20/10/2004
Chávez se consolida como maior aliado de Cuba
Mauricio Vicent
Em Havana
Quinze anos depois da desintegração do bloco socialista, que deixou o governo de Fidel Castro isolado e na falência, a Venezuela se transformou no principal aliado econômico e político da ilha. Desde a chegada ao poder de Hugo Chávez, em 1998, o volume dos intercâmbios bilaterais se multiplicou por cinco.
A Venezuela fornece a Cuba 53 mil barris de petróleo diários a preços preferenciais, que cobrem um terço de suas necessidades energéticas, e do mesmo modo Havana se envolveu plenamente na "revolução bolivariana", apoiando seus planos sociais com dezenas de milhares de médicos, professores e profissionais.
A aliança Caracas-Havana é estratégica para ambos os governos. Mas para Cuba talvez o seja mais, porque garante certa estabilidade econômica à ilha, que ainda não se recuperou da derrocada dos anos 90. Segundo o Departamento Nacional de Estatísticas de Cuba, em 1995 as exportações para a Venezuela não chegaram a US$ 2 milhões; as importações, a US$ 237 milhões. Hoje a situação é diferente: mais de US$ 1 bilhão em intercâmbios nos dois sentidos.
Em cinco anos a Venezuela se transformou no principal fornecedor da ilha, deslocando outros sócios tradicionais como Espanha e Rússia. O petróleo é a pedra angular desse comércio. Em virtude de um acordo assinado em 2000, Caracas entrega diariamente a Cuba 53 mil barris de cru a preços preferenciais e com facilidades financeiras, quantidade nada desprezível, pois a ilha consome diariamente 150 mil barris, dos quais produz 75 mil --embora esse cru seja de baixa qualidade e utilizado apenas na geração de energia elétrica.
Com os preços astronômicos do combustível nos mercados internacionais, o acordo, que vigora até 2006, ganhou importância estratégica. Mas não se trata apenas de petróleo.
Devido ao Convênio Integral de Cooperação assinado por Castro e Chávez em 2000, as esferas de cooperação são amplas: envolvem as áreas de educação e saúde, mas também diversos negócios conjuntos, até agora desenvolvidos com extrema discrição.
Somente alguns vazaram, como a instalação na Venezuela de várias fábricas de açúcar desmontadas na ilha, e a implantação de dois outros engenhos de açúcar com assessoria e técnicos cubanos, operações que, segundo o ex-embaixador da Venezuela em Cuba, Julio Montes, contariam com apoio financeiro brasileiro.
Depois do golpe de Estado frustrado contra Chávez e sua vitória no referendo revogatório, em agosto, as relações se intensificaram. Em setembro se realizou em Havana a quinta Reunião da Comissão Mista entre os dois países: terminou com a aprovação de 116 projetos, que ampliam as áreas de colaboração para setores como telecomunicações, turismo e informática.
Entre outras coisas, Cuba fornecerá a seu parceiro medicamentos genéricos e equipes médicas; implantará um centro de produção de vacinas na Venezuela; e proporcionará tecnologia e equipamentos para montar várias "linhas processadoras de leite de soja, que beneficiarão 350 mil crianças de escolas bolivarianas".
"Indiscutivelmente, para Cuba as relações com a Venezuela são vitais, mas para Chávez não o são menos", opina um diplomata latino-americano em Havana. Ele está certo.
Segundo o ministro da Saúde da Venezuela, Roger Capella, cerca de 15 mil médicos, estomatólogos, optometristas e técnicos de saúde cubanos participam --e são o principal suporte-- da ambiciosa "missão" Barrio Adentro, que pretende garantir cuidados básicos a 17 dos 25 milhões de venezuelanos de menor renda.
Além disso, milhares de professores cubanos participaram de missões de alfabetização nesse país, e também são milhares os treinadores esportivos cubanos na Venezuela. Como se fosse pouco, a ilha inteira se transformou em universidade e hospital para Caracas.
No último ano e meio, mais de 10 mil jovens venezuelanos viajaram a Havana para realizar cursos de 45 dias e formar-se como "lutadores sociais". Ao voltar, os egressos desse "Plano Esperança" se integraram à Frente Francisco de Miranda, que desempenhou um papel fundamental no registro de eleitores --inscreveu 900 mil pessoas-- às vésperas do referendo.
Hoje, 900 venezuelanos estudam na Escola Latino-Americana de Medicina de Havana, e 13 mil doentes venezuelanos foram atendidos em Cuba devido ao Convênio Integral de Cooperação. Agora se desenvolve o "Plano Milagre", pelo qual já foram tratados mais 5 mil venezuelanos com problemas de visão.
O governo dos Estados Unidos, para não falar na oposição venezuelana, expressou em diversas ocasiões reservas por essa colaboração, diante do temor de que "afete o sistema democrático venezuelano". Fidel Castro e Hugo Chávez já disseram o que pensam: quem apoiou o golpe de Estado na Venezuela foram os Estados Unidos e a oposição. "Nem sonhem" que a cooperação vá cessar, expressaram ambos os mandatários.
Dez anos de amizade
Dentro de poucas semanas se completarão dez anos do primeiro encontro entre Hugo Chávez e Fidel Castro. Foi em Havana, oito meses depois da saída de Chávez da prisão de Yare, onde esteve detido por sua participação no golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Pérez em 1992.
Em 14 de dezembro de 1994, Castro recebeu o ex-tenente-coronel de pára-quedistas junto à escada do avião no aeroporto de Havana, embora na época o líder comunista veterano não pudesse supor que aquele homem nascido em Sabaneta se transformaria apenas quatro anos depois em presidente constitucional da Venezuela e em seu principal aliado político e apoio econômico.
As relações entre os dois mandatários não deixaram de se intensificar desde então. Em uma entrevista concedida ao jornalista cubano Luis Bãez, Chávez descreveu assim o que sente por Fidel Castro: "Na prisão eu li muito 'A história me absolverá', seus discursos e entrevistas. Sabem o que pedia a Deus na prisão? Meu Deus, quero conhecer Fidel quando sair e tiver liberdade para falar, para dizer quem sou e o que penso".
E depois confessa: "Fidel para mim é um pai, um companheiro, um mestre da estratégia perfeita. Algum dia será preciso escrever tantas coisas sobre tudo isso que estamos vivendo e dos encontros que tive com ele".
Quinze anos depois da queda do Muro de Berlim e dez depois daquele primeiro encontro, Venezuela e Hugo Chávez se transformaram em dois pilares básicos para a estabilidade de Cuba, após o fim do bloco socialista. Havana também é para Caracas fonte de inspiração e logística.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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