12/09/2007
Stepney, o rancoroso
O. Puigdemont e M. Serras Em Barcelona
Parece que Nigel Stepney é animado pelo rancor como motor de sua vida profissional. Ou pelo menos é o que se depreende de sua atuação no caso já chamado de "Stepneygate". O ex-engenheiro da Ferrari teria vazado o "dossiê de informação confidencial sobre detalhes técnicos específicos dos bólidos do cavalinho empinado" para Mike Coughlan, chefe de design da McLaren-Mercedes, como vingança por não se sentir promovido na empresa depois de sua dedicação, sobretudo desde a saída de Michael Schumacher, sete vezes campeão do mundo de Fórmula 1.
Quando o piloto alemão pendurou o macacão, não saiu sozinho da escuderia italiana. Ross Brawn, seu engenheiro de confiança, decidiu tirar um ano sabático. Stepney, que conheceu os dois na Benetton e também foi com eles para a Ferrari, interpretou que havia chegado seu momento. No entanto, Jean Todt, diretor esportivo da Ferrari, inclinou-se por Luca Baldisseri, e em 23 de fevereiro passado Stepney foi nomeado novo chefe de desenvolvimento da Ferrari, um cargo tão pomposo quanto enganoso: sua presença nas corridas já não era imprescindível.
 | | | Stepney (no chão) cai durante o pit stop de Schumacher, no GP da Espanha em 2000 |
Até hoje, as investigações realizadas sobre o caso de espionagem apontam que o "dossiê com as informações sobre a Ferrari estava nas mãos de Coughland em março passado, pouco depois de Stepney assumir sua nova função na equipe de Maranello. No entanto, o engenheiro não parou aí. Durante os treinos para o último Grande Prêmio de Mônaco, em 27 de maio, a polícia científica encontrou um estranho pó branco no interior dos tanques de combustível das F2007 de Kimi Raikkonen e Felipe Massa. Apenas um mês depois, a Ferrari denunciou Stepney por sabotagem e, com argumentos legais suficientes, o demitiu.
Até então, esse engenheiro britânico de 48 anos realizava as funções de coordenador de equipe, e uma de suas principais tarefas era estudar e coordenar os reabastecimentos dos pilotos durante as corridas. Assim, ele sabia de muita coisa porque convivia com tudo aquilo pessoalmente. Que perguntem a Schumacher, que o atropelou ao sair de seu primeiro reabastecimento no Grande Prêmio da Espanha de F1 em 2000, causando uma luxação em seu tornozelo.
O suplente de Stepney acusou a pressão, ou o medo, porque a segunda entrada de Schumacher nos boxes demorou mais de 12 segundos. Tanto ele sabe dessas coreografias que uma comitiva do Great Ormond Street Hospital de Londres, um dos principais hospitais infantis da capital britânica, se deslocou até Maranello para que Stepney e sua equipe os assessorassem com o fim de melhorar o traslado dos pacientes recém-operados.
"O que mais me surpreendeu", afirmou Stepney a este jornal, quando ainda vestia o uniforme da Ferrari, "foi que no processo de traslado dos pacientes não ficava clara quem estava no comando, a pessoa que segurava a batuta". Os médicos adaptaram as técnicas de análise e os conselhos de otimização do processo que Stepney lhes deu. Um estudo posterior revelou que, depois de incorporar o protocolo herdado da F1, a média de erros técnicos durante o traslado dos pacientes se reduziu em 42%.
Apesar de a figura desse engenheiro inglês ter perdido o brilho nos últimos dois anos, seu nome começou a se sujar dentro dos boxes alguns anos antes. Stepney foi mecânico da escuderia Benetton nos últimos anos da década de 1980 e primeiros da de 90. No entanto, um acontecimento obscuro - o desaparecimento de uma caixa em que havia dinheiro para ser usado durante as viagens - levou Joan Villadelprat, então chefe de operações da equipe, a demiti-lo. Antes de deixar a equipe, Stepney teve tempo de fazer amizade com outro mecânico da Benetton: Mike Coughlan, com quem já tinha coincidido antes em uma empresa do designer de carros de corrida John Barnard. Agora voltam a ter algo em comum: Ferrari e McLaren, as empresas para as quais trabalhavam, os demitiram.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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