11/02/2007
Yoko Ono, cantora: "Sempre me considerei à frente do meu tempo"
Diego A. Manrique
em Madri
Yoko Ono (nascida em Tóquio em 1933) está em uma boa fase no que diz respeito à aceitação de sua música. Os "remixes" para pista de dança de seus temas "Walking on Thin Ice" e "Everyman" chegaram ao topo das paradas de "dance music" dos EUA em 2003 e 2004, uma alegria para alguém que começa a dançar "quando toca alguma coisa otimista".
Hoje está sendo editado internacionalmente "Yes, I'm a Witch" (Astralwerks / EMI), um disco interessante em que figuras atuais reconstroem gravações da artista japonesa. Entre os participantes estão Peaches, Le Tigre, Polyphonic Spree, The Flaming Lips, Cat Power, Antony, Craig Armstrong e DJ Spooky.
Yoko não esconde seu entusiasmo diante desse reconhecimento por parte de um setor inquieto do pop contemporâneo: "São artistas do mundo 'indie' [independente], que não trabalham para grandes companhias. Se eu começasse agora, certamente seguiria seu caminho: em atitude, me considero uma artista indie. Graças ao meu filho Sean pude trabalhar com esses grupos e admiro sua pureza criativa. Muitos deles são tão viciados em trabalho quanto eu".
Talvez não seja válida aquela queixa de John Lennon: "Yoko é a artista famosa menos escutada do mundo". Um sorriso: "Sempre me considerei à frente do meu tempo, e isso o confirma. Para 'Yes, I'm a Wtch', a gravadora chamou muitos grupos e solistas; todos aceitaram.
"Eu escolhi os que me interessavam mais e lhes dei a máxima liberdade: podiam pegar qualquer tema meu e recriá-lo à vontade; inclusive podiam usar versões alternativas. A maioria dispensou os fundos instrumentais - que eram rock demais para o som que se faz agora - e construiu uma instrumentação totalmente nova ao redor da minha voz".
É difícil acreditar que Yoko aceitasse cegamente essa reinvenção da sua obra. Ela reconhece que passaram um filtro: "Em alguns casos pedi que modificassem detalhes, mas a verdade é que me chegaram trabalhos muito cuidados, muito respeitosos. Há casos, como o de Flaming Lips, em que realmente se fez uma obra nova a partir do que eram meus gritinhos".
Afirma que os participantes souberam chegar ao coração das letras: "Gosto muito dos temas mais fantasiosos, mas me emocionou 'Revelations', que agora é uma canção de piano bar, com Cat Power me acompanhando".
Os colaboradores também elogiam Yoko.
Peaches: "Trabalhar em 'Kiss kiss kiss' me fez perceber como Yoko foi criativa, futurista, audaciosa em seu enfoque da música".
Johanna Fateman, do LeTigre: "Yoko Ono sempre foi uma heroína para nós, uma influência indubitável: é uma artista que habita um espaço em que se misturam a cultura pop, a arte conceitual e o ativismo".
Boa parte de "Yes, I'm a Witch" enfatiza a mensagem feminista de Yoko. "O título 'Sim, sou uma bruxa' não é casual: nós, mulheres, devemos resgatar esses estereótipos machistas. É evidente que a resistência à minha música teve muito a ver com o fato de ser assinada por uma mulher, e além disso asiática. Quer dizer, no circuito de vanguarda havia artistas masculinos que tinham uma expressão mais extremista que a minha, e sua coragem era reconhecida. Para mim, só havia insultos e piadas. Acusaram-me da separação dos Beatles e me fizeram pagar por algo de que não fui responsável".
Em que momento percebeu que havia uma maior compreensão de suas propostas sonoras? "John percebeu antes que eu. Ele estava em um clube em 1980 e escutou os B-52's e outros grupos de 'new wave'. Me telefonou excitadíssimo: 'Os rapazes estão se aproximando do que você fazia!' Depois de sua morte, senti uma onda de simpatia que superava o pessoal e chegava ao artístico. O disco de versões de meus temas [Every Man Has a Woman, 1984] partiu de uma idéia de John, mas me encantou a participação de Elvis Costello e outros cantores com os quais nunca tivéramos contato".
As condições exigidas para esta entrevista passavam por não me afastar da atualidade - o lançamento de "Yes, I'm a Witch" -, mas a essa altura do jogo vale a pena tentar aproximar-se de outros assuntos. Como a agressividade com que Yoko vende o legado de Lennon. Ela responde com certa tensão, mas de forma contundente: "Não creio que eu tenha feito algo extraordinário. Se não tivesse publicado nada, diriam que eu tinha esquecido John. A verdade é que hoje em dia se você não usar o marketing desaparece da memória das pessoas.Por isso procuro que todo ano haja uma novidade de John, seja uma reedição, um documentário ou uma antologia. Tudo foi feito com gosto, não foi como Elvis Presley".
Mas restam curiosidades inéditas: em discos piratas, circulam simpáticas gravações caseiras de John realizadas durante seus anos de invisibilidade no Dakota em Nova York. Yoko não parece entusiasmada por esse material: "Eram brincadeiras, entretenimentos musicais que fazia para nosso filho, versões humorísticas. Podem ter certo encanto, mas duvido que representem John como artista".
Bem, muitos de nós também lamentam que Lennon seja representado por "Imagine", que é intelectualmente incongruente e melodicamente previsível.
Yoko não cai na armadilha: "Você pode pensar o que quiser, mas 'Imagine' tem um poder maior do que outras canções mais complexas de John. Crianças de todas as raças sabem cantá-la. É o hino mundial do desejo de paz".
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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