08/06/2007
Paciente tem a mão direita implantada no braço esquerdo
De Jaime Prats
Em Valência
Quarenta anos depois de perder a mão esquerda, I. L., 63 anos, a recuperou em troca de perder a mão direita. Esse paciente procurou o cirurgião Pedro Cavadas para lhe pedir um implante. Queria recuperar sua mão por meio de um enxerto obtido de um doador morto. Mas a solução que o médico deu o fez mudar de planos.
O paciente sofreu há três anos um derrame cerebral que lhe provocou uma hemiplegia (paralisia) do lado direito. Como tinha a mão desse lado inutilizada, o médico lhe propôs uma troca de extremidades e transferir sua mão direita, unindo-a ao pulso esquerdo.
Assim se evitaria um dos principais problemas que costumam sofrer os pacientes submetidos a implante de membros alheios: a rejeição. Por ser sua própria mão, o corpo não entenderia como um membro postiço ou estranho e assim não passaria a rejeitar a nova mão. E o mais importante é que se evitaria o uso do poderoso coquetel de medicação imunossupressora, com os efeitos secundários incômodos que provoca.
I. L. aceitou a sugestão e foi operado em 29 de maio na clínica El Consuelo de Valência, a cargo da Fundação Pedro Cavadas.
"O mais complicado foi mudar o polegar de lugar", indicou na segunda-feira o especialista, ao lembrar a intervenção.
Trocar a mão esquerda pela direita implica ter todos os dedos ao contrário, o que é especialmente antinatural no caso do polegar, que fica no extremo oposto de onde deveria. Para evitar esse efeito, a equipe do cirurgião extraiu o polegar e o colocou ao lado do dedo mínimo, de forma que a mão direita simula a esquerda.
"Continua estranho o mínimo no lugar do indicador", ele disse, e por isso deseja fazer novas operações para ter uma mão mais harmoniosa.
Na intervenção, a equipe de Cavadas desviou o tendão -a correia de transmissão dos músculos- do polegar para sua nova posição ao lado do mínimo. Além disso, reinverteu a ordem dos nervos, de forma que sejam as mesmas conexões nervosas que os movem, apesar da mudança de mão.
Fama não convencional
Pedro Cavadas ficou famoso por suas operações pouco convencionais. "Filigranas cirúrgicas", como as definiu na segunda-feira o presidente da Sociedade Espanhola de Cirurgia Plástica, Reparadora e Estética (Secpre), Antonio Porcuna, que destacou a habilidade do médico valenciano.
Em dezembro passado, dessa vez com uma equipe do hospital La Fe de Valência, cirurgiões dirigidos pelo especialista reimplantaram as duas mãos em uma mulher que as havia perdido 28 anos antes em uma explosão.
Tratava-se do sétimo transplante bilateral praticado no mundo e o primeiro na Espanha. A paciente está em plena fase de reabilitação para recuperar a mobilidade e sob um tratamento imunossupressor que a acompanhará por toda a vida.
Outra operação praticada em 2004 levou Cavadas a enxertar por nove dias um braço à virilha do mesmo paciente para limpar um pulso infectado e voltar a realizar o implante. O médico também repercutiu na mídia devido à divulgação por parte de sua fundação das intervenções que praticou em temporadas no Quênia -basicamente queimaduras e traumatismos- ou por trazer crianças desse país que haviam sofrido amputação de pênis em ritos tribais, para reconstruí-los.
Cavadas "é uma pessoa que praticou operações arriscadas e meticulosas", disse Porcuna. Mas não é o único. O presidente da Secpre deu o exemplo de César Casado, chefe do serviço de cirurgia plástica do hospital La Paz de Madri, que já fez vários reimplantes.
"São intervenções que não podem ser feitas por qualquer um, exigem um cirurgião treinado e preparado", comentou.
Além disso, mencionou o desenvolvimento de próteses de última geração cada vez mais aperfeiçoadas, que podem devolver grande parte da mobilidade perdida sem os efeitos secundários dos medicamentos contra rejeição.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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