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01/06/2006
Timor Leste desperta do sonho

Miguel Mora
enviado especial a Dili


Bandos de adolescentes violentos continuam aterrorizando com suas brigas étnicas todos os dias o bairro de Comoro; ontem houve um ferido grave e vários incêndios de barracos e pequenas casas. Enquanto isso, os tanques e helicópteros australianos patrulhavam a cidade. Ninguém foi detido.

O exército está acantonado, a justiça não funciona -embora os países de língua portuguesa tentem implementá-la-, a polícia está desaparecida há um mês, a população faz filas durante horas para receber arroz e o pânico dos ataques já produziu 60 mil refugiados e deslocados que ontem não se moveram de seus esconderijos, apesar de já estarem em vigor as medidas especiais de segurança.

Bem-vindos ao paraíso: Timor Leste, um dos países mais pobres, queridos e pequenos do mundo. Tem 857 mil habitantes e a mesma extensão que a província espanhola de Albacete. Um país muito bonito, amado por muita gente -o ex-presidente americano Bill Clinton e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan-, mas talvez bem situado demais: desde o início dos tempos foi invadido por viajantes -chineses, portugueses-, muitas vezes foi espancado e assassinado por seus vizinhos -chineses, japoneses, indonésios, malaios.

Que diabos aconteceu para que o mundo tenha deixado de festejar como vitória global a independência de Timor Oriental e de elogiar a coragem e a civilidade de seus heróicos governantes para pensar que é um Estado fracassado à beira do precipício? A resposta é complexa, porque, como diz um assessor do presidente Xanana Gusmão, "neste país nada nunca é linear". Mas há um conjunto de fatores que surgem pouco a pouco como motores da aguda crise atual.

Timor tem a maior taxa de fertilidade do mundo -7,8 filhos por mulher-, um solo árido e muito pobre que mal chega para alimentar a população, uma idade média de 20 anos, nenhuma indústria digna desse nome e um desemprego galopante e sem subsídios que o compensem. Parece suficiente para deixar qualquer um em apuros. "O Estado está em transição e construção, a metade da ajuda externa é dedicada a pagar os assessores estrangeiros, ainda não há aposentadorias nem lei eleitoral, nem quadros técnicos bem formados, e (Mari) Alkatiri (o primeiro-ministro) prefere guardar as receitas do petróleo, cujo fundo de reserva já soma mais de US$ 600 milhões, a distribuí-lo demagogicamente entre as pessoas", diz um diplomata europeu.

Mas é a deterioração da relação institucional entre as três figuras políticas máximas do país -o presidente Xanana Gusmão, o primeiro-ministro Mari Alkatiri e o ministro das Relações Exteriores, José Ramos-Horta- o que parece estar agora no centro do problema. "Os três são amigos desde a adolescência, por isso não se levam muito a sério", diz uma fonte próxima a Gusmão. "Alkatiri e Gusmão se respeitam e se temem igualmente, mas sempre acabam se entendendo", diz um assessor do presidente.

A dupla Alkatiri-Ramos é a que rachou. A Igreja, a Austrália, os EUA, o petróleo e a ambição de poder surgem como as questões chaves de uma rixa que começou discreta e começa a se agravar diante da negativa de Alkatiri a se demitir e da necessidade imperiosa de colocar Ramos-Horta à frente da Defesa para recompor o exército e a polícia.

Mas Ramos-Horta quer mais que o Ministério da Defesa. Sabe que tem todo o apoio e a influência internacional de uma Igreja Católica que presume contar com 98% de católicos no país e que não hesitou em catalogar o primeiro-ministro como muçulmano e comunista. Os padres criticaram ferozmente a aposta em separar a Igreja do Estado -há religião opcional nas escolas- e criticam suas políticas sociais como próprias "do Terceiro Mundo mais retrógrado". Alkatiri manda estudantes com bolsa a Cuba e em troca contratou 500 médicos cubanos para os hospitais públicos.

Segundo indica uma fonte da cooperação européia, trata-se de uma luta sem quartel: "O partido de Alkatiri, o Fretilin, é a única organização, com a Igreja, que está implantada em todo o território. Para os padres locais, é um partido de Marx contra Deus". Há exatamente um ano, em abril de 2005, os bispos de Dili e Baucau, com a colaboração do embaixador americano, John Rees, homem de confiança de Bush e que ajudou a distribuir comida entre os manifestantes, lançaram o primeiro desafio de rua ao governo "infiel" de Alkatiri.

"Ofereceram ônibus e sanduíches e organizaram um acampamento no centro de Dili. Foi muita gente e gritava: 'Viva Cristo, morte a Alkatiri'", lembra um funcionário da ONU.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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