Com a desistência do seu único adversário, Hamid Karzai obteve um segundo mandato como presidente do Afeganistão. Mas, para o Ocidente, trabalhar em conjunto com o governo do Afeganistão só ficará mais difícil. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, terá que explicar por que deseja apoiar um líder eleito de forma não democrática quando enviar mais tropas ao território afegão, e o debate na Alemanha em torno da missão de guerra também deverá esquentar.
Um segundo turno eleitoral com um só candidato? Isso seria absurdo demais até mesmo para o instável Afeganistão. De Kunduz, no norte, a Kandahar, no sul, 15 milhões de urnas teriam que ser distribuídas dentro de alguns dias. E os votos teriam que ser depositados nelas e depois contados. É claro que os resultados já seriam conhecidos de antemão, sendo Hamid Karzai o único candidato restante na disputa, que ocorreria no próximo sábado. Finalmente, na última segunda-feira a comissão eleitoral decidiu cancelar a eleição e declarar Karzai presidente.
Após reeleição, afegãos veem promessas de Karzai com ceticismo
Após o cancelamento do segundo turno das eleições presidenciais, afegãos expressaram poucas esperanças de que o próximo mandato do presidente Hamid Karzai traga mudanças ao dia a dia da população. No poder desde a queda do Taleban, em 2001, Karzai prometeu nesta terça-feira (3) combater a corrupção e formar um governo inclusivo, que represente todas as forças políticas do Afeganistão. No entanto, os afegãos veem as promessas com ceticismo.
Pouco depois disso, os Estados Unidos cumprimentaram oficialmente Karzai. A Embaixada dos Estados Unidos em Cabul informou que a decisão obedeceu à lei afegã, e o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, descreveu Karzai como o "líder legítimo" do Afeganistão. O presidente Barack Obama também cumprimentou Karzai por telefone e pediu ao presidente afegão que desse início a um novo capítulo do seu governo e que aumentasse os esforços para combater a corrupção. Na sua conversa, Obama falou sobre o caos em torno da eleição, e particularmente sobre a manipulação que foi descoberta durante o primeiro turno das votações em agosto último. O primeiro-ministro Gordon Brown e a Organização das Nações Unidas (ONU) também ofereceram os seus cumprimentos a Karzai.
O único adversário de Karzai, Abdullah Abdullah, desistiu de disputar o segundo turno no final de semana. Abdullah alegou que a fraude eleitoral em favor de Karzai foi tão bem organizada que ele praticamente não tinha chance de ganhar. Karzai, que originalmente tornou-se o líder do Afeganistão devido ao forte apoio do Ocidente, que o via como o "bom afegão", irá agora administrar um país devastado pela guerra durante os próximos cinco anos.
Mas o drama das eleições, a fraude maciça durante o primeiro turno das votações, a teimosia de Karzai e a sua aura claramente não democrática são fatores que, quando avaliados conjuntamente, representam um enorme problema para o Ocidente. Os líderes ocidentais podem enfatizar que o novo presidente do Afeganistão precisa contar com legitimidade democrática - mas todos eles sabem que Karzai não possui tal legitimidade.
Um problema e não um parceiroEm vez de um parceiro confiável, algo que o Ocidente necessita urgentemente neste momento, Karzai será um dos maiores problemas para os países ocidentais. O homem que continuará governando o Afeganistão é um símbolo de tudo que o Ocidente acredita que está errado no Hindu Kush.
Isso inclui a corrupção generalizada, que também beneficia o seu clã e os governadores que Karzai nomeou em processos não democráticos. Além disso, é claro, há o tráfico de drogas, com o qual o irmão de Karzai está embolsando milhões de dólares. "Má governança" é o termo usado pelos norte-americanos para descrever o estado caótico em que se encontra o governo em Cabul - e esse é o sistema de Hamid Karzai.
O presidente afegão está se tornando um problema particularmente sério para os Estados Unidos. Após o fiasco da eleição afegã, a teimosa insistência de Karzai em defender os resultados fraudulentos e a desistência de Abdullah, como é que o presidente Barack Obama explicará ao povo norte-americano que deseja enviar mais tropas ao Afeganistão para apoiar precisamente aquele governo? "Não será fácil", concluiu secamente o "The New York Times" em sua análise da situação.
