Em uma entrevista à revista "Der Spiegel", o ex-vice-presidente dos Estados Unidos e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Al Gore, 61, fala sobre as políticas ambientais de Barack Obama, a pressão interminável dos lobistas para sabotar reformas e a suas esperanças de que se chegue a um acordo global na conferência sobre mudança climática em Copenhague, no mês que vem.
Spiegel: O senhor escreveu no seu novo livro, "Our Choice" ("Nossa Escolha", que será lançado em alemão em 23 de novembro com o título "Wir Haben Die Wahl"), que temos à nossa disposição todas as ferramentas das quais necessitamos para resolver a crise do clima. O único ingrediente que está faltando seria a vontade coletiva. O que faz com que seja tão difícil para os governos implantar mudanças, ainda que a maioria das pessoas saiba o que precisa ser feito?
Al Gore: Como seres humanos, nós temos tendência a fazer confusão entre o sem precedentes e o improvável. Na nossa experiência cotidiana, se algo nunca aconteceu antes, nós geralmente nos sentimos seguros para assumir que tal coisa não ocorrerá no futuro, mas as exceções podem nos matar e a mudança climática é uma dessas exceções. Os neurocientistas observam que nós temos uma capacidade inerentemente melhor para respondermos rapidamente àquelas ameaças às quais os nossos ancestrais evolucionários sobreviveram - como, por exemplo, outros seres humanos armados, serpentes, aranhas e fogo. Além disso, existe um hiato temporal concreto entre as causas da crise climática e as suas manifestações integrais. Isso faz com que, para certas pessoas, o problema pareça ser menos urgente do que de fato é.
Spiegel: Mas os Estados Unidos sempre se orgulharam de serem mais rápidos e flexíveis do que as outras nações. Será que isso não mais se aplica?
Gore: Nos últimos 50 anos o sistema político Estados Unidos evoluiu de uma forma que aumentou o poder dos lobbies empresariais. O poder da televisão e do dinheiro cresceram exponencialmente. Atualmente, 80% das contribuições de campanha que os candidatos e autoridades que disputam a reeleição arrecadam e gastam são destinados às propagandas de televisão, de forma que eles precisam obter quantidades enormes de dinheiro, especialmente dos lobbies empresariais. De certa forma, isso "refeudalizou" o poder político e conferiu muito mais poder aos interesses estabelecidos. Quando Obama foi eleito, eu disse: "Que momento empolgante na nossa história". Mas a eleição dele não resolveu todos os problemas presentes no sistema norte-americano.
Spiegel: Há 17 anos, você, na condição de jovem senador pelo Estado do Tennessee, e Bill Clinton, um jovem governador do Estado de Arkansas, conquistaram a Casa Branca com uma promessa de mudança. Clinton tocava saxofone e havia uma sensação primaveril no ar. Por que as coisas têm sido tão mais difíceis para Barack Obama?
Gore: Foi difícil para nós também. Basta recordar a resistência à nossa lei de reforma do sistema de saúde. O progresso de Obama na área de saúde já superou aquilo que nós conseguimos fazer neste setor. Ele terá aprovada a sua legislação referente à alteração climática. Portanto, eu estou otimista. Ainda estamos no início da presidência Obama. Ele teve um verão ruim, mas está tendo um bom outono.
Spiegel: Não está ficando cada vez mais difícil continuar otimista?
Gore: Eu acredito que há uma base real para o otimismo. A Internet dá aos indivíduos o poder de desempenhar um papel mais ativo no processo político, conforme se viu na campanha de Obama. Esses indivíduos foram removidos da discussão da democracia durante a era da televisão, mas eles estão retornando. Não é nenhum acidente o fato de que praticamente todo movimento reformista progressista do mundo se baseia atualmente na Internet. Existem mais de um milhão, e talvez até dois milhões, de organizações de base que foram criadas em todo o mundo e que estão vinculadas à questão da crise climática, a maioria delas na Internet.
Spiegel: Porém, os oponentes políticos de Obama também basearam-se na Internet. Será que o motivo da resistência ao governo dele poderia ser a cor da sua pele? O ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, afirmou que muitos norte-americanos ainda veem um problema no fato de um negro ocupar a Casa Branca.
Gore: Sem dúvida a questão racial está sempre presente na política norte-americana e na de qualquer sociedade multirracial. Também não há dúvida de que para algumas pessoas isso é um fator para a hostilidade manifesta a Obama. Mas eu não creio que essa seja uma questão muito importante. Obama está certo quando lembra às pessoas: aliás, eu já era negro antes da eleição.
Spiegel: Talvez as reações agressivas possam ser explicadas pelo fato de ele, você e parcelas substanciais do Partido Democratas terem interpretado equivocadamente a vontade dos eleitores. Talvez a eleição passada tenha tido menos a ver com um desejo do eleitorado de implantar mudanças capazes de transformar o país do que com a simples vontade de livrar-se de Bush.
