O mundo está olhando para Berlim no momento em que a cidade celebra os 20 anos da queda do Muro. Mas em uma entrevista para a "Spiegel Online", Lech Walesa, o homem que liderou o Solidariedade, diz que o colapso do comunismo começou nos estaleiros poloneses -e que os "desertores" alemães-orientais colocaram em risco seu sucesso final.
Spiegel Online - O senhor está animado para viajar para Berlim na segunda-feira, para a comemoração do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim?Walesa - Não é importante se estou animado ou não. Eu sou um político que teve um papel importante na reunificação da Alemanha e fui convidado para participar da celebração. Não se trata de um doce oferecido para um menino.
Spiegel Online - A lista de convidados em Berlim é impressionante. A chanceler Angela Merkel está esperando a presença de vários líderes mundiais, incluindo o presidente da França, Nicolas Sarkozy, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e o presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, entre outros. Certamente é uma honra fazer parte dela.Walesa - O primeiro muro a cair ocorreu em 1980, nos estaleiros poloneses. Posteriormente, outros muros simbólicos caíram, e os alemães, é claro, derrubaram seu muro literal em Berlim. A queda do Muro de Berlim produziu belas fotos. Mas tudo começou nos estaleiros.
Spiegel Online - Ocorreram, é claro, várias outras tentativas de revolta contra o domínio soviético no Leste Europeu. Os húngaros em 1956. Os tchecos em 1968. Por que seu sindicato trabalhista Solidariedade teve sucesso onde os outros fracassaram?Walesa - Os comunistas sempre esmagaram essas tentativas com seu poder superior. E eles também promoveram manifestações visando demonstrar seu apoio entre a população como forma de estabelecer a legitimidade. Nos estaleiros em 1980, nós tentamos usar a estratégia dos comunistas contra eles. Nós organizamos o povo -incluindo os trabalhadores de fora dos estaleiros- e recebemos apoio de pessoas de outros países.
O papa, que exerceu o papel mais importante, promoveu uma oração coletiva, não apenas na Polônia, mas também em outros lugares. Nós descobrimos que existiam milhões de nós. Pela primeira vez, os comunistas não conseguiram realizar uma manifestação maior que a nossa. Como resultado, eles se sentiram fracos, e esse foi um elemento importante na derrota final deles.
Spiegel Online - Ainda assim, mesmo até o final dos anos 80, não estava claro que o comunismo estava caminhando para o colapso. O senhor realmente acreditava que os soviéticos iriam se recostar e permitir que os governos comunistas do Leste Europeu fossem derrubados?Walesa - O maior medo era com o que poderia estar acontecendo nos bastidores. Nós derrotamos o comunismo e as pessoas na Alemanha Oriental começaram a fugir pelas embaixadas de outros países. O Muro de Berlim caiu por causa desses desertores. Eu fiquei preocupado com a possibilidade do líder soviético, Mikhail Gorbachev, bloquear a fuga em massa e assim destruir nossa vitória. Foi um jogo perigoso. Foi bom Gorbachev ter sido um político fraco e tudo ter terminado bem. Mas isso agora é história, então podemos aceitar as fotos de Berlim como são. Elas são realmente belas.
Spiegel Online - Na semana passada, o ex-presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush, o ex-chanceler Helmut Kohl e Gorbachev estiveram em Berlim para discutir o fim da Guerra Fria. Certamente, a pressão ocidental não teria sido um motivo para Gorbachev não ter bloqueado o êxodo alemão-oriental?Walesa - Os políticos sempre nos disseram que o impasse da Guerra Fria só poderia ser superado por uma guerra nuclear. Nenhum deles acreditava que uma mudança do sistema como essa era possível. Eles agora expressam gratidão às pessoas por terem possibilitado as mudanças, mas ao mesmo tempo eles se apresentam como os pais da reunificação alemã. Na verdade, eles foram apenas pais acidentais da queda do Muro, forçados a agir pelas massas.
Spiegel Online - Por que eles foram pegos de surpresa?Walesa - Porque eles são políticos de verdade. Políticos contam tudo: eles comparam o número de tanques, mísseis e armas que cada lado possui. E quanto mais sábio era o político -melhor era o modelo de computador que usava- mais impossível parecia a queda do Muro de Berlim. Mesmo hoje, se você der entrada aos mesmos dados em um computador, a resposta seria a mesma: sem chance. Mas os revolucionários pensam diferente.
