15/03/2007
"Só vivi no ano em que Saddam caiu"
Ángeles Espinosa
enviada especial a Bagdá
"Quero viver", resume Tarek quando lhe pergunto sobre suas aspirações. Tarek tem 24 anos, um bom emprego e um salário que lhe permite alguns caprichos. Mas é iraquiano, e sua vida foi limitada pela violência. Como tantos outros jovens de sua geração, perdeu a esperança e confia somente que seu bom inglês e os contatos conseguidos no emprego permitam que ele comece uma vida fora daqui. A maioria nem mesmo pode ter esse sonho. Os que não se unem às forças de segurança ou às milícias enterram sua frustração nos videogames. "Só vivi um ano da minha vida: foi o ano em que Saddam caiu", afirma Tarek (nome fictício para proteger sua identidade) com um sorriso nostálgico.
"Estava na universidade, ainda me faltavam dois semestres para acabar a licenciatura em inglês, mas encontrei um jornalista americano que procurava um tradutor, e com os US$ 2 mil que ganhei trabalhando dois meses para ele comprei um carro." Essa experiência permitiu que ele encontrasse logo um emprego numa companhia estrangeira. De repente, abriu-se diante dele um mundo de possibilidades que nunca havia imaginado. "Saía com minha namorada e podia levá-la a restaurantes que antes nem sabia que existiam. Foi uma época maravilhosa. Pensei até em me casar", admite.
Mas agora se alegra por não ter feito isso. "Imagine a responsabilidade e a angústia pela segurança dos seus. Meus pais estão a salvo no sul, mas eu vivo aqui e esta cidade não é lugar para formar uma família." Tarek trabalha e mora na sede da companhia em Bagdá, em um complexo discreto, com vigilância armada. Tem folga um dia por semana e só a cada dois ou três meses se arrisca a viajar até Aziziya para ver sua família.
"Apesar de lá a situação estar tranqüila, o trajeto é perigoso demais", salienta. Uma vez viajou sem pensar. Foi há pouco mais de um ano, quando seu irmão foi ferido no único atentado que ocorreu nessa cidade. "Felizmente ele se recuperou sem problemas."
Essa vida recatada permitiu que ele acabasse os estudos enquanto trabalhava. Mas sua ocupação exige que saia à rua. Sabe que foi contratado para evitar esse risco aos empregados estrangeiros da companhia. É seu contato com o exterior. "Em certa ocasião tive um mau pressentimento, saí em disparada com o carro", lembra. Foi em Adhamiya, um bairro que se transformou em feudo dos radicais sunitas. Não voltou. "Também não vou a certas áreas onde minha condição de xiita pode me causar problemas. Para isso temos empregados xiitas", explica, sem esconder seu incômodo com o esquema. "Para mim, todo esse assunto da violência sectária minou minha fé", admite.
"Era uma pessoa religiosa, mas o que estou vendo me dá náuseas. As manifestações religiosas deveriam ser proibidas diante das conseqüências que têm", afirma, baixando o tom de voz como se temesse que alguém no saguão vazio do hotel pudesse escutar. Depois se interessa pela Costa Rica, onde está a Universidade da Paz da ONU, na qual espera ser admitido no próximo curso. "Arruinaram meus melhores anos e não estou disposto a que arruinem o resto da minha vida."
Sua reflexão vale para 61% dos iraquianos de menos de 25 anos. Ao nos despedirmos, passamos diante de Ahmed, 21, que por não saber um idioma estrangeiro ganha a vida vigiando a entrada do hotel com uma arma na cintura. Os vigilantes particulares proliferaram tanto quanto as milícias.
Ahmed sorri sem pensar no risco que corre. Abaixo, no porão, Nasser, 23, cuida do sistema de informática, para que os clientes (quase todos jornalistas) não fiquem sem Internet. Os dois dormem no hotel. "Mesmo que fôssemos para casa não poderíamos fazer muito mais", consola-se o técnico.
Eles sabem que são felizes por ter um emprego. O desemprego atinge 50% da população. Husam, Muthanna e o resto do grupo de jovens universitários que foram meus vizinhos em Karrada passam o dia dormindo e as noites jogando no computador. "Depois dos atentados contra a universidade, prefiro que ele não vá às aulas", diz o pai de Husam, que inclusive deixou de pedir que o filho procure trabalho. "Eu me conformo em saber que está a salvo com algum dos vizinhos que conheço." Sua irmã, Zeinab, nem mesmo deixam sair de casa.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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