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01/06/2005
Assassinatos impunes de mulheres compõem a face mais sórdida do México

Francesc Relea
Em Ciudad Juárez (México)


Nesta cidade na fronteira com os Estados Unidos, 16 mulheres foram assassinadas este ano e mais de 400 nos últimos dez anos. A onda de criminalidade inclui meninas violentadas, estranguladas e mutiladas, como as duas vítimas da semana passada.

Em Cancún, na costa mexicana do Caribe, a violência de gênero, a pornografia infantil, a lavagem de dinheiro e o enriquecimento ilícito de hoteleiros corruptos desenham a face mais sórdida do pólo turístico de fama mundial.

A imprensa divulga diariamente os crimes que ocorrem em diversos Estados do México, mas informa sobre as mortes e pouco mais. Ninguém consegue responder às diversas perguntas sobre os responsáveis.

A lei do silêncio é garantia de impunidade. Os que se atrevem a violá-la sofrem as conseqüências, como sabem as jornalistas Diana Washington, filha de americano e mexicana, do jornal "El Paso Times" do Texas, e Lydia Cacho, prêmio nacional de jornalismo 2002 e colunista de "La Voz del Caribe", que apresentaram ultimamente na Cidade do México seus livros de denúncia sobre o que ocorre nos Estados de Chihuahua e Quintana Roo.

Estatística macabra

"Os policiais ligados ao narcotráfico me avisam para não ir a Ciudad Juárez porque têm algo preparado contra mim", escreve Diana Washington no epílogo de "Cosecha de Mujeres" [Colheita de Mulheres], fruto de seis anos de investigação sobre a estatística macabra na fronteira norte do México.

A jornalista conclui que cabe falar em "sacrifício" no momento de descrever os assassinatos de mulheres, na maioria mexicanas originárias de Ciudad Juárez ou do interior do país, que chegaram em busca de trabalho nas maquiladoras (fábricas montadoras) ou com a esperança de atravessar a fronteira para o norte.

As maquiladoras e o tráfico de drogas são os motores que impelem a economia dessa cidade. Segundo a investigação de Diana Washington, das mais de 430 mulheres assassinadas em Ciudad Juárez entre 1993 e 2003, cerca de 130 foram vítimas de assaltos sexuais.

A jornalista salienta que acrescentou a palavra "feminicídio" a seu vocabulário, e declara-se convencida de que todos os crimes impunes de Ciudad Juárez, qualquer que seja o gênero e a condição da vítima, têm a mesma importância.

Em sua opinião, a maioria dos assassinatos cometidos pelos homens contra mulheres, sejam familiares ou desconhecidas, são perpetrados para demonstrar poder sobre a vítima. São mensagens de domínio e poder, assim como as enviadas pelos narcotraficantes e o crime organizado por intermédio dos capangas.

Na última terça-feira (31/05), um grupo de mulheres se concentrou diante da sede do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos na Cidade do México, para entregar uma carta que pede a intervenção dos organismos internacionais, "diante da indiferença ou incapacidade do governo mexicano" com relação aos fatos ocorridos em Ciudad Juárez.

O coordenador residente da ONU, Thierry Lemaresquier, recebeu a carta e salientou que este é o caso mais grave de impunidade no continente.

A resposta mais estridente do governo à nova onda de crimes em diversos pontos do México foi do próprio presidente Vicente Fox, que disse que a culpa é do Congresso, concretamente dos partidos de oposição PRI e PRD, por terem impedido o projeto de lei sobre segurança que o Executivo enviou há um ano, no qual propõe uma reforma do Ministério Público e dos órgãos policiais.

A jornalista Lydia Cacho revelou em seu livro "Los Demonios del Edén" [Os Demônios do Éden] uma rede internacional de pornografia infantil que envolve, entre outros, Jean Succar Kuri, um próspero hoteleiro de Cancún, nascido no Líbano e atualmente preso em Dallas (Texas) à espera de julgamento e extradição para o México, e Miguel Ángel Yunes, subsecretário de Prevenção e Segurança Civil do governo federal.

"Escrever ou ler um livro sobre o abuso e o comércio de menores não é fácil nem agradável", escreve a jornalista na introdução. "Mas é mais perigoso guardar silêncio sobre o fenômeno."

Ela começou a trabalhar há dez anos com um grupo informal de mulheres, com o qual logo comprovou que o maior problema do Estado de Quintana Roo era a violência, especificamente a violência contra as mulheres.

"Havia muito poucas coisas que as mulheres pudessem fazer. A exploração é impressionante", explica. "Por exemplo, nos hotéis há muitas mães solteiras e os que têm creche nem oferecem o serviço."

Chantagem contra os filhos

Aquele grupo informal foi o embrião do Centro de Cuidados a Mulheres Vítimas de Violência, que funciona em Cancún há dois anos e atende a cerca de 300 mulheres por dia. A segunda parte foi a abertura de um refúgio pelo qual passaram cerca de 70 mulheres com seus filhos.

"Mudamos as crianças de escola para que os pais não as encontrem e tentem seqüestrá-las. Houve casos em que o pai utilizou os filhos como chantagem para recuperar a esposa", comenta a jornalista.

O trabalho mais arriscado é o resgate de mulheres ameaçadas ou vítimas de violência de seus maridos ou companheiros, "porque a polícia nunca chega a tempo".

Cacho explica que interveio em "casos superfortes", nos quais teve de enfrentar homens muito perigosos e bem armados. Há uma semana recebeu uma ligação no centro. Era a voz de um menino: "Meu pai tem um machado e quer matar minha mãe". Ele tinha escutado na rádio o número de telefone do centro e o discou.

"Chegamos à casa em questão de minutos. O homem ainda tinha o machado na mão. Conseguimos desarmá-lo e rendê-lo."

Normalmente atuam em grupos de três mulheres, que receberam curso de defesa pessoal e treinamento para desarmar homens violentos. "Em alguns casos policiais nos acompanham, mas não servem para nada. Não se atrevem a entrar e ficam na porta. Só intervêm quando conseguimos imobilizar o agressor." São freqüentes as chamadas anônimas ao centro e a presença de homens armados rondando o centro.

Lydia Cacho sofreu ameaças e perseguição de um narcotraficante cuja mulher esteve protegida no refúgio. Ele foi denunciado ao Ministério Público da República com informações detalhadas sobre suas atividades delituosas, o cartel a que pertencia, como traziam a droga da Colômbia, como a entregavam e quem a comprava.

"O processo desapareceu misteriosamente. Estamos convencidos de que esses sujeitos têm proteção do Estado." As ameaças diminuíram, mas a jornalista se move por Cancún com escolta. "Nunca acreditei nisso", diz, mas as denúncias que fez são muito graves, e não pode confiar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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