o brasileiro Kaká para o Real Madrid por 65 milhões de euros (R$ 167 milhões), e o Inter de Milão trocou o artilheiro sueco Zlatan Ibrahimovic com o Barcelona pelo jogador camaronês Samuel Eto'o e uma taxa de 40 milhões de euros (R$ 102 milhões) de transferência.
O homem que lidera a virada Mas agora, o Juventus, o clube que causou o maior prejuízo para o futebol italiano com suas tentativas de influenciar os árbitros, de repente - e ironicamente - se tornou o pioneiro em uma ofensiva de modernização.
O homem por trás de tudo isso é Jean-Claude Blanc, de 46 anos. O inteligente francês faz parte do grupo de executivos do futebol com habilidade suficiente para fazer com que uma indústria automotiva com problemas volte aos trilhos. "Boa parte do trabalho de base já foi feita para que uma nova era possa começar", disse Blanc. Há mais de três anos, quando o clube chegou ao seu pior momento, ele foi contratado como novo diretor geral. A esperança era de que ele liderasse o Juventus para além um período de negociações questionáveis por baixo dos panos para se tornar uma moderna organização de futebol. Há alguns anos, ficou claro que ele seria nomeado o novo presidente do clube.
O currículo de Blanc inclui cargos em vários setores do marketing esportivo: no Tour de France, nas Olimpíadas de Inverno em Albertville e no Aberto da França, um dos quatro torneios do Grand Slam do tênis profissional.
Sob sua liderança, o clube mais popular do país voltou para a Série A e reassumiu sua posição dominante no futebol italiano. "Com toda a modéstia", disse Blanc, "o Juventus está mostrando qual é o caminho." Blanc considera sua "tarefa mais importante" reconquistar os torcedores e vê o Reino Unido como modelo. A modernização dos estádios logo depois das catástrofes no Brussel's Heysel Stadium, em maio de 1985, e no estádio Sheffield's Hillsborough, em abril de 1989, desencadeou um novo começo para o futebol inglês.
Se Blanc conseguir fazer o que pretende, o Turin seguirá os passos dos bretões. Nos escritórios bem decorados do Juventus no centro de Turin, Blanc mostra uma maquete do estádio de 41 mil lugares que está sendo construído no lugar do antigo Stadio delle Alpi, com um custo estimado em 165 milhões de euros (R$ 424 milhões). Quando ele abrir em meados de 2011, será de longe o estádio mais moderno do país.
As arquibancadas serão tão próximas do campo quanto no estádio Anfield do Liverpool, e grandes designers da famoso escritório Pininfarina serão responsáveis por projetar seu interior. "Queremos mostrar o melhor lado da Itália - sua criatividade, design e futebol fantásticos", disse Blanc.
Uma nova relação com os torcedoresO Juventus também está abrindo novos caminhos no que diz respeito à interação com o público. No Estádio Olímpico, onde o clube joga atualmente, as cercas são mais baixas do que em qualquer outro estádio da Itália, e as torcedoras mulheres - que raramente são vistas nos jogos da Série A - são recebidas na entrada com uma rosa. A ênfase nos jogos do Juventus é em fazer com que os espectadores se sintam como clientes em vez de tratá-los, como em todos os lugares, como um risco de segurança.
"O torcedor ainda é considerado um criminoso em potencial", reclama Carlo Balestri, da Progetto Ultrà, uma organização que defende os interesses dos torcedores de futebol. Na visão dele, o trabalho com os torcedores problemáticos, que teve muito sucesso na Alemanha, não existe na Itália.
Da mesma forma, a polícia italiana tenta lidar com os problemas de violência apenas impondo proibições. Às vezes, por exemplo, ela não permite que os torcedores compareçam aos jogos de seus times fora de casa e, a partir de janeiro, os torcedores só poderão acompanhar seus times a outros estádios se tiverem a "tessera del tifoso", uma carteirinha de identificação de torcedor. Ainda assim, as carteirinhas foram recebidas com ampla oposição e desencadearam protestos públicos. Até Marcello Lippi, o técnico da seleção nacional da Itália, disse que é contra a ideia da carteirinha porque ela "cria guetos".
Os torcedores também deverão lidar com outras inconveniências. Ao comprar ingressos, eles precisam fornecer a identidade e ter seus dados pessoais registrados no ingresso. Além disso, entrar no estádio está ficando cada vez mais parecido com a fiscalização no aeroporto: os ingressos são conferidos com as carteiras de identidade antes de serem escaneados por leitores e, depois de passar pelas catracas, os torcedores precisam se submeter a uma vistoria pelo pessoal de segurança.
