02/04/2005
O calvário do papa mudo
Juan Arias
Fiel a sua vocação de martírio, herdada da cultura da Igreja polonesa, Karol Wojtyla permitiu que seu calvário pessoal fosse exposto sem pudor nem piedade às câmeras de televisão de todo o mundo. De sua cruz particular de dor, como um crucificado pela doença, João Paulo 2º não tem sequer o consolo que teve Jesus de gritar sua morte e sua dor enquanto agonizava, pois ficou mudo.
O papa polonês chega ao final da vida como não teria gostado de chegar: prostrado em sua cama no Vaticano. Sentindo-se, como sempre se sentiu, um mártir da causa da Igreja -- sobretudo depois do atentado que sofreu na praça São Pedro durante e a festividade da Virgem de Fátima --, João Paulo 2º teria gostado de morrer em ação, durante uma de suas muitas viagens ao redor do mundo, segundo me confessaram sempre seus amigos mais íntimos. O modelo, afirmavam, era o do célebre líder comunista italiano Enrico Berlinguer, que desmaiou vítima de um infarto em um comício, diante de uma multidão atônita. A seu enterro acorreram mais de 2 milhões de pessoas.
O papa Wojtyla, a quem conheci durante as deliberações do Concílio Vaticano 2º quando ele tinha apenas 40 anos, era um grande atleta, aficionado de nadar na praia de Ostia em Roma e escalar montanhas. A ele, que foi um ator nato desde a escola, tocou a desgraça de ficar sem a palavra. Desse sofrimento atroz, como pudemos ver em algumas imagens horripilantes, parecia querer gritar: Por que, Senhor, não posso falar?
Karol Wojtyla foi o papa que mais falou em público nos anais da história da Igreja. O fez em praças, estádios e catedrais dos cinco continentes; dirigiu-se a todas as raças e escalas sociais; percorreu três vezes o mundo pronunciando milhares de homilias; falou nas audiências públicas em Roma para mais de 18 milhões de fiéis; teve 738 encontros com reis e chefes de estado; cantou em público, gritou e brincou, sobretudo com os jovens. E o fez em todas as línguas possíveis. Foi, sem dúvida alguma, o papa da palavra. Há quem queira ver nesse doloroso paradoxo -- foi o que disse um bispo alemão -- um sinal de que talvez a Igreja precise, depois do papa ator e pregador incansável, que viveu quase mais fora que em sua diocese de Roma (o papa é papa porque é o bispo de Roma, como foi Pedro, o apóstolo), um pontificado de maior silêncio, menos publicidade, com trabalho mais voltado para dentro de uma instituição que parece, ao final desse longo pontificado, mergulhada em graves conflitos em suas comunidades periféricas e com mil problemas éticos e teológicos por resolver.
Ao permitir que a dor do papa fosse vista por milhões de pessoas em todo o mundo, segundo os gostos mais modernos da superabundância dos meios de comunicação, o Vaticano pode ter pensado que desse modo o vigário de Cristo na terra dava um exemplo universal, não tanto de resistência física mas de aceitação da dor que lhe coube padecer, identificando-a de alguma maneira com o Cristo agonizante na cruz. E muitos fiéis o vêem assim, sofrem com ele e rezam por sua cura. No caso do papa Wojtyla coincidiram seus dias de maior dor física e humilhação ao ficar sem a palavra, que tanto o ajudou, com a festividade mais sagrada da Igreja Católica: a semana da Paixão.
Todo o mundo viu o pontífice cravado no calvário de sua enfermidade, lutando corajosamente para pronunciar uma palavra. Não seria demais lembrar que, segundo os bibliólogos e teólogos, o auge da festa da Paixão não é a Sexta-Feira Santa -- pois não é a dor de Jesus, seu abandono na cruz que os cristãos celebram --, mas o domingo da Ressurreição, que é a festa da vida. Até o austero Paulo de Tarso disse: "Se Cristo não tivesse ressuscitado, seria vã nossa esperança".
O cristianismo não é a religião da dor e do sofrimento. Jesus nunca a impôs a seus seguidores. Ao contrário, os aliviava das enfermidades e não permitia que jejuassem. O cristianismo é sobretudo uma fé na vida que não morre.
Um católico se perguntou em um jornal do Brasil se era pecado desejar que o papa deixasse de sofrer e encontrasse o quanto antes a paz definitiva. Não é. Para um cristão, a morte nunca é o ato final de um drama, só o começo de outra vida. Para a Igreja, o mais importante agora, depois que o papa Wojtyla deu o melhor de sua existência à causa, é que também sejam lembrados os milhares de mártires anônimos que morrem na solidão, sem refletores nem jornalistas. O importante é que se pense em todos esses sofredores aos quais Cristo nunca exigiu sacrifícios, mas misericórdia e perdão pelas ofensas recebidas, e que junto a eles surja a esperança sem a ameaça de mais dor.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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