Rudolf Seiters foi um dos principais negociadores durante a reunificação da Alemanha. Em uma entrevista a "Spiegel Online", Seiters fala sobre a sua participação, como protagonista interno, nos acontecimentos de 1989, o "ano de milagres" na Europa, e também sobre a resistência à reunificação da Alemanha, além de dizer por que é errado romantizar atualmente a República Democrática Alemã.
Spiegel: Quando foi que você se convenceu pela primeira vez de que a unidade alemã poderia ser alcançada?
Seiters: Não foi nem em 30 de setembro, em Praga, nem em 9 de novembro. Naquele momento, nós acreditávamos que os acontecimentos seguiriam um cronograma muito diferente. O dia decisivo foi 19 de dezembro, quando o chanceler Helmut Kohl falou a centenas de milhares de pessoas na Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora), em Dresden. O clima era inacreditável. Bandeiras alemãs com as cores preta, vermelha e amarela podiam ser vistas por toda parte. Em toda a minha vida política eu nunca ouvi falar de um líder de Estado que tivesse deixado um líder visitante sozinho com a sua população. Isso aconteceu sem dúvida porque eles esperavam que Helmut Kohl provocasse aplausos e temiam que o SED (o partido governante na comunista Alemanha Oriental) fosse recebido com vaias. Foi então que percebemos que aquele regime estava perto do fim.
Nós enxergamos uma possibilidade realista de unidade alemã.
Spiegel: As realizações de Kohl no sentido de dirigir a Alemanha rumo a unidade são indiscutíveis. Porém, o passo decisivo para a reunificação não foi dado por ele, mas sim pelo então presidente George H.W. Bush e por Mikhail Gorbachev durante uma reunião em Washington em 30 de maio. Gorbachev praticamente deixou a República Democrática Alemã de fora do Pacto de Varsóvia - e isso abriu as portas para que uma Alemanha reunificada ingressasse na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Até que ponto a reunificação pode ser atribuída ao trabalho da própria Alemanha, e qual foi a dimensão da assistência internacional envolvida?
Seiters: Naquele estágio preliminar e sob aquelas circunstâncias, nós certamente não seríamos capazes de alcançar a reunificação alemã sem a presença de uma estrutura internacional. Sem dúvida alguma, tivemos também sorte. O sindicato trabalhista polonês Solidariedade contribuiu bastante para o que aconteceu. Também somos gratos aos húngaros, que foram os primeiros a abrir as fronteiras para os refugiados alemães orientais. E Bush forneceu apoio ilimitado. Também foi muito importante o fato de Helmut Kohl ter sido capaz de construir sistematicamente uma relação próxima e de confiança com Mikhail Gorbachev em 1989 e 1990.
Aquilo foi extremamente importante.
Spiegel: Mas não havia apenas pessoas que apoiavam a reunificação e, na verdade, muitos chefes de Estado ocidentais rejeitaram a unidade alemã. Onde foi que vocês encontraram a maior resistência à reunificação?
Seiters: A posição de Margaret Thatcher é bem conhecida, assim como as suas dúvidas consideráveis quanto à reunificação e a sua objeção à união das duas Alemanhas. Giulio Andreotti, o político italiano, também
declarou: "Nós amamos tanto a Alemanha que preferiríamos ter duas delas". Mais tarde Mitterrand tornou-se um dos nossos melhores amigos e apoiadores, mas em 1989 ele ainda tinha dúvidas quanto ao projeto. Eu me lembro da visita dele a Berlim Oriental no final de 1989.
Spiegel: É verdade que Mitterrand, pelas costas de Kohl, queria apoiar a liderança da República Democrática Alemã?
Seiters: Bem, ele no mínimo não tinha nenhuma pressa em ver a Alemanha reunificada. Mas, depois, quando foi à Alemanha Oriental, ele foi recebido por Manfred Gerlach, que - apesar de ser o presidente do Conselho de Estado - não era de fato uma das figuras mais importantes do país. Quando Mitterrand retornou a Paris, ele se sentia desanimado e desiludido.
Spiegel: Do que os vizinhos da Alemanha tinham medo?
Seiters: No Ocidente, havia temores e preocupações quanto à perspectiva de reunificação alemã. Muitos europeus acreditavam que, caso se reunificasse, a Alemanha mudaria a sua orientação política. Nas suas memórias, Kohl escreveu que nunca participou de uma reunião europeia de cúpula em que o clima fosse tão frio quanto no encontro de 9 de dezembro em Estrasburgo, que foi realizado 14 dias após ele ter apresentado o seu plano de dez pontos para que se superasse a divisão da Alemanha e da Europa.