Os que chegam até esse ponto normalmente se descobrem em um mundo sem nenhum serviço. A média de idade de um estádio da série A é de 63 anos. Na maioria dos casos, apenas as principais arquibancadas são cobertas, não há muitos locais para venda de bebidas e os banheiros tendem a ser sujos.
Reforma, regras e retornoO futebol italiano tem uma necessidade desesperada de reforma. Isso é algo que o Milan, o clube do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, sabe há tempos. Em seu escritório, Umberto Gandini retira uma pasta do arquivo. O diretor do clube, um homem no final dos 40 anos com olhos azuis claros e entradas na testa, mostra-se irado. "Esses são planos para a renovação do estádio Giuseppe Meazza", diz ele. "Poderia ser tão bom quanto o estádio do Arsenal em Londres." Embora pareçam impressionantes, o problema com os desenhos é que eles já têm sete anos de idade. Depois de terem sido esboçados, o Milan não conseguiu entrar em um acordo com o Inter de Milão, seu rival local, com o qual divide um estádio no bairro de San Siro na cidade, nem com a prefeitura de Milão, que é dona do estádio.
A situação não é nada incomum, da mesma forma que inúmeros planos para novos estádios de futebol na Itália nunca se materializaram. Uma vez que os estádios existentes normalmente pertencem às prefeituras, grandes investimentos são quase impossíveis. Da forma que as coisas estão, já existem problemas suficientes com as operações cotidianas. "Os campos normalmente estão em mau estado", diz Gandini, "porque não está claro de quem é a responsabilidade de cuidar do gramado". Os clubes esperam que esses problemas sejam atacados em uma nova lei que o parlamento da Itália pode decretar no final do ano. A legislação aceleraria o processo de planejamento da construção de estádios e abriria caminho para opções de financiamento mais atraentes.
Também há uma pressão crescente sobre os clubes italianos vinda do exterior. Por exemplo, a União de Futebol Europeia (UEFA) decidiu introduzir um procedimento de licenciamento no começo da temporada de 2012/2013. Ele será baseado em uma ideia simples: nenhum clube que joga em alguma das competições da Copa Europeia poderá gastar mais dinheiro do que ganha. Isso também indica o fim da patronagem.
As novas regras serão sentidas principalmente por alguns dos mais famosos personagens da Itália. Há anos, ricaços - como o industrial Massimo Moratti (Inter de Milão), o magnata da mídia e primeiro-ministro Silvio Berlusconi (Milan) e o magnata do petróleo Franco Sesi (Roma) - injetaram centenas de milhares de euros em seus clubes. As regras poderão até mesmo limitar o salário total dos jogadores para não mais do que metade dos rendimentos dos clubes. Na temporada de 2007/2008, a média dos clubes italianos gastou 68% de seus rendimentos nos salários dos jogadores, enquanto os clubes da Bundesliga alemã gastaram apenas 50%.
Muitos clubes italianos parecem aliviados por serem obrigados a colocarem um fim à irracionalidade. "Nos últimos anos, os rendimentos foram direto para os bolsos dos jogadores", disse Gandini, que também é um bilionário. "Perdemos a chance de investir em infraestrutura". Embora um pouco relutante, Gandini agora promove uma "mudança filosófica" que viu o Milan perder perto de 100 milhões de euros (R$ 257 milhões) durante os dois últimos anos fiscais.
A esperança também vem de um novo negócio com a televisão. A Infront, uma agência de marketing suíça que recentemente adquiriu os direitos de transmissão do futebol profissional italiano, entrará com pelo menos 1,6 bilhões de euros (R$ 4,1 bilhões) nas próximas duas temporadas. Isso é duas vezes mais do que os clubes da Bundesliga alemã recebem.
Da mesma forma, de acordo com uma lei designada para fortalecer a competição atlética, os clubes pequenos e medianos serão os principais beneficiados com a venda de direitos para a TV. Até agora, cada clube vendia seus próprios direitos, então os quatro maiores clubes acabaram ficando com a maior parte do total dos rendimentos com a televisão. Agora, diz o gerente do Juventus Blanc, "seremos forçados a buscar um caminho sustentável".
Nos escritórios do Milan, Gandini convida seus visitantes a olharem o salão de troféus. Ele abriu a porta e apontou para nove troféus de títulos europeus e quatro de títulos mundiais.
Gandini sorri. Embora o futebol italiano tenha sido bastante indulgente durante as duas últimas décadas, pelo menos parece que foi divertido.
Tradução: Eloise De Vylder