Raio-X do Afeganistão
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Área: 652.230 km² (sem saída para o mar)
População: 33 milhões
Urbanização: 24% da população é urbana
Taxa de fertilidade: 6,5 crianças nascidas por mulher (4º maior do mundo)
Mortalidade infantil: 151 mortes por 1000 nascimentos (3º maior do mundo)
Expectativa de vida ao nascer: 44,5 anos
Grupos étnicos: pashtun (42%), tajik (27%), hazara (9%), usbeque (9%) e outros
Religião: sunitas (80%), xiitas (19%), outros
Alfabetização: homens, 43%; mulheres, 12%
Taxa de desemprego: 40%
Fonte: CIA World Factbook 2009
O estado de espírito da população dos Estados Unidos está se tornando cada vez mais crítico para Obama. Washington já gastou quase US$ 250 bilhões (R$ 436 bilhões) com o Afeganistão. Apesar disso, todas as notícias vindas atualmente daquela região em crise parecem ser ruins. Em outubro, morreram mais soldados no Hindu Kush do que em qualquer mês anterior da guerra - um sinal alarmante para o front doméstico do presidente. "Não estamos na situação em que desejaríamos estar após seis meses", disse um assessor de Obama, sem tentar ocultar a gravidade da situação.
Milhares de soldados para ajudarObama caiu em uma armadilha da qual terá grande dificuldade de sair. Nas próximas semanas, ele deverá apresentar o seu novo plano para o Afeganistão. Mais uma vez as pessoas estão esperando ver a luz no fim do
túnel: a retirada das tropas norte-americanas. Porém, para que isso aconteça, o país precisará ser estabilizado. É por isso que Obama quer mandar milhares de soldados adicionais ao Afeganistão. Mas o atual caos em torno da farsa eleitoral só fortalecerá os céticos, que gostariam de ver uma mudança de rumo - de forma que a missão se tornasse apenas uma operação anti-terrorista -, e que estão pedindo um fim do sonho norte-americano de reconstruir o Afeganistão.
A equipe de Obama está agindo com cautela. Segundo ela, Karzai precisa provar por meio do trabalho do seu governo nos próximos meses que deseja um recomeço. Mas ninguém sabe como Washington conseguirá fazer com que ele parta para a ação. Duas figuras fundamentais na política norte-americana - o enviado especial Richard Holbrooke e o vice-presidente Joe Biden - já se chocaram tão fortemente com Karzai que dificilmente serão bem-vindos ao palácio presidencial em Cabul. Não se sabe quem poderá aplicar a pressão necessária sobre Karzai.
Com o seu difícil parceiro em Cabul, até mesmo as metas diluídas do Ocidente para o Afeganistão parecem ser difíceis de se alcançar. Tanto políticos quanto oficiais militares questionam como se criará um exército estável se o governo é incapaz de fazer o seu trabalho de forma apropriada e os soldados, em muitos casos, não recebem sequer os seus salários. Como é que o auxílio financeiro do Ocidente poderá realmente ajudar o povo afegão se o dinheiro não é distribuído apropriadamente pelo governo corrupto e, em parte, criminoso, e pelos departamentos administrativos?
Situação desastrosaOs Estados Unidos não são o único país perplexo com esta eleição. Na Alemanha, a autorização para as operações da Bundeswehr, as forças armadas do país, no Afeganistão terá que ser renovada pelo parlamento em dezembro. Membros do parlamento estão vendo os últimos acontecimentos com preocupação. O próximo governo precisará também se preparar para o fato de que o parceiro de coalizão do governo, o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, provavelmente adotará uma postura bem mais crítica no futuro debate sobre o Afeganistão. Ninguém sabe se a outrora ampla maioria de parlamentares favoráveis à missão no Afeganistão se sustentará.
As declarações feitas até o momento pelo novo ministro das Relações Exteriores alemão, Guido Westerwelle, do Partido Democrata Livre (FDP), se parecem um pouco com as do seu antecessor no cargo, Frank-Walter Steinmeier, do SPD. Após a desistência de Abdullah, Westerwelle - que ainda é um novato na área de política internacional - disse que Karzai precisa se tornar um presidente legítimo e que ele tem que buscar a reconciliação com os seus adversários políticos. Segundo Westerwelle, Karzai deveria unir os campos antagônicos e se tornar um presidente de todos os afegãos. É claro que o novo ministro das Relações Exteriores não conseguiu explicar como é que isso seria feito. Assim sendo, ele está exatamente na mesma situação que os seus congêneres internacionais, que se encontram igualmente impotentes diante da situação.
Embora a situação já seja desastrosa, Karzai fará em breve com que ela fique ainda pior. Isso ocorrerá, a mais tardar, quando o novo presidente anunciar os nomes dos membros do seu novo gabinete - nomes que dificilmente agradarão ao Ocidente. Para se assegurar de que obteria a maioria nas urnas, Karzai recrutou vários brutais líderes de milícias para a sua equipe, incluindo o infame Mohammed Fahim. Sob um ponto de vista ocidental, Fahim deveria estar sendo julgado por crimes de guerra no tribunal da ONU em Haia. No entanto, em Cabul ele é favorito para se tornar vice-presidente.
Tradução: UOL