25/04/2006
Amor, a palavra mais bonita do espanhol
Winston Manrique
Em Madri
Mais uma brincadeira de Eros, que não ficou quieto nem na eleição da palavra mais bela do espanhol. De pouco adiantou que 7.130 vocábulos lembrassem suas eufonias na Internet para escolher o mais belo, porque os cibernautas deixaram-se seduzir mais pelo conceito que pelo som. E "amor" foi a escolhida, o resultado da convocação feita em 31 de março pela Escola de Escritores de Madri em seu site na web para comemorar o Dia do Livro, nesta segunda-feira.
São muitas as palavras mais eufônicas do que a do deus grego. Mas até a quinta mais votada não aparece uma com o espírito lúdico-lingüístico desse jogo. O de vasculhar os sons do espanhol até encontrar sua combinação mais bonita: "azahar" [flor de laranjeira ou limoeiro].
Obnubilados pela palavra amor estão 3.364 internautas que votaram nela, dos 47.057 que participaram da convocação (23.386 da Espanha e os demais da América e do mundo). E depois de amor outras três palavras de origem latina que, mais que estética, expressam o desejo de bem-estar: liberdade, paz e vida.
Receita de um abracadabra para a felicidade que ninguém recusa. "Todos acreditamos, como Borges, que na palavra Nilo flui o Nilo, e por isso mesmo pensamos que na palavra amor vivem todos e cada um dos amores passados, presentes ou futuros. Se perdêssemos a palavra amor, perderíamos a possibilidade de senti-lo. E o mesmo acontece com as outras quatro. Não deve parecer falta de imaginação que as pessoas as tenham preferido a outras: as quatro expressam realidades essenciais, são 'o nome exato das coisas, a própria coisa'", opina Andrés Trapiello, autor de "El arca de las palabras".
E embora amor não seja a mais bonita foneticamente "sua associação com o que denomina e representa é o que a torna bela ao ouvido", reflete Gregorio Salvador Caja, filólogo e vice-diretor da Real Academia Espanhola. "Não há dúvida de que as pessoas escolheram o assunto, porque é uma palavra insossa", disse o escritor e acadêmico Álvaro Pombo. Para o autor de "Contra natura", "foi uma escolha infantil. Prefiro arabesco e 'chévere' [bacana]".
São palavras da estirpe sonora de "azahar": "Flor de laranjeira ou de limão; alguns dizem que vale tanto quanto Vênus, outros que vale flor", segundo definiu Sebastián Covarrubias no primeiro dicionário da língua castelhana, em 1611. Mas Salvador Caja se surpreende de que seja a primeira a aparecer por sua eufonia. "A maioria dos hispanófonos a pronuncia com 's'; além disso, o 'h' é mudo e um dos 'as' costuma desaparecer, dando como resultado 'azar' [acaso], um componente essencial da vida humana."
E depois de "azahar" outros vocábulos de força conceitual: esperança, mãe, mamãe, amizade, e em décimo lugar outra eufonia real: libélula. Foram 22 dias de reencontro com a língua. De redescobrir a beleza em nomes comuns como pão, azul, albahaca [alfavaca], mandarina [tangerina], jarro, burbuja [borbulha], ultramarino, algarabía [algaravia], chancleta [tênis], joder [foder] ou cristal, que em outro concurso há algumas décadas foi a vencedora.
De apreciar vocábulos de significados ingratos ou feios: sibilino [enigmático], zurullo [excremento], odio [ódio], malandrín [malandro], melancolía, zurriburri [confusão] ou tristeza, que quando uma criança a pronuncia já diz quase tudo, escreve María Marco, de Guadalajara.
De agradecer pelo resgate de birlibirloque [magia], jitanjáfora [texto sem significado mas bonito], aralia [arália, uma planta], cencellada [neblina], zurumbático [sorumbático] ou sicalipsis [obscenidade]. Ou de brincar com raridades do tipo tiquismiquis [escrúpulos], lapislázuli, chilindrina [miudeza], ñiquiñaque [insignificante], vincapervinca [planta], jacarandoso [garboso], refunfuñar [resmungar] ou esternocleidomastoideo [esternoclidomastóideo, um músculo].
Por sorte há muitas palavras belíssimas, lembra Trapiello. "As importantes são breves na maioria das línguas. 'Sim', por exemplo, é uma das mais belas em todos os idiomas. Mas, se sim é a mais bela, 'não', conforme a pessoa entenda a vida, deve ser a mais difícil e a mais necessária, e por isso duplamente bela. E lembrar o que dizia Paul Celan: 'Habla, / pero no separes el No del Sí. / Y da sentido a tu decir: / dale sombra' [Fala, /mas não separes o Não do Sim. / E dá sentido a teu dizer: / dá-lhe sombra]."
E o segredo do sim é conhecido de Salvador Caja: "É uma palavra pela qual muita gente suspira várias vezes na vida. A vida se compõe de sins e de nãos; e os sins são desejados e apetecíveis". Assim como a palavra eleita.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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