Spiegel: Para lutar contra o ceticismo generalizado, o chanceler Kohl sempre falou da unidade alemã no contexto da União Europeia. Você acha que aquilo foi uma medida tática, ou o resultado da crença dele no projeto europeu?
Seiters: Naquela época, nós falávamos todos os dias sobre unidade na chancelaria. Para Helmut Kohl, sempre foi claro que uma Alemanha reunificada precisaria estar vinculada ao processo europeu mais amplo.
Ele via a unidade alemã e a unidade europeia como duas faces da mesma moeda, e como algo quanto ao qual ele estava profundamente convencido.
Da mesma maneira, ele acreditava fortemente que, para que a Europa progredisse, a França e a Alemanha precisavam cooperar de forma mútua e profunda. Ele sabia ainda que os países europeus menores também precisariam participar.
Spiegel: Naquela época o que foi que o deixou mais surpreso?
Seiters: No outono e no inverno de 1989, fiquei surpreso com a impotência da liderança da República Democrática Alemã e com a sua rápida perda de autoridade. O SED estava impotente em relação à questão dos refugiados. Ele estava impotente quando o Muro de Berlim veio abaixo, algo que nem se esperava que ocorresse naquele momento. E o partido mostrou-se também impotente em Dresden. Tudo aconteceu com uma rapidez espantosa. Quando eu me tornei chefe da chancelaria em Bonn, em abril de 1989, ninguém sabia ou sequer suspeitava que, dentro de alguns meses, o muro cairia e a Alemanha seria reunificada um ano e meio depois. Aquilo foi mais do que surpreendente; foi praticamente um milagre.
Spiegel: Helmut Kohl é criticado com frequência por ter prometido "cenários floridos" aos cidadãos alemães orientais, sem que tivesse feito o suficiente para lidar com os aspectos mais difíceis da reunificação. No meio desses acontecimentos que se desenrolavam com rapidez, será que vocês careceram de uma visão suficientemente crítica em relação às iminentes dificuldades econômicas?
Seiters: Naquele momento, nós subestimamos o legado ecológico e econômico catastrófico do SED. Isso se aplica a todos nós - os norte-americanos, os britânicos, as agências de inteligência e os bancos. Oficialmente, pelo menos, a República Democrática Alemã estava na lista das dez maiores potências econômicas do mundo. Só mais tarde ficou claro o quão precário o sistema era de fato. E a seguir os mercados orientais desmoronaram, especialmente os estaleiros na costa do Báltico e a indústria pesada na Saxônia, Saxônia-Anhalt e Bitterfeld.
Spiegel: O marco alemão teria entrado em cena cedo demais?
Seiters: Tivemos que negociar isso. A população da República Democrática Alemã queria a união monetária o mais rapidamente possível.
"Se o deutschmark não vier a nós, nós iremos a ele", era a exigência que ouvíamos. E era uma exigência muito clara. Havia muitos problemas. Mas hoje, para usar as palavras do chanceler Kohl, há uma abundância de cenários floridos. Existem muitas cidades bonitas no leste da Alemanha.
Eu espero que todos os alemães que moram no território que já foi a Alemanha Ocidental visitem pelo menos uma vez o leste do país.
Spiegel: Mas a produtividade econômica no leste continua muito atrás daquela vista na parte ocidental do país.
Seiters: A unidade alemã é uma história de sucesso, mas não podemos nos esquecer dos desafios importantes que ainda temos que superar juntos. Mas qualquer problema remanescente não se deve à reunificação alemã. Esses problemas são na verdade legados de uma Alemanha dividida.
Se adivinhássemos a magnitude da iminente falência da República Democrática Alemã, não teríamos descartado a possibilidade de elevar os impostos.
Spiegel: Olhando para trás, muitos alemães orientais romantizam a vida na República Democrática Alemã. Por que você acha que isso acontece?
Seiters: Para o povo da República Democrática Alemã, tudo mudou em
1989 e 1990. Por um lado, havia uma nova sensação de liberdade e a remoção da ditadura. Por outro lado, havia desafios totalmente novos no que se refere à economia de mercado. As pessoas simplesmente não estavam acostumadas a assumir responsabilidade pelas suas finanças. Eu me lembro claramente de uma conversa que tive com o papa João Paulo 2º na qual ele me perguntou como um povo que viveu sob uma ditadura durante décadas conseguia lidar com a liberdade que lhes foi rapidamente concedida. É claro que existe impaciência e algum desapontamento - o que talvez se deva em parte às expectativas excessivas. Mas não há nenhum bom motivo para nostalgia. A República Democrática Alemã era um Estado injusto - e que se encontrava falido.
Tradução: UOL