Spiegel Online - Quanto?Walesa - Havia grandes mudanças ocorrendo na União Soviética e várias mudanças de liderança tinham ocorrido, com um líder soviético morrendo após o outro. Essa situação necessariamente leva a certa desestabilização. Ao mesmo tempo, nós começamos a mobilizar as massas, e Gorbachev não sabia o que fazer. Ele teve pouca escolha, a não ser aceitar as coisas como estavam -simplesmente atirar contras as massas não bastaria, porque havia muitos de nós. Os políticos de carreira eram incapazes de ver isso.
Spiegel Online - Muitos, é claro, veem as coisas de modo diferente. Os americanos, por exemplo, gostam de apontar para o discurso "Derrube este muro" de Reagan como sendo um evento decisivo que levou à sua queda. Os russos apontam a Perestroika.Walesa - Pessoas normais da Alemanha, Rússia e dos Estados Unidos nos demonstraram mais apoio. Mas os políticos apenas brincam com a memória do evento. É por isso que quando vejo imagens de Bush, Kohl e Gorbachev sob a manchete "Os Três Pais da Queda do Muro", parece muito mais um acaso para mim do que qualquer outra coisa. Eles apenas implantaram os desejos manifestados pelo povo.
Spiegel Online - Esses desejos são precisamente refletidos na Polônia e na Europa hoje?Walesa - Se alguém me dissesse antes de iniciar a luta que um dia eu viveria em uma Polônia e Europa como a de hoje, eu nunca acreditaria. Mas mesmo assim, quando olho para trás e vejo todas as chances que perdemos, eu não fico satisfeito. É algo que sempre digo: eu sou a favor, mas também sou contra.
Spiegel Online - De que chances perdidas o senhor está falando?Walesa - A democracia é composta de três elementos. Um é se as leis apoiam os princípios pluralistas. O segundo é se as pessoas usufruem dessas leis. O terceiro elemento é se os bolsos das pessoas estão cheios o suficiente para se beneficiarem dessa democracia. Na Polônia, nós temos a fundação legal para a democracia. Mas nós não provamos ser muito aptos a usufruí-las. E a situação de nossos bolsos é ainda pior.
Spiegel Online - O senhor não ocupa um cargo político na Polônia desde sua derrota na eleição presidencial de 1995 para o ex-comunista Aleksander Kwasniewski. Mas o senhor permaneceu uma voz na política polonesa e às vezes é forte em suas críticas a Lech e Jaroslaw Kaczynski. É como se o senhor sentisse que seu trabalho político ainda não acabou.Walesa - Há um risco no momento de perdermos a vitória que lutamos tão arduamente para conseguir. A questão é se aprendemos a partir de nossas experiências ou se precisamos de outra pancada na cabeça da história. E eles esquecem que fomos nós que conquistamos a vitória. Nós poderemos ter que mobilizar as massas de novo.
Spiegel Online - O senhor se considera como sendo parte das massas, não um político?Walesa - Sim. Mas eu pertenci àquela parte das massas que lutou arduamente pela vitória sobre o comunismo. Eu arrisquei minha vida. E nós conquistamos essa vitória, mas os políticos a ignoram. A vitória sobre o comunismo ocorreu graças aos estaleiros e graças ao Santo Padre. Mas agora, ninguém menciona o Santo Padre. Ninguém menciona o Solidariedade. O passado não é tudo, mas não se pode construir um futuro sem essa fundação -e é por isso que estou me manifestando hoje.
Spiegel Online - Por que o Solidariedade não conseguiu permanecer como um poder político na Polônia após ter mobilizado as massas para derrubar o comunismo?Walesa - Não é possível simplesmente substituir um velho sistema por um novo. Nós vencemos e então apresentamos nossa vitória ao nosso país, à Alemanha e à Europa. É claro que era complicado, mas nossa tarefa não era substituir o comunismo, mas sim permitir o desenvolvimento de outra coisa. Neste sentido, eu agi contra meu interesse próprio. Vários partidos políticos surgiram após a derrota do comunismo e eu não podia pertencer a todos eles. Eu não podia mais ser o grande Walesa. No final, eu enfraqueci meu próprio poder, mas foi mais por opção, porque eu não queria ver meu nome igualado ao de Kim Il Sung ou Lênin. Logo, eu tive que me submeter à derrota política em nome da democracia. Este é o meu destino -o destino de um verdadeiro revolucionário.
Tradução: George El Khouri Andolfato