Gore: Mas isso tudo não está relacionado? O governo Bush-Cheney traiu certos valores norte-americanos básicos. Portanto, havia fome de mudança. As dificuldades que o novo governo encontrou estão no Congresso, e elas estão vinculadas à influência crescente dos lobbies empresariais e pessoas que simplesmente têm medo do governo.
Spiegel: Isso é um fenômeno novo?
Gore: Os membros do Congresso escutam menos uns aos outros. O salão do Senado, por exemplo, atualmente encontra-se geralmente vazio quando são feitos discursos. No passado isso era diferente, e eu sei por que a situação mudou. O salão hoje em dia está vazio porque os senadores precisam comparecer a festas e eventos para arrecadação de dinheiro.
Eles têm a impressão de que precisam gastar todo o tempo disponível arrecadando dinheiro.
"Seríamos realistas se esperássemos um tratado" Spiegel: Será que o prato de Obama não está cheio demais? Ele conduz guerras no Iraque e no Afeganistão, deseja fechar Guantánamo, está tentando reformar o sistema de saúde, está prometendo progresso na questão da mudança do clima e, além disso, deseja fortalecer os direitos dos sindicatos e dos homossexuais. Isso não seria mudança demais para um país tão conservador como os Estados Unidos?
Gore: Eu discordo dessa crítica. Daqui a oito anos, em uma retrospectiva, Obama seria mais duramente criticado se tivesse escolhido apenas uma prioridade e não tivesse tentado fazer frente aos vários desafios que precisam ser enfrentados. Portanto, eu acho que existe uma certa verdade nisso, mas sei também que o mandato dele foi e continua sendo forte desde o início.
Spiegel: Mas até agora Obama não realizou muita coisa - a maioria das reformas que ele anunciou ainda não foram implantadas. Muita gente já está dizendo que ele é um político que apenas faz belas promessas - muita conversa, mas pouca ação.
Gore: Uma das ferramentas à disposição de um presidente é a capacidade de contar com a atenção do povo norte-americano. Essa ferramenta tem que ser usada com prudência. Há de fato um risco de super-exposição quando um presidente deprecia a boa recepção que teve.
Creio que é muito cedo para se fazer julgamentos. Em muitas ocasiões eu achei que o presidente Obama talvez tivesse se aproximado muito desse limite - por exemplo, no que diz respeito às entrevistas na televisão.
Mas esse é o instrumento mais poderoso que ele tem à sua disposição para apresentar diretamente a sua pessoa ao povo.
Spiegel: A crise financeira só tornou a tarefa do presidente mais difícil. Os períodos de dificuldade material são fundamentalmente ruins para os políticos reformistas?
Gore: O clima, a crise financeira e a crise de segurança nacional são problemas que estão conectados. Existe uma causa que é comum a todos esses problemas: a nossa dependência absurda de petróleo estrangeiro.
Enquanto tivermos que gastar bilhões de dólares anualmente com a compra de petróleo estrangeiro de companhias estatais do Golfo Pérsico, os nossos problemas de déficit comercial, déficit orçamentário e crise climática persistirão. Portanto, um número cada vez maior de norte-americanos começa a perceber que a resposta correta ao desafio do clima também nos ajudará a melhorar a economia e a obter um orçamento mais equilibrado.
Spiegel: A chanceler alemã Angela Merkel foi menos otimista após a reunião de cúpula do G-20 em Pittsburgh. Ela não acredita que haverá no congresso dos Estados Unidos uma maioria parlamentar favorável a uma legislação norte-americana para combater a mudança climática antes da reunião global sobre o clima em Copenhague, em dezembro.
Gore: Eu estou mais otimista. Não creio que teremos uma posição final do Relatório do Comitê Congressual sobre a Conferência antes de Copenhague. Mas se o presidente puder ir a Copenhague com a legislação aprovada na Câmara e submetida ao Senado, será inevitável a aprovação da lei, mesmo se a posição do comitê ainda estiver pendente.
Spiegel: Quais são as suas expectativas para Copenhague?
Gore: Creio que seríamos realistas se esperássemos um tratado. Não será um texto tão enérgico quanto eu gostaria que fosse. Mas ele estabelecerá um preço para as emissões de carbono e modificará o planejamento antecipado das empresas, municípios, Estados, províncias e nações. Em 1986, quando a primeira crise da atmosfera global emergiu com a descoberta do buraco na camada de ozônio sobre a Antártida, um ano depois os países de todo o mundo aprovaram o Protocolo de Montreal. Ele foi duramente criticado pelos ambientalistas, que o consideraram muito fraco e insuficiente. Mas depois disso o texto foi aperfeiçoado, de forma a tornar-se mais rígido, e está funcionando muito bem, e estamos a caminho para solucionar aquela crise. Estou esperando um processo similar em Copenhague. Criaremos um tratado que significará o início de um enorme processo de transformação.
Spiegel: Os Estados Unidos estão esperando um compromisso maior por parte da China. Obama deveria usar a sua próxima viagem à Ásia para aumentar a pressão sobre Pequim?
Gore: Eles precisam aceitar compromissos. Muitas nações em desenvolvimento ainda estão achando que os países mais ricos aceitarão fazer compromissos, mas que os países em desenvolvimentos não terão que fazer tal coisa. Isso não é uma fórmula para o sucesso. Em um mundo movido a tecnologia da informação e que adota as terceirizações é muito fácil replicar a base tecnológica para produção em países de baixos salários. Os trabalhadores da Alemanha, dos Estados Unidos e de outras nações ricas temem perder os seus empregos. Não podemos dizer a eles: "Assumiremos essas obrigações, mas os países que já receberam parte dos empregos de vocês não terão que assumir compromisso algum". Isso não funcionaria.
Spiegel: Isso não seria mais um incentivo para que as nações em desenvolvimento não aceitassem nenhum compromisso para a imposição de limites de emissão?
Gore: Eles estão começando a sentir as consequências de tal política. Atualmente a Índia depara-se com a perspectiva de que as emissões de carvão acelerem bastante o derretimento do gelo que se constitui na fonte da maioria da água dos rios Indo, Ganges e Brahmaputra. Eles precisam reduzir as emissões de carvão para a sua própria sobrevivência.
Spiegel: Você enxerga algum sinal de mudança de consciência por parte da China, que é o segundo maior poluidor do mundo depois dos Estados Unidos?
Gore: A China vem mudando de forma bem drástica em relação a essa questão. Embora eles ainda estejam inaugurando uma nova usina termoelétrica movida a carvão a cada oito ou nove dias, a China será em breve a maior potência mundial em energia eólica e solar. Nos últimos anos, a China plantou anualmente uma quantidade de árvores duas vezes e meia maior do que a de todos os outros países do mundo juntos. Eles estão construindo uma super-rede elétrica de 800 kilovolts, que, até 2020, será a mais avançada do mundo. Eles reformularam o seu novo plano quinquenal, que terá início daqui a pouco mais de um ano, a fim de modificarem a fórmula segundo a qual todos os burocratas e funcionários são avaliados para avanço na carreira. E eles passaram a considerar o sucesso na redução de dióxido de carbono um dos principais fatores para a avaliação de carreiras. Essas mudanças são significativas.
Spiegel: Obama viajará a Copenhague?
Gore: Ele não me disse que viajará, e nenhum assessor dele tampouco me disse nada. Mas ao examinar o calendário e o desdobramento dos fatos eu tenho certeza de que ele comparecerá.
Spiegel: Atualmente a Casa Branca está reduzindo as expectativas porque, se o presidente norte-americano viajar a Copenhague para o encontro de cúpula, o resto do mundo esperará um compromisso dos Estados Unidos quanto aos limites de emissão.
Gore: Sim, é claro. O presidente Obama já impôs uma série de regulações exigindo uma redução de emissões. Mas a grande diferença estará no fato de a legislação do Senado sobre a mudança climática ser aprovada ou não. Eu acredito que o projeto apresentado pelos senadores John Kerry e Barbara Boxer abre de fato perspectivas bastante novas.
Eles provavelmente acrescentarão um título ao projeto a fim de ampliar o apoio à energia nuclear. Eu creio que eles também acrescentarão medidas para acelerar a substituição de carvão por gás. O gás gera apenas a metade das emissões de dióxido de carbono geradas pelo carvão e dois terços das emissões produzidas pelos derivados de petróleo. Creio que isso também implicará em mais apoio e cindirá de alguma forma os lobbies do setor de energia. Portanto, creio que existe uma possibilidade bastante real de aprovação da legislação, e que, como resultado, Obama poderá ir a Copenhague com uma posição mais concreta.
Spiegel: Como você enxerga o seu próprio papel nesse processo?
Gore: Às vezes o idioma iídiche é o mais expressivo. Eu quero ser uma "cotovelada" em Copenhague. Uma pessoa que pressiona por mudanças.
Spiegel: A forma mais efetiva de fazer com que as pessoa se mexam na base da "cotovelada" é ser presidente dos Estados Unidos da América. Você algum dia concorrerá novamente a esse cargo?
Gore: Bem, eu estou tentando me recuperar da política. Mas é claro que sempre existe o período de uma recaída quando a gente está em processo de recuperação.
Spiegel: Senhor vice-presidente, obrigado por esta entrevista. Tradução: UOL